Semana em Memória ao Golpe

Balanço da semana de atividades realizadas entre os dias 31 de março e 3 de abril de 2014 em memória ao golpe militar de 1964.

Nesta semana em que lembramos e refletimos os 50 anos do Golpe civil-militar de 1964, o GMarx marcou presença com suas atividades.

Sua primeira atividade, “Às vésperas do golpe”, na segunda-feira, 31 de março, foi iniciada com o debate “Crise política, violência policial e violação de direitos: na véspera do golpe, 50 anos depois”. Nele, debatemos a participação parlamentar no golpe de 1º de abril de 1964 com David Ricardo Ribeiro; a violência policial com Ângela Mendes de Almeida do Observatório de violências policiais (http://www.ovp-sp.org); e as arbitrariedades da repressão com os Advogados Ativistas (http://advogadosativistas.com). Entre a ditadura fascista do passado e a democracia racionada do presente, discutimos as dificuldades de compreensão e as possibilidades de ação.

Para finalizar a véspera do golpe, exorcizamos os demônios torturadores/estupradores/assassinos e malhamos o General, deixando seu corpo arder em chamas em memória de todos os corajosos heróis que caíram – e também os que sobreviveram – na árdua batalha contra o regime ditatorial.

O dia 1º de abril marcou a abertura do evento Memórias Militantes. Iniciamos as atividades com a projeção de grandes filmes contra a ditadura e finalizamos com os lançamentos dos novos volumes da Coleção Memória Militante. Em especial, ficará para a história – principalmente a nossa – o lançamento de Assalto ao Céu do GMarxista mais ilustre e batalhador, Takao Amano. Neste livro de memórias, que tem tudo para se tornar um dos mais citados entre historiadores do comunismo e militantes da causa popular, Takao conta sua história, sempre de seu peculiar ponto de vista anti-narcisista, pensando a história individual a partir do contexto coletivo, social. Obra-prima que abarca desde a vinda de seus antepassados do Japão, passando por sua infância em São Miguel, sua militância no movimento estudantil, PCB e ALN, passando por seu exílio em Cuba, URSS e Húngria e seu retorno ao Brasil. Aqui, conta de sua militância no PCB, no PT e até sua participação neste GMarx! Isto sem esquecer de relatar seus momentos com a família, os filhos e os amigos. Só podemos ficar radiantes de termos podido participar do lançamento de um livro de tal envergadura.

No dia seguinte, discutimos as Edições e as Revoluções, do golpe de 64 aos best-sellers da resistência, da França ao Brasil. Vimos ainda o poderoso filme Marighella e discutimos a memória da luta com as figuras centrais da ALN, Guiomar Silva Lopes e José Luiz Del Roio.

Na quinta-feira, dia 3, resgatamos a memória, com os militantes de outrora e de agora. Tivemos uma mesa de espetacular discussão com o militante da ALN Artur Scavone, e o também militante e atual presidente da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, Adriano Diogo, com a historiadora Mariana Joffily e com a militante da Frente de Esculacho Popular e diretora do filme Verdade 12.528, Paula Sacchetta.

Encerramos o evento, como não podia deixar de ser, discutindo as continuidades da Ditadura e os limites da Democracia. A militante do Movimento Passe Livre, Monique, e o membro da direção nacional do MST, João Paulo Rodrigues; o professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da Eca, Bernardo Kucinski e o professor da Faculdade de Direito, Jorge Luiz Souto Maior; esses foram os convidados que colocaram algumas das questões centrais que norteiam as discussões das esquerdas e as contradições da sociedade brasileira.

Com os esforços e a dedicação do GMarx, pudemos deixar claro que estamos dispostos à luta pela memória de nossos combatentes e pela conquista de nossos objetivos comuns; pela denúncia dos crimes cometidos contra aqueles que nos inspiram e pela transformação social completa da sociedade capitalista.

Vivemos em clima desfavorável, de revisionismos imperdoáveis e pensamentos ditos “pós-moderno”. Vivemos em um mundo em que a juventude tem, segundo o relato certeiro de Takao Amano:

"[...] uma enorme vontade de mudança, de transformação, mas com uma esquerda completamente fragmentada, com reivindicações estanques e sofrendo uma brutal repressão. Com a ditadura sem ditadura, com a democracia em regime de exceção. Com a imposição da burguesia nacional e internacional, aliadas ao judiciário e ao oligopólio das comunicações."

Nesse ambiente, reafirmamos nossa posição crítica e de busca da transformação social. Como nos lembra Jean-Paul Sartre, em seu tão citado Questão de Método, o marxismo é a filosofia de nosso tempo e ele só terá deixado de ser, quando as condições que nos cercam deixarem de existir. Muitos afirmariam que as condições deixaram de existir com a queda do Muro de Berlim (ou “Muro antifascista”, como o chamavam na DDR) e a derrocada da União Soviética e demais países socialistas. Nesta situação, o marxismo teria deixado de existir e nós não passaríamos de fantasmas a sumir no horizonte.

Mas hoje, demonstramos, junto a todas e todos que se uniram, nas mais diversas formas, para execrar aquele fato ocorrido 50 anos atrás, que estamos de pé e dispostos a disputar as mentes e os corações. Com nossas atividades, reafirmamos nossas posições na batalha das ideias.

Hoje foi grande. Amanhã vai ser maior.

Felipe Castilho - membro do Gmarx.