
Dossiê: A história dos direitos civis e do Black Power

Fotografia de Elliott Erwitt, de 1950, na Carolina do Norte, Wilmington, que mostra a segregação total de negros e brancos de acordo com as Leis Jim Crow no Dixie.
Faz 6 anos que o movimento Black Lives Matter teve seu boom global com a morte de George Floyd, mas esse movimento continua até hoje na busca pela igualdade a fim de tirar esse arraigado problema social, político e econômico, sobretudo, diante da realidade atual neocapitalista. Dessa forma, esse presente dossiê apresenta a história pela busca de direitos civis, exclusivamente, sob a ótica dos afro-americanos e sob a ótica de gênero também, sobretudo, das mulheres.
Assim, o dossiê está dividido em cinco partes. A primeira parte é a introdução feita por Sean Purdy que analisa o atual e o antigo contexto histórico na abordagem sobre os direitos civis e as questões raciais nos Estados Unidos e no mundo, dando uma introdução para as posteriores traduções de artigos de Thomas J. Sungrue, de Robyn Ceanne Spencer e de William P. Jones, além de uma bibliografia compilada por Purdy. Já a segunda parte trabalha sobre a liberdade negra no Norte que, embora tenha sido o catalisador para a suposta igualdade política durante a Guerra Civil Americana, encontrava contrastes tão profundos e tão marcantes entre brancos e negros que se assemelhavam em certos pontos ao Dixie. Ademais, na terceira parte, aborda-se muito mais a questão de gênero dentro do Partido do Panteras Negras, colocando situações de empoderamento, de repreensão, de sexismo, de luta e diversos problemas, avanços e retrocessos dentro da estrutura organizacional dos Panteras Negras. Outrossim, a quarta parte trata sobre a Marcha sobre Washington, abordando não apenas os direitos civis, mas, sobretudo, econômicos, problemas estruturais nos Estados Unidos e reivindicações trabalhistas e salariais com a participação dos sindicatos. Por fim, a quinta parte traz uma bibliografia vasta e ampla para estudos e conhecimentos nesse assunto, tratando principalmente de livros e artigos em português desde 1960 até os mais recentes textos.
Mesmo não sendo a época da Consciência Negra, que é em 11 de Novembro, o GMARX reforça por meio deste dossiê a importância e atualidade desse tema, ressaltando que ele deve ser debatido diariamente e discutido dia a dia para o enfrentamento e o melhoramento das condições trabalhistas, econômicas, sociais, políticas e civis de diversos indivíduos que são discriminados até hoje devido a estruturas arcaicas e conservado por uma massa num sistema capitalista que tem por essencial a competitividade predatória e a alienação diante da realidade.
Desejamos a todos uma
Boa Leitura!!
- Apresentação – A Nova História do Movimento por Direitos Civis e Black Power nos Estados Unidos - Sean Purdy | Departamento de história, Universidade de São Paulo
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O estudo do movimento por direitos civis e do Black Power é uma das áreas mais proeminentes na historiografia atual dos Estados Unidos. Quase todos os departamentos de História nas universidades norte-americanas e muitos fora delas tem um especialista no assunto. Já existem várias revistas proeminentes que regularmente publicam artigos sobre o movimento.[1.1] Livros e artigos sobre diversos aspectos dessa história já ganharam muitos prêmios e são louvados na historiografia como um todo.[1.2] Numerosas universidades têm Institutos dedicados ao estudo do tema e existem dezenas de museus, inclusive o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington, focados na luta pela igualdade negra.
Nos últimos vinte anos, a historiografia sobre o tema tem mudado significativamente, desmentindo muitos mitos e distorções de análises convencionais e oferecendo novas perspectivas. A narrativa “mestra” – na mídia, nos livros didáticos antigos, nos pronunciamentos de políticos e na memória popular em geral – segue assim: em 1954, a Corte Suprema proibiu a segregação racial nas escolas dos estados anteriormente escravistas do Sul, o que desencadeou um movimento popular pacífico e moderado, liderado por pessoas respeitáveis como o religioso dr. Martin Luther King Jr. e a senhora trabalhadora Rosa Parks e que eventualmente conseguiu uma legislação federal na década de 1960 que acabou com discriminação racista em todas as esferas da sociedade. Foi uma história de sucesso que começou declinar quando radicais do movimento Black Power e grupos como os Panteras Negras entraram em cena em meados dos anos 1960. De acordo com essa narrativa, eram violentos e fundamentalmente antiamericanos e mancharam o sucesso do movimento ao deixarem uma herança de ódio e divisão racial na sociedade. Após o Estado finalmente derrotá-los na década de 1970, os afro-americanos teriam passado a exercer plena cidadania no país, elegendo prefeitos, congressistas, senadores e eventualmente um presidente. A segregação e a discriminação racial acabaram, ainda conforme a mesma narrativa, tornando Martin Luther King, Jr. um herói histórico e assim os afro-americanos teriam se integrado na sociedade como um todo.
Essa é uma narrativa falsa e distorcida em muitos aspectos cruciais e recentemente historiadores têm feito críticas profundas a ela.
Em primeiro lugar, houve resistência antirracista e movimentos por direitos civis desde o período da escravidão e que continuaram ao longo da primeira metade do século XX. O movimento tomou grandes proporções nas décadas de 1950 e 1960, pois tinha antecedentes essenciais ao longo da história do país. De fato, muitos historiadores têm definido como o “longo movimento por direitos civis”.[1.3]
Em segundo lugar, a luta por direitos civis não esteve restrita aos estados do Sul. Enquanto havia formal e brutal segregação e discriminação racistas nos estados antes escravistas, o movimento também atuava contra o racismo no Norte, no Meio-Oeste e no Oeste do país. O próprio Martin Luther King, Jr. disse uma vez que o racismo que ele enfrentou em Chicago foi mais nocivo do que o dos estados do Sul.[1.4] Malcolm X disse que o Jim Crow descrevia tudo ao sul da fronteira com o Canadá![1.5] Não é surpresa, então, que ações em prol de direitos civis tenham surgido ao longo do século 20 em regiões fora do Sul.[1.6]
Em terceiro lugar, grandes líderes populares e midiáticos surgiram, mas a luta por direitos civis foi um movimento de massa, envolvendo milhões de pessoas na base, incluindo mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, no Norte e no Sul, bem como aliados não negros. Além dos tribunais e gabinetes políticos, os principais palcos do movimento foram as ruas, as igrejas, as famílias, os bairros negros, os sindicatos e os diversos grupos de militantes políticos. Se King e outros foram a ponta do iceberg do movimento, a maior parte da base consistia em milhões de pessoas comuns, muitos sem nomes e reconhecimento merecido. Em particular, a massiva participação de mulheres no movimento tem sido destacada.[1.7]
Em quarto lugar, enquanto os ganhos políticos formais dos anos 1950 e 1960 foram significativos, a pauta do movimento por direitos civis foi muito mais ampla do que aquela retratada na narrativa convencional. A pauta econômica do movimento incluía desde o início pleno emprego, moradia decente, ações afirmativas nas universidades, no funcionalismo público, em empresas e em sindicatos e um Estado de Bem-Estar com amplos programas sociais.[1.8] Com frequência o nome da famosa manifestação na capital Washington em agosto de 1963 onde Martin Luther King, Jr. proferiu seu famoso discurso “Eu tenho um sonho” é esquecido: Marcha por Liberdade e Empregos. Entre os principais organizadores da manifestação estava o poderoso Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística e vários outros comitês de sindicalistas negros e brancos do país inteiro. Além disso, os boicotes, ocupações e vários outros atos de desobediência civil utilizados no movimento tinham fortes motivações econômicas, além da luta por simples direitos políticos formais. De fato, havia ainda elementos importantes de anticapitalismo, de anticolonialismo e de internacionalismo nas lutas negras pela libertação nos Estados Unidos.[1.9] Essas pautas não foram plenamente alcançadas e permanecem centrais para as lutas até os dias de hoje.
Os três artigos traduzidos neste dossiê são exemplos significativos dessa nova historiografia. O artigo de Thomas Sugrue, que mais tarde foi expandido em um premiado livro,[1.10] mostra que houve uma longa tradição de luta pela igualdade negra fora dos estados do Sul. Já nos anos 1960, a maioria de negros moravam nas grandes cidades do Norte, Meio Oeste e Oeste do país e o Jim Crow (o nome dado ao sistema de discriminação racial no país) ainda que menos formal do que no Sul, estava em plena existência em outras regiões. Aliás, ativistas se mobilizaram em numerosas ações e campanhas desde os primórdios do século XX.
A contribuição da historiadora Robyn Spencer explora o papel de mulheres no Partido dos Panteras Negras.[1.11] Ela sugere nesse artigo que talvez mais da metade dos militantes do partido eram mulheres que desempenharam muitos papéis cruciais. Spencer desmente mitos sobre os Panteras Negras, demonstrando que militantes mulheres avançaram em lutas contra machismo no partido bem como na sociedade como um todo. Baseado em história oral, o artigo faz uma importante contribuição à nova história do movimento Black Power.
O artigo traduzido de William P. Jones traz a classe trabalhadora negra para o centro da análise da história do movimento por direitos civis. Ele mostra o papel crucial de trabalhadores e trabalhadoras sindicalizadas na organização e na mobilização para o evento mais famoso do movimento, a Marcha por Liberdade e Empregos, em 1963, em Washington. Além do papel de líderes dos maiores sindicatos, Jones destaca a atuação dos militantes da base em vários lugares do país para mobilizar para a marcha. O artigo é um ótimo exemplo da recente virada na historiografia para o estudo da pauta econômica do movimento.
O dossiê termina com uma bibliografia de livros e artigos em português sobre o movimento por direitos civis e o Black Power nos Estados Unidos. Não é de hoje que muitos professores e alunos das universidades brasileiras questionam a falta de traduções de obras em outras línguas que possam contribuir para sua formação acadêmica. O fato é que, no que se refere à graduação especialmente, é muito difícil estudar certos assuntos quando simplesmente não há textos adequados e suficientes em português, assim como um campo diversificado de traduções de textos em línguas estrangeiras. Vários motivos podem ser apontados, como as dificuldades de implementação de cursos adequados destinados ao ensino de línguas e a viabilidade financeira de traduções no mercado editorial do país. Com certeza, essa situação mudou nos últimos anos com um maior desenvolvimento do ensino de línguas estrangeiras, o aumento do número de traduções disponíveis e políticas institucionais das universidades em prol da chamada internacionalização. Em todo o caso, há consenso da importância da tradução como um elo entre culturas e universidades num mundo globalizado.
A bibliografia a seguir visa ser uma contribuição a estudiosos e alunos do assunto em diversas áreas de conhecimento. Não pretende ser exaustiva, mas todo esforço foi feito para incluir traduções feitas no Brasil dos anos 1960 até os mais recentes textos abrangendo os publicados esse ano.
[1.1] Entre muitas outras, ver Freedomways, The Journal of African American History, The Global Sixties, The Black Scholar, The Journal of Black Studies, The Journal of American History e Journal of Southern History.
[1.2] O Prêmio Bancroft, considerado o mais prestigioso no país, premiou nas últimas décadas numerosos livros sobre o movimento.
[1.3] Ver Theoharis, Jeanne. A More Beautiful and Terrible History: The Uses and Misuses of Civil Rights History. Boston: Beacon Press, 2016; Dowd-Hall, Jacqueline. “The Long Civil Rights Movement and the Political Uses of the Past”. The Journal of American History, v. 91, n. 4, March 2005, p. 1233-1263.
