Nota a Capes

Em 2014, completam-se 50 anos do golpe militar de 1964. Durante 20 anos, a caserna tentou controlar de todas as maneiras a vida e o pensamento da sociedade brasileira. Passados 30 anos da abertura, o que é sabido mas se torna explícito nesse caso, as pretensões ao pensamento único trocaram de quartel general.

O edital Procad 071/2013 da agência de fomento a pesquisa Capes recebeu um projeto intitulado "Crise do Capital e Fundo Público: implicações para o trabalho, os direitos e as políticas sociais" que teve o pedido negado com o seguinte parecer:

 

"Projeto afirma basear-se no método marxista histórico-dialético. Julgo que a utilização deste método não garante os requisitos necessários para que se alcance os objetivos do método científico" (…) "considerando a metodologia a ser empregada - cujos requisitos científicos não tem unanimidade - a proposta pode ser considerada pouco relevante" (…) "a formação proposta estaria no âmbito do método marxista histórico-dialético, cuja contribuição à ciência brasileira parece duvidosa".

 

Infelizmente, muitos pareceristas aproveitam-se do anonimato não para julgar com critérios estritamente acadêmicos (conforme apregoam) o financiamento público a projetos de pesquisa e sim para fazer inaceitável patrulhamento político e ideológico. Com desfaçatez, atribuem às suas vítimas os preconceitos ideológicos que eles próprios revelam em seus pareceres esdrúxulos. Juntam-se a eles as notas dadas a revistas e programas de pós-graduação e os rankings das universidades, acabando por circunscrever as pesquisas à perspectiva da classe dominante sob a justificativa de aproximar as universidades brasileiras a um suposto ensino de ponta das universidades estadunidenses e europeias.

Estes mecanismos favorecem um discurso hegemônico que justifica o status quo. Sob a falsa ideia de critérios "científicos", como vemos no caso em tela.

Isso nada tem a ver com a produção de conhecimento autônoma, que deveria responder às necessidades sociais. Essa situação coloca em suspeição todo o trabalho da agência de fomento. Urge que seu Presidente se posicione publicamente contra tais práticas e abra um processo de discussão aberta com a sociedade sobre os procedimentos secretos e injustos de avaliação de projetos de pesquisa.

 

Grupo de Estudos Marx (GMarx) - USP