Um Relato do Encontro de Educação Popular

Ciro S.

2015

 

Fiz um favor a mim mesmo e aceitei o convite da Liz, fui ao Encontro de Educação e Poder Popular ontem, quem recebeu o povo foi a Rede Extremo Sul. A Plenária do encontro aconteceu no amplo Barracão da ocupação, que fica para além do Grajaú, no Jardim União, que não está no mapa ainda, mas fica bem fundo entre dois dos braços mortos da Represa Billings, ressuscitados por decreto pelo Governador. É difícil descrever o que foi discutido, quem eram as pessoas, suas histórias de luta e suas preocupações. Quando se lê um relatório não sentimos, é preciso algumas horas para sentir. Como dizia Leminski: "sentir é muito lento", para compensar a secura "que vem de dentro", é preciso tempo.

 

Recepção

Cheguei às 10 horas querendo voltar, mas fiquei entre estranhos por pouco tempo. Saí de lá pelas 18h achando que devia ficar um pouco mais. Havia ali dezessete coletivos, representados por mais de cem lutadores sociais que não admitiam rótulos ou direção, vindos desde um cursinho popular de Hostolândia, ocupações, coletivos de professores, e um tanto de outras organizações que sequer imaginava a viabilidade imaginária. Professores, atores, poetas, historiadores, educadores... lutadores, na verdade lutadoras, se pensar na maioria... Após as plenárias, os seis grupos se distribuíram para discutir temas que passavam por autonomia, teoria e prática, finanças, Estado, poder, creches, autoritarismo nas relações da esquerda, cadeia, teatro, evasão, horta comunitária, reciclagem de lixo, e despejo... que era pronunciado entre os dentes como temor proibido, um horros impregnado na memória de outras tantas batalhas, um horror que põe fim à vida das cidades. Tudo aconteceu na cozinha comunitária, ou na biblioteca, ou no amplo barracão de corado com pinturas, cordéis e palavras de ordem desenhados nas paredes, meninos entravam com seus cachorros, olhavam acostumados, saíam. Almocei com um documentarista que me conhecia do Clube da Máfia, além do pessoas do Bonde da História: - você eu conheço, acho que te vi na delegacia da Liberdade em 2013. Junho era um lugar por onde todo mundo ali passou.

Comemos arroz, feijão e macarrão, salada de couve, frango frito e um peixe maravilhoso, na casa de uma senhora localizada na rua da luta. Havia muitas mulheres. Conheci a Carol, da rede e entreguei três revistas Mouro para a biblioteca, falamos sobre Educação não formal, que já foi matéria da Mouro - "Educação como acontecimento", como se diz no meio. Depois fui às compras, na cooperativa de costura quase não tinha camisetas de homem, as mulheres lutam mais.

 

Duas palavras

Dois meninos negros moradores do Jardim União falaram primeiro, e falavam muito bem, digo na forma e conteúdo. Disseram que não sabiam da distância da teoria e prática porque não sabiam da teoria: do anarquismo e do marxismo, e diziam que pensar na prática era a luta, e ela era como uma extensão de suas vidas. Acho que queriam saber por que faz tanta diferença saber da teoria, se é ela que desbota primeiro ao sol. E, de fato, na teoria duas flores que emocionam o coração de um velho comunista não poderiam estar ali, nascendo no asfalto!.... ou só ali seria possível?

No trabalho de grupo, uma jovem militante da Rede 2 de Outubro se perguntava como falar sobre liberdade para presos, ela perguntou várias vezes como se não pudesse viver sem tentar responder a pergunta. A conversa ficou interrompida, era hora de subir ao barracão. Mas a palavra Tortura ficou ali no meio do círculo com uma presença que não se envergonha de si. Tortura. Tortura.

 

Canto de Liz

Por fim veio a "socialização" que é o termo que a esquerda burocrática enterrada em Brasília um dia chamou de "sistematização de propostas". O plenário se reuniu e se deu a "conversa", eram poucos os pontos repetidos, talvez pela diversidade de frentes ou pela riqueza dramática de experiências, provavelmente, as duas coisas. Duas vezes um assunto se repetiu, a boca pequena ria-se de uma espécie de "recaída" que era falar sobre o PT, falava-se de uma aliança entre Boulos e Lula. Mas as grandes misérias da política eram muito pequenas para entrar naquela casa. Quando isto acontecia as pessoas riam e rapidamente se recompunham como quem afasta uma lembrança ruim, uma esperança traída, um segredo vergonhoso que deve ser esquecido.

Um pandeiro chegou às mãos da Liz, ela começou a cantar, me surpreendeu, aí lembrei que ela também é do teatro, quase todos cantavam junto, todo mundo sabe cantar, menos eu. Depois um negro forte cantou um samba mais forte ainda. Fiquei ali como um fantasma, como parte daquele sonho petista, até que relaxado em meu desconforto.

 

O dia em que o morro descer e não for carnaval

ninguém vai ficar pra assistir o desfile final

na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu

vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil

(é guerra civil)...