[1.4] King, Jr. Martin Luther. Clayborne Carson (org.) A Autobiografia de Martin Luther King. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, cap. 28.
[1.5] X, Malcolm. “The Ballot or the Bullet”. Discurso na King Solomon Baptist Church, Detroit, Michigan - April 12, 1964. Vermont Humanities. <https://www.vermonthumanities.org/wp-content/uploads/2020/07/MalcolmXSp…;
[1.6] Sugrue, Thomas. Sweet Land of Liberty: The Forgotten Struggle for Civil Rights in the North. New York: Random House, 2009; Crespino, Joseph e Lassiter, Matthew (orgs.) The Myth of Southern Exceptionalism. New York: Oxford University Press, 2010; Theoharis, Jeanne e Woodard, Komozi (orgs.) Freedom North: Black Freedom Struggles Outside the South, 1940-1980. New York, Palgrave, 2003; Joseph, Peniel E. Waiting ‘Til the Midnight Hour: A Narrative History of Black Power. New York: Holt, 2007.
[1.7] Collier-Thomas, Bettye e Franklin, V.P. (orgs.) Sisters in the Struggle: African-American Women in the Civil Rights-Black Power Movement. New York: New York University Press, 2001.
[1.8] Ezra, Michael (org.) The Economic Civil Rights Movement: African Americans and the Struggle for Economic Power. New York/London: Routledge, 2013.
[1.9] Kelley, Robin D.G. “Rugindo do leste”: O sonho do terceiro mundo. Maria Antônia: Boletim do Gmarx-USP, Ano 3, n.9, 27 de maio de 2022. Trad. Matheus Cardoso da Silva. Apresentação: Sean Purdy.
[1.10] Sugrue, Thomas. Sweet Land of Liberty, op.cit.
[1.11] O artigo foi expandido no seguinte livro: Spencer, Robyn C. The Revolution Has Come: Black Power, Gender, and the Black Panther Party in Oakland. Durham, NC: Duke University Press, 2016.
- Luzes do Norte: a luta pela liberdade negra fora do Sul[2.1] - Tradução do artigo de
Thomas J. Sugrue -
“A questão racial que enfrentamos na América não é um problema seccional, mas um problema nacional. A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.” Assim proclamou o reverendo Martin Luther King Jr. em 1960. Mais de meio século mais tarde, as nossas histórias – e as nossas memórias coletivas – da era dos direitos civis não refletem o âmbito nacional da desigualdade racial e a amplitude dos desafios colocados. A dramática história da luta pela liberdade no Sul ocupa um lugar central nas nossas narrativas da América moderna. A versão canônica começa em 1954, com o marco Brown v. Conselho de Educação, uma decisão que revogou o conceito de “separados, mas iguais,” e segue com um enredo potente: o Boicote aos ônibus de Montgomery (1955), as ocupações de lanchonetes de Nashville, Greensboro, e Atlanta, os Viajantes Pela Liberdade para o fim da segregação nos ônibus interestaduais, o confronto entre manifestantes não-violentos e a polícia em Birmingham, Alabama, a Marcha sobre Washington em 1963 e o marco das leis dos Direitos Civis em 1964 e 1965.[2.2]
Esta é uma história poderosa, contada e recontada em inúmeros livros didáticos, filmes, memórias e romances. É uma narrativa dramática que coloca, de um lado, manifestantes heroicos e não-violentos, liderados por King, a Conferência da Liderança Cristã do Sul (SCLC), e o Comitê de Coordenação Estudantil Não Violenta (SNCC), e, de outro lado, vilões racistas, como o governador de Arkansas Orval Faubus (que tentou impedir a dessegregação da Escola de Ensino Médio Little Rock, em 1957), como George Wallace (o governador do Alabama, que proclamou a famosa “segregação agora, segregação amanhã, segregação para sempre”, durante seu discurso de posse em 1963), como Eugene “Bull” Connor (o Delegado da Polícia de Birmingham, Alabama, que autorizou suas forças a usarem cães da polícia e mangueiras de incêndio contra manifestantes por direitos civis), e como os segregacionistas assassinos de lugares como Anniston, Alabama, Filadélfia e Mississippi. Em última análise, a história sulista dos direitos civis é uma história de triunfo, um movimento popular que levou a profundas mudanças políticas, sociais e legais, culminando na aprovação de marcos legais de direitos civis e na abolição de balcões e bebedouros “pretos” e “brancos”, do transporte público segregado estilo Jim Crow[2.3] e de escolas públicas segregadas e desiguais.[2.4]
Nos nossos relatos convencionais dos livros didáticos e na maioria das histórias da época, o Norte aparece como denúncia trágica ao relato inspirador da luta do Sul, próximo do final da narrativa. O Norte era o lugar onde o sonho da não-violência supostamente se desfez diante dos movimentos de separatismo racial e do Black Power; a região onde motins rasgaram o sonho da integração racial; o lugar onde uma política identitária venenosa destruiu um consenso supostamente liberal que teria unido negros e brancos na visão compartilhada de um Estados Unidos sem preconceito racial.[2.5]
Na última década, porém, houve uma revolução na historiografia da questão racial e dos direitos civis, [2.6] tanto do Norte como do Sul. Historiadores têm enfatizado o “longo movimento por direitos civis”, explorando a miríade de lutas pela igualdade racial bem antes da “fase clássica” do movimento nos anos 1950 e 1960. Outros ainda têm enfatizado o radicalismo de muitos ativistas por direitos civis, com foco nas correntes anticapitalistas, anticolonialistas e internacionalistas na luta pela liberdade. Através de estudos de caso de lugares tão grandes como Nova York, Filadélfia, Chicago e Los Angeles, e tão pequenos como Grand Rapids, Michigan, Levittown, Pensilvânia e Wichita, Kansas, os historiadores começaram a documentar as geralmente esquecidas lutas por direitos civis fora da terra de Dixie.[2.7] E historiadores revisionistas – entre eles Matthew Lassiter e Joseph Crespino – têm lançado um sério desafio a velhas histórias baseadas no “excepcionalismo sulista”[2.8], a ideia de que os problemas raciais da América eram distintamente sulistas, o resultado da história regional peculiar da escravidão, da secessão e do Jim Crow.
Histórias transregionais da questão racial
Houve certamente diferenças entre as manifestações de segregação, de desigualdade racial e de violência entre o Norte e o Sul. Sobretudo, os negros do Norte tiveram acesso às urnas, ao contrário da maioria dos negros do Sul entre o final do século 19 e a aprovação da Lei dos Direitos de Voto de 1965. Os negros do Norte usaram seus votos para elegerem candidatos negros para cargos públicos e, mais importante ainda, para pressionarem os governos municipais e as legislaturas estaduais a promulgarem direitos civis, especialmente nos estados do Norte com eleitorados estritamente divididos, em que eles foram tidos como os fiéis da balança do poder entre os partidos.[2.9]
O acesso dos negros às urnas distinguia as regiões, mas, do período colonial ao século 20, as histórias da questão racial de ambos os lados da linha Mason-Dixon estavam interligadas. A economia do Norte estava fundamentalmente ligada à do Sul – alguns dos mais ricos nortistas pré-guerra fizeram suas fortunas comprando e vendendo escravos e, o mais importante, criando uma base industrial com matérias-primas como o algodão, que eram frutos do trabalho compulsório. No século 20, conforme a população negra do Norte crescia exponencialmente como resultado da migração em massa do Sul, os nortistas criaram suas próprias formas de Jim Crow. Brancos aprisionaram negros em um status econômico de segunda classe, segregaram escolas e bairros tão eficazmente quanto seus equivalentes do Sul e criaram um mercado de trabalho de dois níveis, profundamente dividido pela questão racial.
Linchamentos eram muito mais difundidos no Sul, mas os brancos do Norte, às vezes, também recorriam à lei do linchamento. Entre a primeira década do século 20 e a década de 1940, os brancos instigaram motins em massa que tinham como objetivo os negros em lugares tão diversos como Springfield, Illinois (1908), Chicago e East St.Louis (1919) e Detroit (1943). E, em quase todas as cidades do Norte entre os anos 1920 e 1960, os primeiros negros a se mudarem para bairros anteriormente brancos sofriam com vandalismo e ataques violentos de vizinhos brancos enfurecidos protegendo seu território. Em Detroit, por exemplo, entre meados das décadas de 1940 e 1960, mais de 200 famílias negras que se mudaram para bairros brancos foram alvo de manifestantes e vândalos brancos.[2.10]
Se o Norte teve sua própria história de antagonismo racial e desigualdade, a região também tem uma longa história de ativismo por direitos civis. Os negros do Norte (e seus aliados brancos e, em alguns lugares, latinos e asiáticos) lutaram contra a segregação e a discriminação, criando movimentos sociais e organizações de base dedicadas à igualdade racial. A luta por direitos civis no Norte estava profundamente enraizada, mas intensificou-se a partir da Primeira Guerra Mundial, com a enorme migração negra. Em seguida, ocorreu uma reviravolta radical na Grande Depressão, conforme os ativistas associaram as desigualdades econômica e racial e combinaram seus apelos à antidiscriminação com exigências de justiça econômica (Figura 1). A luta se expandiu durante a Segunda Guerra Mundial, à medida que a realidade do racismo colidia com a elevada retórica do antifascismo e da democracia. A luta do Norte evoluiu nos anos do pós-guerra, conforme ativistas trabalhavam para mudar corações e mentes dos americanos brancos com campanhas educacionais, muitas vezes através das principais congregações protestantes, católicas e judaicas. E finalmente explodiu na década de 1960, à medida que muitos negros perderam a paciência com a marcha lenta da mudança e com a persistência da desigualdade racial.

Ao longo do século 20, a luta por direitos civis no Norte foi majoritariamente organizada e liderada pelos próprios afro-americanos. Certamente, ativistas negros dependiam do apoio de aliados brancos (e às vezes aliados latinos e asiáticos, embora essas populações fossem muito reduzidas fora do Sudoeste até o último terço do século 20), seja em sindicatos, igrejas ou cargos públicos. Os brancos do Norte que se juntaram à luta por direitos civis eram atípicos, majoritariamente, políticos e religiosos de esquerda.[2.11]
A grande maioria dos brancos no Norte era, na melhor das hipóteses, indiferente e, na pior, hostil às demandas negras por igualdade racial. Embora as atitudes brancas sobre a questão racial tenham mudado dramaticamente em meados do século 20 (expressões abertamente racistas tornaram-se menos comuns em ambientes públicos no Norte), as mudanças de discurso não se traduziram facilmente em mudanças na prática. Em pesquisas de opinião pública nos anos 1940, 1950 e 1960, brancos nortistas supostamente liberais colocavam as questões raciais nas últimas posições da lista de prioridades nacionais. A maioria via a discriminação como específica do Sul e prestava pouca atenção às desigualdades em suas próprias comunidades. Quando a raiva negra irrompeu na imprensa branca na década de 1960, a maioria dos brancos do Norte ficaram surpresos e amargurados. Manchetes desconcertantes, como “O Norte tem problemas também”, eram comuns em jornais e revistas. A legislação de direitos civis de meados da década de 1960 levaram muitos brancos a acreditarem que a desigualdade tinha sido erradicada, ao passo que motins urbanos e o Black Power levaram muitos outros a verem os negros como ingratos. Na década de 1970, uma parcela considerável de brancos do Norte expressava a crença de que os negros estavam melhor que eles.
