A luta pelo transporte público continua

Por Felipe Castilho

Como tem feito sempre que se anuncia um novo aumento de passagens no transporte público nos últimos anos, neste último mês de Junho, o Movimento Passe Livre (MPL) chamou as manifestações pela revogação do aumento das passagens de ônibus, trens e metrô. Em São Paulo e em diversas outras cidades do país, a população saiu vitoriosa. Após um conturbado ato/comemoração pela vitória, o MPL fez um necessário recuo tático, mas deixou claro: “Agora que a tarifa baixou, vamos dar continuidade à luta, pela tarifa zero.”[1]

Nos meses seguintes, com certeza ainda como efeito da pressão exercida pela tomada das ruas pela população em Junho, a prefeitura de São Paulo se dedicou a ampliar significativamente o número de faixas exclusivas para os ônibus nas ruas da cidade. Isto já foi mais um ganho expressivo para a população. No entanto, a população passou novamente a sofrer duros golpes ocasionados pela forma como o transporte público é gerido atualmente: não mais o aumento da passagem, mas os cortes nas linhas de ônibus que ligavam as regiões periféricas ao centro da cidade.

Apenas quem utiliza o transporte público diariamente – seja para ir trabalhar, seja para ir estudar, ou ainda para outras atividades – é que pode saber as consequências desse tipo de medida. O tempo de viagem das regiões periféricas para o centro já era sobremaneira longo. Ao sermos obrigados a baldear em “terminais regionais”, o tempo só tende a aumentar. Tendo que trocar de ônibus uma ou mais vezes para a chegada ao destino, apenas aumenta o número de filas a se pegar e catracas a se rodar.

Mas isto é algo que só o cidadão que utiliza os ônibus pode ver. Acredite se quiser, mas para o colunista da Folha de São Paulo, Leão Serva – em artigo em que critica as demandas do MPL na semana nacional de lutas por transporte público – “quem vê as filas de ônibus em corredores, faixas ou avenidas sabe que a maior parte está vazia, ‘batendo lata’ como dizem os especialistas. ”[2] Para ele, apenas “em lugares e horários específicos, há alta lotação (um deles é a zona sul de manhã, de fato). Esses são os que saem nas fotos de jornal.” [3] Portanto, aquela lata de sardinha que você pega para ir e voltar do trabalho diariamente é tão somente o fenômeno de um lugar e horário específico. Em geral, os ônibus estão “batendo lata”, não é verdade?

Lucas Legume, militante do MPL São Paulo, explicou que “Serva escreveu sobre um sistema de transporte coletivo que só existe na cabeça dos técnicos, que defendem o seccionamento de linha para terminais que levarão as pessoas para o centro, dizendo que isso otimizará o sistema, diminuirá os custos e transportará as pessoas mais rápido.”[4] Diferente dos técnicos, aqueles que utilizam cotidianamente o transporte público percebem que “o tempo de deslocamento aumenta, os ônibus ficam mais lotados e há cada vez mais filas.”[5]

Além do mais, algo que vai certamente além de questões de caráter técnico – atrás das quais a política costuma se esconder – é o fato de que, como lembrou Legume, “essas mesmas pessoas [que são obrigadas a baldear em terminais locais] são completamente excluídas do processo de decisão sobre o transporte.” [6] É apenas em um sistema de transporte – dito – público baseado no domínio de empresas que prestam este serviço no intuito de obtenção de lucros à custa da catracalização do direito de ir e vir dos cidadãos mais pobres, que podemos entender que não é o próprio usuário quem decide se determinada linha de ônibus é funcional ou não.

Pois é em torno destes problemas que as periferias da cidade de São Paulo têm se mobilizado. Durante a oitava semana nacional de lutas por transporte público, organizada pelo MPL na semana do dia 26 de Outubro, houve três manifestações importantes na região periférica da zona sul da cidade. Em M’Boi Mirim, Grajaú e Campo Limpo as pessoas saíram às ruas contra a política de corte de linhas. Além disso, tem se organizado semanalmente atos contra o Terminal Campo Limpo, carinhosamente apelidado pelos usuários de “Terminal Campo Lixo”.

Outro movimento que ganha cada vez mais força é na região de São Mateus, na Zona Leste, onde a população local se organizou e, com a participação do MPL, tem promovido atos contra os arbitrários cortes de linhas na região. Segundo informe no site do MPL, os moradores, que organizaram três manifestações na região até agora, já obtiveram uma vitória: o compromisso da SPTrans de devolução da linha 3765-10 Jd. Santo André – Metrô Carrão.[7] E a população da região continua se organizando para prosseguir na luta.

As mobilizações em Junho demonstraram que a organização da população em torno de suas reivindicações pode conquistar vitórias incontestes. Seguindo este exemplo, moradores das regiões periféricas têm se organizado para exigir que a SPTrans pare imediatamente com esta política de cortes das linhas que ligam os seus bairros ao centro. Nessas manifestações, temos visto frequentemente faixas com os dizeres: “Agora é o povo que vai mandar no transporte”. Se as demandas são específicas, a mobilização demonstra que o objetivo mais profundo é a mudança na lógica em que as empresas determinam como o transporte vai se organizar para lhes auferir maior lucro e a população acata, adapta-se e sofre as consequências.

Amanhã vai ser maior.

[1]http://saopaulo.mpl.org.br/2013/06/22/sobre-a-continuidade-da-luta/. Acessado em 10/11/2013

[2]http://www1.folha.uol.com.br/colunas/leaoserva/2013/10/1361849-mpl-erra-ao-pedir-onibus-da-periferia-ao-centro.shtml. Acessado em 10/11/2013.

[3] idem

[4]http://tarifazero.org/2013/10/29/%E2%80%9Cse-eu-fosse-empresaria-colocaria-um-terminal-a-cada-ponto%E2%80%9D/. Acessado em 10/11/2013.

[5] Idem.

[6] Idem.

[7]http://saopaulo.mpl.org.br/2013/11/08/luta-em-sao-mateus-conquista-uma-linha-de-volta/. Acessado em 10/09/2013.