Os movimentos no Norte e no Sul estavam intimamente entrelaçados. Os defensores da igualdade racial, tanto no Norte como no Sul, muitas vezes lutaram juntos inspirados pelas ações de seus colegas nos dois lados da Linha Mason-Dixon, aprendendo as lições de batalhas travadas e vencidas (e às vezes perdidas), conectados pela imprensa negra e pelas organizações nacionais por direitos civis, como a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP) e como o Congresso da Igualdade Racial (CORE), por sindicatos nacionais, por denominações religiosas e por várias organizações radicais. A maioria dessas organizações estava sediada no Norte, mas tinha membros em todo o país que colaboravam, compartilhavam informações através de palestras e publicações e forneciam apoio material para os esforços de organização em todas as regiões. C. T. Vivian, assessor de Martin Luther King Jr., por exemplo, começou sua trajetória protestando contra a segregação de restaurantes em sua cidade natal, Peoria, Illinois (Figura 2). A organizadora da SNCC, Ella Baker, passou décadas militando no Harlem. O peripatético Bayard Rustin havia se juntado aos protestos em seu estado natal, Pensilvânia, e tinha trabalhado para o CORE e para a SCLC em uma variedade de localidades no Norte e no Sul. E James Farmer, do CORE, começou sua carreira desafiando restaurantes segregacionistas no Norte, atuou como sindicalista no Sul, esteve envolvido no centro dos esforços para abrir mercados imobiliários, e liderou os Viajantes da Liberdade.[2.12]

Jim Crow ao Estilo Nortista
Ao longo da última década, uma série de historiadores têm escavado uma história de segregação sistemática em hotéis, restaurantes, cinemas, piscinas e parques de diversão no Norte. Durante os anos 1940 e em muitos lugares nos anos 1950 e 1960, os negros eram barrados em cinemas ou confinados ao “ninho do corvo” (o termo coloquial para as galerias). Piscinas públicas normalmente excluíam banhistas negros ou relegavam-nos a dias especiais “de cor”, muitas vezes esvaziando e reenchendo piscinas que os negros tinham usado. Os parques de diversões recusavam clientes negros ou apenas os admitiam em ocasiões especiais ou em dias separados, geralmente no início da semana, quando a frequência do parque era baixa. As praias públicas regularmente isolavam os negros em seções segregadas. Multidões brancas reforçavam a segregação, como foi o caso da praia de Rainbow Beach, Chicago, no final da década de 1950, quando os negros que se aventuraram em território branco foram espancados. Os restaurantes fechavam as portas a clientes negros ou exigiam que eles se sentassem em seções separadas – frequentemente com cortinas – ou apenas permitiam que eles retirassem a comida diretamente na cozinha ou pela entrada de serviço. Até as celebridades negras eram recusadas na maioria dos hotéis e motéis no Norte. Em 1948, por exemplo, a artista Josephine Baker e seu marido foram recusados por trinta e seis hotéis da cidade de Nova York antes de conseguirem um quarto. Celebridades ou não, turistas negros tinham que ficar em pensões, hotéis ou nas Associações Cristãs de Moços e Moças (YWCAs e YMCAs) geridos por negros e dependiam de anúncios de jornais negros e guias impressos especiais, como o Negro Motorist Green Book (Livro Verde do Motorista Negro), para ajudá-los a encontrar hotéis, resorts e restaurantes quando estavam na estrada.
Foram necessárias décadas de protestos populares, de manifestações às portas de cinemas segregados, de protestos sentados em restaurantes segregados e de desobediência civil em piscinas e parques de diversão para abri-los de uma forma não discriminatória. Quase toda comunidade do Norte tem sua história de espaços públicos segregados e muitas têm histórias ainda não contadas de luta contra elas. Nas décadas de 1930 e 1940, ativistas populares em lugares tão diversos como Filadélfia e Cincinnati desafiaram a segregação nos cinemas. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o recém-fundado CORE, que desempenhou um papel fundamental na introdução da não-violência gandhiana nos Estados Unidos, mirou os restaurantes segregados de Chicago. Durante a década de 1950, ativistas em lugares tão diversos como Nova York, Detroit e São Francisco desafiaram a segregação em hotéis. E em Pittsburgh, Pennsylvania, Fort Lee, Nova Jersey e Buffalo, Nova York, manifestantes realizaram “mergulhaços” em piscinas públicas e desafiaram a segregação em parques de diversões.
Com o tempo, a demanda dos ativistas pelo direito de consumir encontrou êxito, menos restaurantes recusavam clientes negros, hotéis abriram seus quartos de forma não discriminatória e cinemas eliminaram suas galerias segregadas. As batalhas foram duramente travadas e duramente vencidas. Foi apenas nos anos 1950 e 1960, após meses ou anos de protesto, que as empresas discriminatórias cederam ou, como era cada vez mais comum, fecharam suas portas ou se mudaram para comunidades segregadas. Ainda assim, a miríade de vitórias contra a segregação no Norte inspirou ativismo semelhante no Sul. Muitos ativistas do Norte, especialmente membros do CORE, deram apoio aos mais famosos protestos em lanchonetes e terminais de ônibus no Sul no início da década de 1960.[2.13]
A luta por emprego justo
A batalha pela abertura de espaços públicos levou a ganhos significativos para os afro-americanos, mas não foi a mais importante. Nenhuma questão dizia mais respeito aos negros do Norte do que o emprego. Desde os boicotes de "Não Compre Onde Você Não Pode Trabalhar" contra comerciantes discriminatórios na década de 1930 até as batalhas por ação afirmativa na década de 1970, ativistas do Norte pressionaram por maiores oportunidades de emprego para os afro-americanos. Em geral, as cidades do Norte ofereciam aos negros oportunidades econômicas indisponíveis em grande parte do Sul e, com efeito, muitos migraram para cidades do Norte durante e após a Primeira e Segunda Guerra Mundial, quando os empregadores enfrentaram uma escassez de trabalhadores. No geral, entretanto, os negros eram confinados ao que um observador chamou de “os piores e mais sujos trabalhos”. Durante a primeira Grande Migração (1919-1929), as mulheres negras tendiam a encontrar empregos servis, trabalhando como faxineiras e lavadoras de louça, lavadeiras e empregadas domésticas, enquanto os homens acabavam principalmente presos ao trabalho manual não qualificado, independentemente de suas qualificações (Figura 3). Durante a Grande Depressão, ativistas por direitos civis intensificaram suas demandas tanto pelo pleno emprego (clamando pela expansão do emprego estável e seguro) quanto pelo emprego justo (exigindo o fim da discriminação em locais de trabalho). As principais organizações por direitos civis, entre elas a NAACP, o Congresso Nacional Negro e a Liga Urbana, colocaram a criação de emprego e a antidiscriminação no topo de suas agendas até o final da década de 1930 e usaram a ocasião da Segunda Guerra Mundial para fazerem pressão pela inclusão dos negros na florescente indústria de defesa.[2.14]
Se a Segunda Guerra Mundial acelerou os protestos por emprego justo e pleno emprego, essas lutas assumiram novas dimensões nos anos do pós-guerra, quando grupos por direitos civis se aliaram com sindicalistas para fazerem pressão pela aprovação de leis estaduais e municipais de práticas de emprego justo que proibissem a discriminação nos locais de trabalho. Nova York liderou, com a aprovação de uma lei de 1944 que proibia os empregadores de usar raça, etnia e religião na contratação, mas demorou mais duas décadas para outros estados seguirem o exemplo. Muitas leis antidiscriminação do Norte eram ineficazes na prática, pois faltavam fortes mecanismos de aplicação. Ainda assim, com todas as falhas, elas sinalizavam um novo compromisso governamental com os direitos civis. Oportunidades de emprego para os trabalhadores negros, especialmente no setor público, expandiram-se significativamente no Norte nos anos 1940 e 1950, mas setores inteiros da economia permaneciam praticamente fechados para negros, incluindo comércio qualificado, posições de colarinho branco e cargos em escritórios e de vendas. Ativistas locais por direitos civis nas cidades do Norte pressionaram empregadores para contratarem secretárias, comissárias de bordo, funcionárias bancárias e vendedoras e nesse processo abriram empregos, especialmente, para as mulheres afro-americanas. Mas à medida que as economias urbanas do Norte que tinham atraído migrantes negros começaram a entrar em colapso com a desindustrialização e suburbanização nas décadas do pós-guerra, muitos negros (especialmente homens) viram suas oportunidades de trabalho diminuírem. Ainda assim, muitos ativistas pressionaram por esforços mais agressivos para a abertura de oportunidades no mercado de trabalho.[2.15]
Essas batalhas chegaram a um ápice no início e meados da década de 1960, quando a magnitude da devastação econômica das cidades do Norte (fábricas abandonadas, áreas comerciais centrais vazias) ficou clara. Uma ampla coalizão de organizações por direitos civis, tanto do Norte urbano como do Sul, pressionou novamente por pleno emprego e emprego justo. A Marcha sobre Washington de 1963, que atraiu um enorme número de trabalhadores negros das cidades do Norte, foi anunciada como uma manifestação por “empregos e liberdade”, um lembrete da centralidade da agenda econômica para o movimento nortista. Em meados da década de 1960, os manifestantes em quase todas as grandes cidades do Norte lideraram campanhas contra “patrões seletivos”, boicotando os empregadores que contratavam poucos ou nenhum negro, e fizeram piquetes em locais de trabalho com histórico de discriminação, particularmente canteiros de obras, onde os brancos praticamente tinham monopólio dos empregos bem pagos e sindicalizados da construção civil.
Em resposta ao protesto e a agitação urbana no Norte, o governo Johnson tentou um conjunto de programas que viria a ser chamado de “ação afirmativa". E, finalmente, em 1969, em meio a uma nova onda de protestos em canteiros de obras nos estados do Norte, o governo Nixon anunciou uma política formal para exigir que os empreiteiros do governo definissem metas para a contratação de trabalhadores de minorias e cumprissem agendas para diversificar suas forças de trabalho. A ação afirmativa, que foi adotada em todo o país em contratos governamentais e voluntariamente no ensino superior e em muitas empresas privadas, foi talvez o legado mais controverso de um esforço de mais de trinta anos por ativistas do Norte pela abertura do local de trabalho.[2.16]
A soma das campanhas que abrangem desde os boicotes dos anos 1930, aos esforços antidiscriminação dos anos 1940 e 1950 e aos direitos civis e programas preferenciais dos anos 1960 e 1970, foi simplesmente impressionante. Embora os negros tenham permanecido desproporcionalmente concentrados em empregos inseguros e hierarquicamente inferiores e estejam consistentemente mais vulneráveis ao desemprego (da década de 1950 até hoje, as taxas de desemprego negro têm consistentemente ficado entre uma-e-meia e duas vezes a dos brancos em todo o país), as lutas por direitos civis no local de trabalho teve sucessos notáveis. Na década de 1970, não era incomum ser recebido por um vendedor ou caixa de banco negro, falar com um funcionário negro do governo ou encontrar negros em algumas das carreiras mais importantes e bem remuneradas do país.[2.17]
Discriminação na habitação
Se os esforços para abrir espaços públicos tiveram avanços significativos e a batalha pela abertura do local de trabalho levou a êxitos, outras batalhas na luta nortista pela liberdade tiveram menos sucesso. Em particular, o mercado imobiliário do Norte permaneceu profundamente segregado pela questão racial, apesar de décadas de esforços por uma habitação não discriminatória.
Poucas lutas pelos direitos civis foram mais consequentes do que a luta para acabar com a discriminação de moradia. Novos padrões de segregação da propriedade imobiliária estavam profundamente arraigados nas primeiras décadas do século 20. A maioria dos novos empreendimentos habitacionais no Norte, construídos entre os anos 1920 e 1948, estavam sujeitas a cláusulas raciais restritivas que proibiam o uso ou a ocupação de propriedades por não-brancos. Programas hipotecários federais supervisionados pela Corporação de Empréstimos para Proprietários de Casas, pela Administração Federal de Habitação e pela Administração dos Veteranos exigiam a segregação residencial. Proprietários de casas em comunidades racialmente mistas ou predominantemente afro-americanas eram geralmente incapazes de obterem empréstimos garantidos pelo governo federal. E os projetos de habitação pública eram rotineiramente segregados pela questão racial nas cidades do Norte.
A partir da década de 1940 e continuando durante a maior parte do resto do século, as organizações por direitos civis focaram na segregação habitacional. Conseguiram algumas vitórias. Durante a Segunda Guerra Mundial, os proprietários negros e os núcleos locais da NAACP em Chicago, Detroit, St. Louis, Los Angeles e muitas outras cidades abriram ações judiciais desafiando convenções racialmente restritivas, que a Suprema Corte declarou inaplicáveis na decisão de 1948 do caso Shelley v. Kraemer. Mas as barreiras da discriminação na habitação revelaram-se muito difíceis de superar. Os funcionários federais de habitação se recusaram a anular programas de empréstimo discriminatórios. Grupos por direitos civis trabalharam através de igrejas e colaboraram com a imprensa e com cineastas para deslegitimar o racismo no mercado de habitação. Ativistas locais também pressionaram por leis municipais e estaduais de habitação justa que proibissem a discriminação de moradia.[2.18]
No início da década de 1960, a maioria dos brancos nortistas declarava que aceitaria um vizinho negro, uma mudança significativa de opinião. Porém, o grau de segregação racial quase não mudou: os brancos rapidamente fugiam quando os afro-americanos se mudavam para seus bairros e principalmente novos compradores brancos raramente eram atraídos para bairros em que quaisquer negros vivessem. O resultado foi que as taxas de segregação racial residencial pouco mudaram nas áreas metropolitanas do Norte entre os anos 1920 e 1980 e, quando mudaram, a integração ocorreu em uma escala muito pequena. O fracasso em abrir os mercados de habitação foi, sem dúvida, a maior derrota da luta nortista por direitos civis. Os negros permaneceram confinados principalmente a bairros mais velhos e em declínio; eram incapazes de obterem pleno acesso a empréstimos imobiliários por causa da discriminação. Eles eram mais propensos a alugarem ou viverem em casas concentradas em comunidades que sofriam com falta de investimento e perda de emprego e com menos valor do que aquelas em comunidades brancas.[2.19]
A questão racial e a sala de aula no Norte
As limitações do movimento pela habitação aberta ecoaram nos êxitos tímidos na dessegregação da educação pública. A segregação educacional assumiu muitas formas no Norte. Muitos estados do Norte tinham leis que datavam do século 19 e que proibiam escolas racialmente separadas, embora alguns as permitissem (Nova York até 1937 e Indiana até 1949). Porém, fosse permitido por lei ou fosse tecnicamente ilegal, escolas separadas eram lugar comum em quase todos os distritos escolares que tinham mais do que um pequeno número de estudantes negros. Alguns distritos escolares manipularam os limites das zonas de atendimento escolar para manter a segregação. Outros criaram escolas especiais “Negras” ou “De Cor”, muitas vezes nomeadas em homenagem a Abraham Lincoln ou outras figuras da era da Guerra Civil. Outras ainda, especialmente em pequenas cidades, confinavam estudantes negros em salas de aula separadas. Um distrito escolar no sul de Nova Jersey tinha parquinhos separados para estudantes negros e brancos, outro no subúrbio de Long Island enviou todos os estudantes negros, independentemente de seu local de residência, para uma única escola negra. Em Chicago, funcionários do distrito escolar, já em meados da década de 1960, recusaram-se a admitir estudantes negros de escolas superlotadas em escolas brancas subutilizadas por perto, resultando em dois turnos diários em muitas escolas nas áreas segregadas no sul e no oeste da cidade.[2.20]
Começando no início do século 20 e acelerando durante a Segunda Guerra Mundial, durante a década de 1950 e o início da década de 1960, ativistas negros desafiaram a educação separada e desigual no Norte, geralmente por meio de boicotes escolares liderados pelos pais (Figura 4). Muitos dos boicotes escolares da primeira onda ocorreram em pequenas cidades e subúrbios com escolas segregadas, lugares onde os pais negros podiam ver de perto e pessoalmente os custos da segregação escolar. Em meados do século 20, por exemplo, mães negras lideraram manifestações escolares em lugares tão diversos como Hillburn e Hempstead, Nova York; Gary, Indiana; Montclair, Tom's River; e Mount Holly, Nova Jersey. Em meados da década de 1950, esses protestos conseguiram eliminar as escolas oficialmente separadas, mas muitos distritos usaram outras técnicas para manter a segregação. Cada vez mais comum era a “escola do bairro”, cujos limites distritais eram geralmente coincidentes com as linhas invisíveis que separavam bairros negros e brancos. Muitos nortistas vieram a descrever tais escolas como segregadas “de fato”, sugerindo que os padrões de separação racial eram a consequência natural de escolhas individuais sobre onde viver e para onde enviar crianças para estudar.[2.21]
A segregação habitacional era, no entanto, tudo menos natural, era a consequência de políticas públicas que exigiam a segregação e colocavam grandes desincentivos à integração. Como um observador argumentou no final da década de 1950, “quanto mais próximos os Negros ficavam da escola do bairro, mais sagrada ela se tornava”. Essas linhas sagradas se tornaram objeto de intensos protestos e litígios no final da década de 1950 e, especialmente, da década de 1960. Em 1963, várias centenas de distritos escolares fora do Sul eram alvos de protesto, boicote, ações administrativas e processos judiciais, todos desafiando a segregação. Protestos massivos eclodiram em grandes cidades, incluindo Boston, Chicago, Cleveland, Nova York e Detroit, conforme pais negros exigiam educação de qualidade e mantinham seus filhos sem frequentar aulas em amplos boicotes distritais.
Mas a batalha nortista contra a segregação educacional encontrou imensos obstáculos. Em meados e no final da década de 1960, os tribunais federais impuseram ordens de não segregação em distritos escolares por todo o Sul e em partes do Norte e Oeste com um histórico de segregação distrital ou estadual. Porém, naqueles distritos onde não era possível encontrar provas diretas (além da homogeneidade das escolas e dos bairros vizinhos) de segregação e de discriminação racial intencional por parte dos conselhos escolares, superintendentes ou diretores, os tribunais estavam menos propensos a exigir o fechamento de escolas negras considerados inferiores ou o transporte de alunos brancos e negros para alcançar a integração. Ao mesmo tempo, mesmo os esforços em pequena escala para acabar com a segregação nas escolas, encontraram intensa oposição dos pais brancos e, mesmo os esforços em larga escala para acabar com a segregação em escolas pelo transporte, encontraram uma resistência branca generalizada.
O ritmo lento da dessegregação escolar no Norte frustrou muitos pais e defensores da educação. Em meados da década de 1960, muitos começaram a procurar alternativas para educação de qualidade, minimizando ou rejeitando a integração e, em vez disso, apelando para o controle comunitário de escolas, currículos temáticos africanos e escolas de bairro com cursos especializados. Embora a maioria dos afro-americanos apoiassem a integração educacional, mesmo no auge do Movimento Black Power, o objetivo das escolas racialmente equilibradas parecia irrealista e, para muitos, inatingível. Ao longo das últimas três décadas do século 20, conforme os tribunais ficavam menos sensíveis aos apelos de integração escolar e conforme brancos continuavam a retirar seus filhos das escolas com crescentes populações negras, defensores da educação voltaram a atenção para reformas administrativas curriculares, como a descentralização dos distritos escolares, a criação de escolas autônomas semi-autárquicas e os vouchers que poderiam ser usados para escolas particulares e paroquiais. A partir do final da década de 1970, as taxas de segregação racial pioraram, especialmente nos distritos escolares das grandes cidades.
Conclusão
A história da desigualdade racial e da luta contra ela no Norte abre novas perspectivas para se compreender a história moderna dos Estados Unidos. É impossível entender êxitos, tais como o aumento dramático no número de oficiais negros eleitos (há mais de nove mil hoje, incluindo o Presidente), sem colocar o Norte no centro da história. Os êxitos da luta pela liberdade dos negros são visíveis na expansão da classe média negra e no fato de que a presença de negros em hotéis, cinemas e restaurantes é lugar comum. Mas os limites da luta pela igualdade são também muito claros em áreas metropolitanas ainda altamente segregadas ao norte da Linha Mason-Dixon; nas lacunas ainda grandes em saúde, riqueza e desemprego entre negros e brancos; na persistência de uma educação separada e desigual décadas depois de o Supremo Tribunal Federal considerá-la inconstitucional. A linha entre passado e presente não é clara. A luta pela igualdade racial tanto no Norte como no Sul permanece inacabada.
Legendas das Fotos
Figura 1. Nesta fotografia de 1941, trabalhadores negros em greve fazem um piquete na Mid-City Realty Company, proprietária de imóveis e empregadora no sul de Chicago. Protestando contra salários baixos e aluguéis elevados e exigindo o reconhecimento do sindicato, os grevistas exibem o “sindicalismo dos direitos civis”, que se enraizou no Norte durante a Segunda Guerra Mundial sob a bandeira do Congresso das Organizações Industriais (CIO). Os historiadores reconhecem cada vez mais esta atividade como o início do “longo movimento por direitos civis”, que inclui tanto o Norte como o Sul. (Cortesia da Biblioteca do Congresso)
Figura 2. Reverendo C. T. Vivian, à esquerda, lidera uma oração durante a campanha por direitos de voto de 1965 em Selma, Alabama. Nascido no Missouri, Vivian mudou-se para Peoria, Illinois, quando criança, onde ele protestou pela primeira vez contra a segregação racial. Vivian mais tarde ajudou a liderar tanto o Comitê de Coordenação Estudantil Não Violenta quanto a Conferência da Liderança Cristã do Sul. Ele exemplifica os inúmeros ativistas pelos direitos civis que participaram do movimento nortista antes de levar sua experiência para Dixie. (Cortesia da Biblioteca do Congresso)
Figura 3. Na esperança de se beneficiar de um mercado de trabalho em expansão, negros migraram em grande número para cidades do Norte durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Lá, eles enfrentaram a discriminação generalizada no trabalho e a hostilidade dos empregadores brancos e da classe trabalhadora local. Aqueles que encontraram trabalho ocuparam os empregos mais baixos disponíveis, como esta trabalhadora do metrô, posando com seu equipamento de limpeza nesta fotografia de 1917, na cidade de Nova York. A luta contra a discriminação no trabalho foi parte do “longo movimento por direitos civis” no Norte, décadas antes dos anos 1960. (Cortesia da Biblioteca do Congresso)
Figura 4. Membros do Comitê de Integração Escolar Unificado de Milwaukee (MUSIC), liderado pelo ativista por direitos civis nascido em Memphis, Lloyd Barbee (segundo à direita), protestam contra a segregação escolar em Milwaukee, formando uma “corrente humana” para bloquear um ônibus. A campanha do MUSIC resultou em sessenta e uma prisões na primavera de 1965 e ganhou atenção nacional, incluindo uma matéria especial no programa televisivo de notícias Huntley-Brinkley. Tentativas de acabar com a segregação escolar muitas vezes encontraram uma recepção hostil em todo o Norte durante os anos 60 e 70. (Cortesia dos Arquivos do Milwaukee Journal)
Quadro Complementar (Sidebar)
Mergulhaço em Rainbow Beach por Haley Leuthart
Em 20 de agosto de 2011, Velma Hill, uma mulher de setenta e um anos, viajou para a praia de Rainbow Beach, localizada num bairro majoritariamente branco ao sul de Chicago, cidade onde ela havia vivido quando criança. Ela estava lá para ajudar a fornecer um marco histórico a uma campanha quase esquecida: a batalha contra a segregação racial nas beiras do lago. Quando Hill, que é afro-americana, estava crescendo, a segregação já era há muito oficialmente proibida na cidade, mas a praia ainda era proibida para os negros. Em 1960, inspirados pela onda de ativismo por direitos civis, e indignados por um recente ataque da máfia a uma família negra que visitava a praia, membros do Conselho Juvenil (YC) da NAACP de Chicago decidiram organizar uma campanha de “mergulhaço”. Em 28 de agosto daquele ano, a presidente da YC, Velma Hill – naquela época ainda Velma Murphy – levou trinta membros do Conselho Juvenil para a água, desafiando a tradição racista local. Em resposta, frequentadores brancos da praia acossaram os manifestantes, atirando pedras, uma das quais atingiu Murphy na cabeça.
Já em 1960, as praias da cidade tinham uma longa história de conflito racial. Em 1919, um jovem nadador negro em uma jangada inadvertidamente flutuou através da linha invisível na água que dividia os lados preto e branco de uma praia, cuja divisória partia da Rua 26. Ele foi violentamente atacado e a polícia se recusou a intervir. O incidente ajudou a desencadear o Motim Racial de Chicago, que deixou trinta e oito mortos, incluindo o nadador, e mais de quinhentos feridos. E, em 1935, irritados com a instalação de uma cerca dividindo as seções preta e branca da Praia de Jackson Park, um grupo de jovens brancos, liderados por vários estudantes da Universidade de Chicago, testou os limites escalando a cerca. A polícia prendeu dezoito dos jovens, marcando-os como “Comunistas”.
O conflito nas praias atingiu um clímax com a organização dos “Mergulhaços da Liberdade” dos quais Hill foi precursora em Rainbow Beach. Depois do protesto inicial em 1960, as praias chamaram mais atenção pública: o próximo mergulhaço foi supervisionado pela polícia e teve total apoio da NAACP e outras organizações por direitos civis. Manifestantes finalmente viram seu objetivo materializar-se com a aprovação da Lei de Direitos Civis de 1964, que proibiu a segregação em acomodações públicas. A segregação em Rainbow Beach pode ser uma parte da nossa história que muitos gostariam de esquecer, mas, como Hill disse, “é importante ver a história de Chicago. Não devemos ter medo da nossa história. Devemos celebrá-la e aprender com ela”.
[2.1] Publicação Original: Sugrue, Thomas J. “Northern Lights: The Black Freedom Struggle Outside the South”, OAH Magazine of History, v. 26, 1, January 2012, p. 9–15. Tradução: Sean Purdy e Rafael Esteque. Revisão: Marcos Vinicius Correia Biaggi. Na época da publicação original, o autor era Professor de História e Sociologia na Universidade de Pennsylvania. Atualmente é Professor de História e Análise Social e Cultural na Universidade de New York. Ele gentilmente deu permissão para a publicação desta tradução.
[2.2] Para reflexões sobre a historiografia do movimento pós direitos civis e Black Power veja Dowd-Hall, Jacquelyn, “The Long Civil Rights Movement and the Political Uses of the Past,” Journal of American History 91, 2005, p. 1233-63 e Lawson, Steven F. “Freedom Then, Freedom Now: The Historiography of the Civil Rights Movement,” American Historical Review 96, Abril 1991, p. 456-71. Uma excelente história sintética com uma perspectiva nacional é a de Tuck, Stephen. We Ain’t What We Ought to Be: The Black Freedom Struggle from Emancipation to Obama. Cambridge: Harvard University Press, 2010.
[2.3] Nota dos tradutores: Jim Crow foi um personagem fictício, uma representação racista dos afro-americanos e de sua cultura. O nome do personagem se transformou em sinônimo de segregação. As famosas Leis de Jim Crow (em inglês, Jim Crow Laws) foram leis estaduais e municipais que impunham a segregação racial no sul dos Estados Unidos.
[2.4] Veja Kazin, Michael, Carson, Clayborne e Joseph, Peniel E. “Forum on Taylor Branch's America in the King Years,” American Historical Review 114, 2009, p. 978-1016.
[2.5] Thernstrom, Stephan e Thernstrom, Abigail. America in Black and White: One Nation Indvisible. New York: Simon and Schuster, 1997; Siegel, Fred. The Future Once Happened Here: New York, D.C., L.A., and the Future of America’s Big Cities. New York: Free Press, 1997; Jacoby, Tamar. Someone Else’s House: America’s Unfinished Struggle for Integration. New York: Free Press, 2000.
[2.6] Optou-se em empregar “questão racial” onde o original traz “raça”. Aqui, no original “historiography of race and civil rights” [Nota do tradutor]
[2.7] “Dixie” é um apelido que significa o Sul dos Estados Unidos. Vem da “Linha Mason-Dixie”, um termo que significa a linha de fronteira entre o Norte e o Sul.
[2.8] Crespino, Joseph e Lassiter, Matthew (orgs.) The Myth of Southern Exceptionalism. New York: Oxford University Press, 2010. Para pesquisas sobre a luta nortista pela liberdade, consulte, entre outros, Theoharis, Jeanne e Woodard, Komozi (orgs.) Freedom North: Black Freedom Struggles Outside the South, 1940-1980. New York, Palgrave, 2003, Sugrue, Thomas J. Sugrue. Sweet Land of Liberty: The Forgotten Struggle for Civil Rights in the North. New York: Random House, 2008 e Joseph, Peniel E. Waiting ‘Til the Midnight Hour: A Narrative History of Black Power. New York: Holt, 2007. Há diversos estudos de casos locais, muitos para listar aqui. Entre os mais influentes estão Ralph, Jr. James R. Northern Protest: Martin Luther King, Jr., Chicago, and the Civil Rights Movement. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1993; Biondi, Martha. To Stand and Fight: The Struggle for Civil Rights in Postwar New York City. Cambridge, Mass., Harvard University Press, 2003; Countryman, Matthew. Up South: Civil Rights and Black Power in Philadelphia. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2005; e Jones, Patrick. Selma of the North: Civil Rights Insurgency in Milwaukee. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2009.
[2.9] Keyssar, Alexander. The Right to Vote: The Contested History of Democracy in the United States, Revised Edition. New York: Basic Books, 2009; Moon, Henry Lee. Balance of Power: The Negro Vote. Garden City, N.Y.: Harper and Sons, 1948; Sugrue, Sweet Land of Liberty, p. 87-129.
[2.10] Litwack, Leon F. North of Slavery: The Negro in the Free States, 1790-1860. Chicago: University of Chicago Press, 1961; Hirsch, Arnold R. “With or Without Jim Crow: Black Residential Segregation in the United States,”, In: Hirsch, Arnold R. e Mohl, Raymond A. Mohl (orgs.) Urban Policy in Twentieth- Century America. New Brunswick: Rutgers University Press, 1993, p. 65-99; Douglas, Davison M. Jim Crow Moves North: The Battle over Northern School Segregation, 1865-1954. New York: Cambridge University Press, 2005; Gregory, James. The Southern Diaspora: How the Great Migration of Black and White Southerners Transformed America. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2006; Sugrue, Thomas J. The Origins of the Urban Crisis: Race and Inequality in Postwar Detroit, Princeton Classic Edition. Princeton: Princeton University Press, 2005.
[2.11] Myrdal, Gunnar. An American Dilemma: The Negro Problem and American. New York: Harper, 1944, p. 6oo, ioio; Sheatsley, Paul B. “White Attitudes Toward the Negro,” Daedalus 95, 1, Winter 1966, p. 217-38; veja também Pettigrew, Thomas. “Complexity and Change in American Racial Patterns: A Social Psychological View,” in Parsons, Talcott e Clark, Kenneth B (orgs) The Negro American. Boston: Beacon, 1967; Kinder, Donald R. e Sanders, Lynn M. Divided by Color: Racial Politics and Democratic Ideals. Chicago: University of Chicago Press, 1996.
[2.12] Ransby, Barbara. Ella Baker and the Black Radical Tradition. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2003; D’Emilio, John e Rustin, Bayard. Lost Prophet: The Life and Times of Bayard Rustin. New York: Free Press, 2003; Jackson, Thomas F. From Civil Rights to Human Rights: Martin Luther King, Jr., and the Struggle for Economic Justice. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2006.
[2.13] Sugrue, Sweet Land of Liberty, p. 130-62; Wolcott, Victoria. “Recreation and Race in the Postwar City: Buffalo’s 1956 Crystal Beach Riot,” Journal of American History 93, 2006, p. 63-90; Wiltse, Jeff. Contested Waters: A Social History of Swimming Pools in America. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2007, p. 121-180; Meier, August e Rudwick, Elliot. CORE: A Study in the Civil Rights Movement. Urbana: University of Illinois Press, 1975.
[2.14] Greenberg, Cheryl. To Ask for an Equal Chance: African Americans in the Great Depression. Lanham, MD: Rowman and Littlefleld, 2009 é o mais recente de uma série de estudos importantes sobre negros na Grande Depressão; sobre a Segunda Guerra Mundial, veja Kruse, Kevin M. e Tuck, Stephen (orgs.), The Fog of War: The Second World War and the Civil Rights Movement. New York: Oxford University Press, 2012.
[2.15] Chen, Anthony. The Fifth Freedom: Jobs, Politics, and Civil Rights in the United States, 1941-1972. Princeton: Princeton University Press, 2009.
[2.16] Sugrue, Sweet Land of Liberty, p. 253-85; Goldberg, David Goldberg e Griffey, Trevor (orgs.) Black Power at Work: Community Control, Affirmative Action, and the Construction Industry. Ithaca: ILR/Comell University Press, 2010; Skrentny, John David. The Ironies of Affirmative Action. Chicago: University of Chicago Press, 1996.
[2.17] A melhor visão geral é Maclean, Nancy. Freedom is Not Enough: The Opening of the American Workplace. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2006.
[2.18] Hirsch, “With or Without Jim Crow;” Sugrue, Sweet Land of Liberty, p. 200-250.
[2.19] Massey, Douglas S. e Denton, Nancy A. American Apartheid: Segregation and the Making of the Underclass. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1993.
- Engendrando a Luta pela Liberdade Negra: feminilidade negra revolucionária e o Partido dos Panteras Negras na área da Baía, Califórnia[3.1] - Tradução do artigo de Robyn Ceanne Spencer
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Em 1970, Frances Beale, membra fundadora do Comitê de Libertação Feminina e do Comitê de Coordenação Estudantil Não-Violento (SNCC), observou com franqueza que: “Desde o advento do ‘Black Power’, o homem negro exerceu um papel de liderança mais proeminente na nossa luta por justiça neste país. Ele vê o sistema como realmente é na maior parte das vezes, mas, quando se trata das mulheres, ele rejeita esses valores e costumes em muitos pontos e parece seguir as diretrizes das páginas do Ladies’ Home Journal”.[3.2] Beale identificou o paradoxo central das ideologias de libertação negra que embasaram o movimento Black Power dos anos 1960 e 1970, seu potencial para desafiar o status quo a respeito da supremacia branca ao mesmo tempo em que reforçava o status quo em questões de gênero. A declaração provocativa de Beale destacou o fato de que o argumento dos defensores do Black Power de que a restauração da masculinidade negra era central na oposição à supremacia branca se encaixava nas correntes políticas dominantes, tal como o influente relatório de 1965 de Daniel Patrick Moynihan, A Família Negra: A Defesa da Ação Nacional. A ideia de emasculação dos homens negros nas mãos de mulheres negras superpoderosas moldou claramente o contexto para o surgimento do Black Power. Por conseguinte, o movimento Black Power tem sido indissociavelmente ligado à “crença de dominância do homem negro” e à restauração de uma masculinidade que era “superada da [e até mesmo em oposição à] feminilidade[3.3] negra” tanto na literatura acadêmica quanto no imaginário popular.[3.4] Apesar da rica história contida nos relatos em primeira pessoa escritos por participantes do movimento e apesar da recente enxurrada de livros, coleções de ensaios e artigos de periódicos sobre o movimento Black Power, análises acadêmicas a respeito das nuances das experiências das mulheres negras do movimento Black Power permanecem limitadas. As mulheres negras escaparam às balizas analíticas que estudiosos utilizaram para analisar gênero e movimento Black Power. A historiografia do ativismo político das mulheres negras, que de forma hábil descreveu como elas utilizaram tudo, desde suas Bíblias até suas canetas, como espadas simbólicas na luta contra a injustiça racial, permaneceu em grande medida em silêncio a respeito do uso de armas pelas mulheres militantes na defesa de si mesmas e de suas comunidades. A historiografia do movimento de libertação negra tem geralmente retratado as mulheres negras como vítimas de homens nacionalistas negros patriarcais ou como combatentes contra eles. Adotando um foco similar na misoginia do movimento Black Power, a historiografia do movimento feminista localizou a ação de mulheres negras durante a era Black Power em organizações femininas autônomas. Por conseguinte, as mulheres negras permaneceram à margem do movimento Black Power: sua marginalização foi central para a definição do movimento, mas suas ações e seu empoderamento dentro do movimento foram efetivamente obscurecidas.
Este artigo analisa a política de gênero do Partido dos Panteras Negras (BPP), uma das principais organizações do movimento Black Power, na área da Baía da Califórnia, especialmente Oakland. Apesar da dinâmica organizacional em Oakland não ser representativa de tendências nacionais e apesar de desenvolvimentos locais apresentarem considerável autonomia, a centralidade dela como o quartel general organizacional para boa parte da história dos Panteras faz da cidade um ponto crítico de investigação. A política de gênero dos Panteras foi a consequência de políticas oficiais e imperativos ideológicos, fruto de lutas do dia a dia e debates improvisados e resultado de demandas principalmente de seus membros femininos pela atualização retórica da organização a respeito de igualdade de gênero. Apesar de as mulheres inicialmente terem ocupado poucos cargos formais de liderança dentro do BPP, elas desempenharam papéis de liderança estratégica à medida que os líderes formais masculinos enfrentavam cada vez mais repressão política estatal, encarceramento ou exílio. Como as mulheres formavam a maior parte dos membros de base do Panteras, elas ocupavam a camada mais democrática da organização e serviam como face visível da organização nas comunidades pobres. Na década de 1970, as mulheres Panteras se destacaram na incursão bem-sucedida do BPP na política local e criaram estruturas organizacionais para facilitar o cuidado coletivo de crianças. Em grande medida como resultado dos esforços dessas mulheres, o Partido dos Panteras Negras se tornou um local onde homens e mulheres negros podiam ser radicalizados em torno de questões de gênero, encontrar ferramentas para desafiar o sexismo e o patriarcado, bem como reconceituar papéis de gênero.
Muitos estudiosos descreveram os Panteras como organização do homem macho por excelência e emblemática da misoginia do movimento Black Power como um todo. A natureza de cima para baixo da historiografia atual a respeito dos Panteras amplificou – e tornou definitivas – as experiências de ex-líderes como Elaine Brown, que argumentou que muitos homens Panteras viam as mulheres no movimento Black Power como “irrelevantes” e acusavam as mulheres que buscavam posições de liderança de “erodir a masculinidade negra” e agir em aliança com “contrarrevolucionários, lésbicas que odeiam homens e vadias brancas feministas”.[3.5] A desaprovação de Brown, pungente, mas genérica, esconde as nuances de sua experiência como líder e obscurece a experiência das mulheres Panteras comuns. A estudiosa da literatura Farah Jasmine Griffin argumentou que “as mulheres negras veem espaço para negociar os papéis de gênero” dentro da ampla diversidade da ideologia nacionalista.[3.6] A análise dessa negociação foca o espaço contestado, que as mulheres negras reivindicaram de modo desafiador por autoexpressão e autodefinição no movimento Black Power. Centenas de mulheres afro-americanas aderiram ao Partido dos Panteras Negras, buscando um local para ação coletiva e mudança social. Com o tempo, muitas dessas mulheres uniram seu compromisso de lutar contra o racismo ao lado de homens negros com o compromisso de desafiar o sexismo e o patriarcado. Quando elas foram confrontadas com “múltiplos riscos”, definidos pela socióloga Deborah King como “várias e simultâneas opressões” e as “relações multiplicadoras entre elas”, elas responderam com uma formidável luta de libertação dentro da luta de libertação na tentativa de colocar o movimento em um caminho mais igualitário. King advertiu que “ao se concentrarem em nossas múltiplas opressões, as descrições acadêmicas atrapalharam nossa habilidade de descobrir e reconhecer as formas nas quais as mulheres negras não eram vítimas”.[3.7] As lições concretas sobre a história das mulheres negras encrustadas nas estratégias de sobrevivência dessas mulheres e sua tenacidade e habilidade em moldar sua feminilidade a partir de materiais que encontraram, mesmo no ambiente mais desafiador, é tão central para sua história quanto as barreiras que elas enfrentaram, os desafios que suportaram e o sexismo que as limitava.
“Vender minha vida o mais caro possível”
Huey Newton e Bobby Seale fundaram o Partido Pantera Negra para Autodefesa em Oakland, Califórnia, em outubro de 1966, como uma organização nacionalista revolucionária que visava desafiar a brutalidade policial, a pobreza e a injustiça racial. O ponto sete do programa e plataforma de dez pontos dos Panteras invocava o direito previsto na segunda emenda de portar armas e exigia “o fim imediato da BRUTALIDADE POLICIAL e ASSASSINATO de pessoas negras”.[3.8] Uma das primeiras ações dos Panteras foi criar patrulhas comunitárias armadas com livros jurídicos, gravadores e armas portadas legalmente.
O gênero foi incorporado na articulação inicial da política de proteção dos Panteras. Um registro na primeira edição do The Black Panther, o jornal dos Panteras Negras, ovacionou os Panteras – até então uma organização exclusivamente masculina – como “a nata da masculinidade negra… presente para a proteção e defesa de nossa comunidade negra.” Eles articularam uma estratégia de autodefesa que tinha em seu núcleo a suposição de que os homens estariam na linha de frente, servindo como protetores da comunidade negra contra a violência branca.[3.9] É importante notar que essa suposição ressoava também nas mulheres. Griffin cunhou o termo “promessa de proteção” para descrever como o compromisso de homens nacionalistas negros de proteger mulheres negras atraía as mulheres que tinham sido empurradas para fora dos limites de proteção e respeitabilidade por estereótipos, pela violência e pela lei. Embora esta noção de proteção tenha negado atuação às mulheres e as empurrado ao papel de vítimas, homens e mulheres negros adotaram essa noção como “um contradiscurso mais progressista aos elementos misóginos na cultura popular negra” e um desafio à supremacia branca.[3.10] Nessa fáustica barganha, as mulheres negras receberam proteção e “o homem adquire uma posse”.[3.11]
No entanto, Newton e Seale também fizeram apelos mais amplos por apoio à comunidade negra. The Black Panther destacou que “agora há homens e mulheres negros fortes em cena que estão dispostos a dar um passo à frente e fazer o que for necessário”.[3.12] De modo ousado proclamou: “Os negros não têm escolha senão mover-se e mover-se rapidamente para obter sua liberdade, justiça e todos os outros ingredientes da vida civilizada que nos foram negados. É aqui que estamos. Vejam só, Irmãos e Irmãs Negros! Este é o nosso Dia!!!!!”.[3.13]
Este chamado foi respondido por mulheres negras que abdicaram da “promessa de proteção” e arriscaram a reprovação da comunidade negra ao reivindicarem o papel de protetoras. As mulheres afro-americanas tinham a tradição de usarem armas para proteger suas casas, suas comunidades e a si mesmas. Esta tradição incluía figuras como Mary “Stagecoach” Fields, que cultivava expertise com armas e que se armava frequente e deliberadamente; Harriet Tubman, que protegeu a vida de escravos que ela conduziu para o Norte; e Ida B. Wells Barnett, uma defensora da autodefesa tanto como uma postura pessoal quanto como uma estratégia coletiva. Durante o movimento pelos direitos civis, algumas mulheres negras combateram a violência branca com autodefesa. Houve muitas “atiradoras experientes” no Sul rural que protegeram suas casas e comunidades, como a avó de Melba Bels, cujo marido a ensinou a usar um rifle para se proteger na ausência dele; Sra. Fairley, que acolheu e protegeu um ativista de direitos civis que a encontrou, em uma manhã, “descendo o corredor da varanda da frente carregando um rifle em uma das mãos [e] uma pistola na outra”; e a Sra. McGhee, que dormia durante o dia e “sentava na varanda à noite com sua Winchester” para proteger sua casa de terroristas brancos.[3.14] Ativistas políticos como Gloria Richardson defenderam a viabilidade de estratégias de autodefesa em Cambridge, Maryland; Daisy Bates protegeu sua casa com uma .45 automática contra terroristas supremacistas brancos cujas táticas variavam desde “bombas incendiárias” a “cruzes da KKK” até ameaças de incêndio criminoso; e a ativista do Congresso de Igualdade Racial (CORE) Anne Moody que se armou, reconhecendo que “três jovens mulheres simplesmente não podem viver sozinhas no Mississippi sem proteção”.[3.15] Esta história moldou o envolvimento das mulheres negras e sua relação com a autodefesa. O fato de que os Panteras não excluíam as mulheres nem endossavam abertamente as teorias prevalecentes a respeito do papel inferior das mulheres no movimento de libertação negra era atraente para algumas mulheres negras que partilhavam as perspectivas políticas do movimento e que buscavam uma alternativa à visão estritamente hierárquica a respeito dos papéis de gênero defendidos por algumas organizações nacionalistas locais, como a Nação do Islã. Elas começaram a se juntar à organização na primavera de 1967.
Irmã Camarada
Tareka “Matilaba” Lewis é amplamente reconhecida como a primeira pessoa a exigir um espaço dentro do Partido dos Panteras Negras para as mulheres. Como uma jovem adulta crescendo na Área da Baía, Lewis testemunhou o declínio de Oakland no pós-Segunda Guerra Mundial, o aumento do desemprego, a escassez de moradias e o impacto socioeconômico da destruição do próspero centro negro da cidade junto à Sétima Rua no oeste de Oakland. Sua politização veio na esteira da má conduta policial. Ela recordou uma cena vívida de sua infância: “Estávamos no Playland na praia de São Francisco e não sei o que essa criança fez. Ele devia ter onze ou doze anos. Eu não sei o que ele fez. Mas esses policiais o estavam arrastando, chutando e batendo nele (…) E eu simplesmente fui embora (…) Então, pouco tempo depois disso, minha educação política teve início.” Lewis se tornou uma líder estudantil na Escola Técnica de Oakland e foi uma das primeiras alunas a reivindicar a criação de um clube de história negra e orgulhosamente usar seu cabelo natural em estilo afro. Ela participava de fóruns sobre história e cultura negra junto com seus primos mais velhos que eram ativistas e, frequentemente, ela faltava à escola para frequentar cursos na Faculdade Merritt – um centro de atividades políticas e palanque de debates, onde tanto Newton quanto Seale estavam matriculados. Um dia, quando Lewis tinha dezesseis anos, ela atrevidamente entrou no escritório dos Panteras, próximo da Faculdade Merritt, e declarou: “Vocês têm um bom programa e tal. Combina comigo. Posso me juntar a vocês? Porque vocês não têm irmãs aqui.” Quando Seale respondeu afirmativamente, a próxima pergunta de Lewis foi: “Posso ter uma arma?” A resposta foi uma pausa momentânea seguida de outro enfático sim. Lewis descobriu que ser membro significava aprender a ideologia do BPP e participar de uma ampla gama de programas políticos. “Eu tive que merecer [a arma dela] (…) Aprendi como utilizá-la com segurança, aprendi a respeitá-la, eu respeitei as outras pessoas, nunca apontei a arma para ninguém e segui as regras.”[3.16] Lewis foi trabalhar no The Black Panther I, escrevendo editoriais, compondo a diagramação, datilografando e desenhando mais de quarenta cartuns políticos sob o pseudônimo “Matilaba.” Sua destreza com armas fez com que ganhasse o respeito de alguns Panteras homens que questionavam o papel emergente que ela passou a desempenhar na organização. Ela às vezes respondia a desafios à sua autoridade com convites para “ir ao estande de tiros”, confiante de que ela “poderia derrotá-los”.[3.17]
Como muitos dos primeiros Panteras, Elendar Barnes era filha de pais que migraram para Oakland em busca de emprego durante a Segunda Guerra Mundial. Seu envolvimento nos Panteras evoluiu a partir da política de resistência rural que ela trouxe do Sul do país para Oakland, consequência de tradições enraizadas na história da resistência negra à violência da supremacia branca:
“Eu me envolvi bastante nesse tipo de política, porque ela era uma extensão do que eu já conhecia, uma extensão do que eles chamavam de Diáconos [para defesa] lá no Sul. E meu avô não era necessariamente um membro dos Diáconos, mas a postura de nossa família era, você sabe, proteger a família por quaisquer meios necessários e, você sabe, você usa armas. Meu avô foi a primeira pessoa a comprar terras no que era considerado a parte branca da cidade. Eu o visitava nos verões e lembro que a Ku Klux Klan queimou uma cruz em seu quintal porque se opunham a ele viver naquela parte da cidade. E meus tios, os homens da família, vieram de diferentes partes do país e, você sabe, houve um conflito. Terminou com carros explodindo, esse tipo de coisa (…) Eu venho dessa ideia de resistência. E eu acho que muitas pessoas em Oakland têm essas raízes sulistas e toda aquela conexão com a ideia de proteger os seus. As pessoas estavam acostumadas a usar e manter armas, porque é isso que elas faziam no interior. Meu avô sempre teve uma arma; era invisível, mas ela sempre estava na parte de trás do carro ou na janela, na parte de trás do caminhão e eles sempre diziam no Sul que as armas eram para caça, mas ele dizia que era para o homem branco. E não era para o homem branco que não estava incomodando. Era para a KKK e os outros. E é isso o que fez com que me juntasse aos Panteras”.[3.18]
Antes de Judy Hart se juntar aos Panteras no verão de 1967, quando tinha vinte e dois anos de idade, ela já havia apoiado os esforços dos Panteras trabalhando no jornal e participando de comícios. Hart cresceu em um bairro de classe média no leste de Oakland e seus pais ficaram chocados com seu envolvimento, por causa do seu excelente histórico acadêmico. O ativismo político combinado com excelência acadêmica não era contradição alguma para Hart, que se envolveu no movimento da União dos Estudantes Negros (BSU), na Universidade Estadual de São Francisco (SFSU). Crescida em Oakland, ela se lembra de ter testemunhado poucos incidentes de brutalidade policial, mas tinha ciência, entretanto, da presença da polícia como uma “força de ocupação” na comunidade de Oakland. Ela se juntou aos Panteras, porque sentiu que eles eram o grupo que levava mais a sério o combate à brutalidade policial. Hart se lembra de ter treinado com armas tanto na BSU como no Partido dos Panteras Negras. Embora existissem momentos em que seu trabalho no The Black Panther e na participação no programa de Café da Manhã Grátis para Crianças a pouparam dos aspectos militaristas da organização, também houve momentos em que ela “carregou uma arma na bolsa”.[3.19]
A colega de quarto de Hart, Janice Garrett-Forte, também era ativa na BSU da SFSU quando ela se envolveu pela primeira vez com os Panteras. Ela conheceu Newton e Seale quando eles foram discursar no campus. Garrett-Forte e suas colegas de quarto forneceram alojamento temporário para alguns Panteras em seu apartamento e logo o local se tornou um ponto de encontro. No início, ela estava relutante a respeito da posição armamentista dos Panteras, mas com o tempo ela acabou por aceitar o princípio da autodefesa. O fato de ser uma apoiadora elevou sua consciência política e logo ela sentiu que não tinha escolha a não ser tomar posição. Ela se tornou uma Pantera mais tarde naquele mesmo ano.[3.20]
Várias mulheres participaram da delegação armada de trinta Panteras, ativistas locais e apoiadores da comunidade, que foram à legislatura estadual em Sacramento em 2 de maio de 1967 para manifestar oposição ao projeto de lei Mulford, que visava proibir o porte ostensivo de armas de fogo em público. Este protesto, tornado infame pela entrada equivocada da delegação no plenário da legislatura, foi uma das primeiras ações dos Panteras que recebeu publicidade nacional e internacional. O incidente de Sacramento resultou em um aumento na adesão, especialmente entre estudantes universitários e jovens que queriam lutar contra a brutalidade policial. Mary Williams descreveu as condições em Oakland como “realmente terríveis”, apontando que “qualquer um que chegasse e que tivesse ideias sobre como avançar seria ouvido, porque a situação era muito ruim. Você não podia nem conversar com um policial.” Williams, seu marido e seu cunhado se juntaram aos Panteras depois do incidente de Sacramento.[3.21]
Vozes femininas se juntaram aos debates a respeito do significado da participação das mulheres na estrutura e organização dos Panteras. Embora elas participassem da ampla gama de atividades políticas dos Panteras, o partido criou uma categoria própria de associação para mulheres, chamada de “Panteretes”, com sua própria organização estrutural de liderança totalmente feminina. Poucas informações sobreviveram a respeito do “status” das Panteretes. No entanto, o termo desapareceu dos documentos internos dos Panteras em 1968, quando as mulheres foram integradas à estrutura organizacional sob uma liderança predominantemente masculina. Como muitas mudanças estruturais na história dos Panteras, essa mudança pode ter raízes em debates internos, mas nasceu de necessidade premente e foi moldada pela repressão política. Em agosto de 1967, Seale foi preso, acusado de perturbar a paz por seu papel no incidente de Sacramento, e condenado a seis meses de prisão. Em 28 de outubro de 1967, após ser parado pela polícia no início da manhã, uma pancadaria se seguiu, deixando Newton e um policial feridos, além de outro policial morto. Ambos os fundadores do BPP estavam presos cerca de um ano depois da criação da organização.
Eldridge Cleaver posteriormente assumiu a liderança como o principal porta-voz dos Panteras. Cleaver obteve aclamação popular depois de sua publicação em 1968 de Alma no Gelo [Soul on Ice], uma coletânea de seus escritos na prisão sobre raça, sexo e libertação negra nos Estados Unidos. Cleaver, um estuprador condenado, escreveu de forma franca sobre estuprar mulheres negras para refinar sua “técnica” antes de passar para a “presa branca".[3.22] Alma no Gelo se encerra com uma extensa alegoria a respeito da emasculação de homens negros pela escravidão, o poder dos homens brancos como “os administradores onipotentes” e as “ultrafemininas” mulheres brancas. Nesse cenário, as mulheres negras eram descritas como “amazonas autossuficientes".[3.23] A flagrante misoginia de Alma no Gelo não obstaculizou a ascensão de Cleaver à liderança dos Panteras, apesar de que, pelo menos uma seção local, fosse mais tarde questionado a contradição entre o compromisso do BPP com igualdade de gênero e o endosso de Alma no Gelo como leitura sugerida.[3.24]
Cleaver recrutou Kathleen Neal, uma ativista do SNCC, para ajudar na organização a respeito do caso de Newton. O interesse de Cleaver em Neal era tanto político quanto pessoal, e depois que o programa do campus da SNCC terminou em julho, Neal visitou Cleaver na Área da Baía. Os dois se casaram depois que Neal se mudou em novembro. A experiência organizacional de Kathleen Cleaver no SNCC fez dela um recurso inestimável para os Panteras em crise. Ela encontrou os Panteras “em estado de colapso total”, “sem escritório, sem jornal, sem reuniões”. Ela criou atividades para angariar fundos em nome dos Panteras e planejou manifestações para aumentar a conscientização sobre o caso de Newton. Ela serviu como porta-voz para a imprensa a respeito dos eventos patrocinados pelos Panteras. Logo, ela passou a ver a si mesma como uma Pantera e a descrever sua posição como “secretária de comunicações” para refletir seu papel fundamental como publicitária e relações públicas dos Panteras.[3.25] Cleaver cumpriria um papel central como a primeira mulher no Comitê Central dos Panteras e se tornaria uma das personagens mais conhecidas do BPP. Sua legitimidade não adveio de seu casamento com Eldridge Cleaver, mas de sua ampla gama de habilidades e experiências que ela trouxe para o BPP.
Mulheres Panteras e estudiosos estabeleceram que as funções dentro da organização eram atribuídas em razão de habilidades e não em função de gênero.[3.26] Aquisição de habilidades, no entanto, não era neutra em termos de gênero e os Panteras às vezes replicavam a realidade de gênero da sociedade dos Estados Unidos, que atribuíam desproporcionalmente às mulheres funções domésticas e de secretariado. Prova das expectativas de gênero a respeito da divisão do trabalho é uma propaganda de março de 1968, na última página do The Black Panther, que anunciava que o escritório do BPP de São Francisco precisava de pessoas que conseguissem “datilografar bem e que quisessem trabalhar para a libertação negra.” O anúncio advertia: “Irmãs Fuxiqueiras[3.27]: Não leiam isto!”. Embora o comportamento “fuxiqueiro” não tenha sido definido, a colocação desta advertência sugere tanto uma suposição de que mulheres preencheriam essas vagas quanto uma percepção de que conflitos poderiam ocorrer (ou tinham ocorrido) se um certo tipo de mulher fosse admitida.[3.28] A datilografia era tanto uma tarefa entediante quanto uma habilidade que algumas mulheres tinham orgulho de oferecer à causa da libertação negra em uma organização que não entendia apenas (e também não limitava) o envolvimento de mulheres em termos de trabalho administrativo. É importante notar que o trabalho feminino administrativo tinha um valor particular na comunidade negra, porque o racismo historicamente limitou oportunidades de emprego das mulheres negras, relegando-as ao trabalho braçal.
O primeiro envolvimento de Brenda Presley com os Panteras foi ajudar com tarefas de datilografia no escritório de São Francisco. Ela estava em busca de envolvimento político muito antes de se unir ao BPP em 1968. Manifestações televisionadas de movimentos por direitos civis que mostraram violência contra manifestantes pacíficos levaram Presley a explorar as formações políticas locais: “Eu queria que [os manifestantes não violentos] lutassem. Percebi que eu não podia fazer isso. Eu não podia deixar de reagir, porque não tenho temperamento para isso (…) Já estive na mesquita algumas vezes, mas não fiquei feliz com o tipo de relacionamento entre homens e mulheres (…) Muçulmanos naquela época. E tinha coisas que eu fazia na minha igreja, mas não era o suficiente.” Presley se envolveu em um dos muitos grupos de dança africana que surgiam em todo país e que refletiam a popularidade de manifestações culturais africanas junto a muitos afro-americanos. Panteras uniformizados chamaram sua atenção em um evento em 1967: “Gostei da militância. Gostei do fato de que eles pareciam disciplinados e não aceitavam desaforo de ninguém. Eles eram muito sérios e isso me impressionou”.[3.29] Pouco tempo depois, Presley teve um encontro fortuito em São Francisco que mudaria sua vida. No caminho de casa, voltando do cabeleireiro, ela viu um jovem com um corte de cabelo Black Power na frente de uma vitrine. Presley contou:
“Ele disse: ‘Ei, ei, irmã.’. E eu olhei para ele. ‘Você sabe datilografar?’. E eu disse ‘sim, eu sei.’. ‘Bem, você pode vir aqui e datilografar uma coisa para mim?’. Então, eu disse: ‘não, [risos] (…) Não vou datilografar nada para você.’. Ele disse: ‘Não, irmã, você não entendeu. É para os Panteras. Você tem que datilografar para o Ministro Huey P. Newton, temos que divulgar isso aí.’. E quando eu ouvi o nome Huey P. Newton, eu disse ‘Oh! Eu conheço Huey P. Newton. O que você precisa datilografar?’”.
Presley então percebeu que ela estava em frente a um escritório do BPP. Ela entrou, viu que eles estavam tentando produzir material para o jornal e auxiliou nos esforços com suas habilidades em datilografia. Quando pediram a ela para que fizesse mais, ela hesitou. “Ele disse que temos que publicar isso logo. Isso é para o povo. Ele continuou e continuou sem parar”. Ela prometeu voltar na semana seguinte e voltou mesmo. Seu trabalho como datilógrafa a levou a conhecer outros Panteras e a ter uma sensação de comunidade e de verdadeiro pertencimento. Depois de um mês ou dois, ela já era uma membra de pleno direito dos Panteras.[3.30]
Essas primeiras Panteras imergiram em políticas radicais de protesto para enfrentar a brutalidade policial e a discriminação econômica, abrindo as portas da organização para outras mulheres. Embora esteja claro que a inclusão de mulheres na organização não esteve isenta de contendas, também está claro que elas remodelaram a imagem dos Panteras de uma maneira que as incluíam e desafiaram noções estreitas a respeito do lugar das mulheres no protesto social.
Imagens Revolucionárias?
Em meados de 1968, The Black Panther apresentou imagens de homens e mulheres negros como lutadores enfrentando policiais, que, por sua vez, eram retratados como porcos gordos e desleixados, simbolicamente expropriados de sua autoridade, dignidade e humanidade. Estas imagens representam parte crucial da maneira com que os Panteras divulgavam sua política de gênero ao mundo. Mulheres ocupavam o papel central em imagens criadas pelos artistas gráficos Emory Douglas, Tareka Lewis e outros, que variavam de imagens cuidadosamente “posadas”, como fotografias espontâneas dos Panteras exercendo suas atividades políticas, a ilustrações estilizadas retratando-os protegendo a comunidade negra. Os Panteras criaram imagens que valorizavam a mulher negra revolucionária armada, em um momento em que predominava nas discussões sociológicas e de políticas públicas o entendimento de que mulheres negras fortes eram prejudiciais para a família e para a comunidade, de maneira que tanto a retórica integracionista liberal, como a nacionalista conservadora promoviam o patriarcado. Em forte contraste à imagem da mulher negra voltada de maneira espontânea e individualista para a sua autodefesa, os Panteras apresentaram as mulheres negras como proativas e coordenadas, atuando lado a lado de homens como defensoras da comunidade negra. Os Panteras foram particularmente influenciados pelo filme A Batalha de Argel, que apresentava, como foco central, o papel de mulheres rebeldes na guerrilha, e pelo exemplo de mulheres vietnamitas que estavam “lá fora, com seus irmãos (...) enfrentando o imperialismo Americano mesmo com seus bebês em suas costas”.[3.31] Implícita e explicitamente, eles ligaram as imagens da mulher guerrilheira na luta anticolonial e de libertação nacional dos países em desenvolvimento à imagem de mulheres negras em um conflito armado.
Essas imagens são especialmente provocativas em sua demonstração da agência das mulheres revolucionárias, mas deixam uma grande questão acerca da igualdade de gênero sem resposta. A centralidade dos papéis ocupados pelas mulheres em movimentos guerrilheiros internacionais nem sempre se traduziu em empoderamento fora do campo de batalha ou após a revolução.[3.32] Batalhas pela libertação nacional frequentemente reinseriram o patriarcado ao analisarem as contradições de gênero como uma problemática secundária. Assim, estas imagens representam a replicação, pelos Panteras, dos potenciais e limitações da tropa de mulheres guerrilheiras.
Isso é exemplificado em uma das imagens mais marcantes de feminilidade revolucionária mostradas no The Black Panther: uma foto de página inteira, divulgando a candidatura de Kathleen Cleaver à 18ª Assembleia Distrital na chapa do Partido São Francisco Paz e Liberdade (San Francisco Peace and Freedom Party). Cleaver posou em frente a uma porta, vestida de preto, óculos escuros com uma escopeta em mãos, com a frase: “1968: VOTO OU BALA”. Sua imagem refletia força e poder. Ainda que Cleaver fosse uma das mais visibilizadas e respeitadas líderes dos Panteras, sua luta contra a violência doméstica em seu casamento com Eldridge Cleaver era um segredo conhecido por muitos. A política de gênero dos Panteras criou uma Kathleen Cleaver “pública” forte e empoderada e empurrou a Cleaver vitimizada para o âmbito do “privado.” Essa esfera privada foi efetivamente construída. A intensidade dos relacionamentos construídos pelos membros do BPP, o engajamento de quase 24 horas por dia em seu trabalho político e o compromisso ideológico de que o pessoal era político significavam que havia poucos aspectos das vidas de seus membros que fossem realmente desconhecidos. Isso é evidenciado pelo fato de que o abuso sofrido por Kathleen Cleaver por seu marido foi exposto e utilizado como uma arma contra Eldridge Cleaver durante as disputas internas entre Cleaver e Newton no início dos anos 1970s. Os silêncios em face dos abusos físicos sofridos pelas mulheres membras dos Panteras foram intencionais. Joy James apontou que: “A questão do abuso e agressão às mulheres por parte de homens da liderança e das bases do Partido dos Panteras Negras permanece sendo um tabu entre os afro-americanos”.[3.33]
Sexismo e Poder
À medida que as mulheres foram ocupando um papel cada vez mais central dentro da organização, as reclamações sobre o sexismo tornaram-se mais predominantes. Mulheres Panteras lutaram contra a desigualdade de gênero sem se identificar abertamente com o movimento feminista mais amplo. Estudiosos do feminismo negro apontam que “a combinação da pressão para manter (pelo menos externamente) a solidariedade com os homens negros e a não representação nas pautas do movimento feminista tradicional, ocupado, em sua maioria, por mulheres brancas de classe média, justificaram a relutância das mulheres negras em se enxergarem como feministas.”[3.34] Elas utilizavam a linguagem pela justiça social e cada vez mais a retórica marxista, para lutarem contra a subordinação das mulheres. A Pantera Roberta Alexander escreveu um artigo no The Black Panther, apontando que questões como “liderança feminina”, “mulheres podendo se armarem para se defenderem assim como seus irmãos”, “se as mulheres (…) também participam da administração dos escritórios, não apenas atrás das máquinas de escrever”, e “se as mulheres podem fazer isto ou aquilo pela causa da revolução” haviam se tornado tão “fundamentais” que a organização pensava mais sobre “as contradições entre mulheres e homens, entre irmãs e irmãos” do que sobre os “porcos”.[3.35] Ao mesmo tempo, estimulada por mudanças ideológicas internas e pela realidade de repressão política, a retórica dos Panteras promovia cada vez mais a igualdade de gênero. Muitas mulheres lutaram para encurtar a distância entre a retórica e a realidade no BPP.
Muitos líderes dos Panteras reconheciam que o sexismo dentro da organização existia, mas argumentavam que era menos nocivo do que no resto da sociedade americana e poderia ser gerenciado internamente pela própria estrutura organizacional dos Panteras. Seale apontou que, em resposta aos homens que tinham condutas violentas com as mulheres, que demandavam favores sexuais ou as intimidavam verbalmente, os Panteras abriram o diálogo quanto à discriminação de gênero, aplicando punições e instituindo regras como “Não tome liberdade com as mulheres”, um dos “8 Pontos de Atenção” que todo Pantera deveria memorizar.[3.36] Kathleen Cleaver notou que a fonte do sexismo no BPP era arraigada na sociedade americana: “Quando a mulher sofria hostilidades, abusos, negligências e ataques – isso não algo que surgia das políticas e estruturas do Partido dos Panteras Negras, algo ausente no mundo – era algo que estava acontecendo no mundo”. Cleaver apontou que os Panteras foram únicos ao “colocarem uma mulher em uma posição em que, quando tal tratamento acontecia, era capaz de contestá-lo”.[3.37] Douglas concordou, observando que os Panteras forneceram uma estrutura de responsabilização, indicando um código de conduta. Ainda apontou que existiam “dispositivos” para “lidar” com as situações como as de pessoas em posições de liderança ou na base “que não podiam receber ordens de mulheres. Ou não queriam por causa de seus egos”. Os Panteras estavam comprometidos com o que ele descreveu como um “processo de purificação em continuidade” e um “ajuste” facilitado “pela existência de regras e regulamentos e aulas de Educação Física e irmãs na liderança sob a qual os irmãos tinham que trabalhar”.[3.38]
A adoção da ideologia marxista-leninista pelo BPP no final dos anos 1960 deu à sua retórica sobre igualdade de gênero conotações socialistas. Seale indicou que os Panteras estavam “seguindo o princípio da igualdade absoluta entre homens e mulheres: porque o machismo está relacionado à própria natureza de classes da sociedade como existe hoje”.[3.39] Em entrevista publicada em 1969, várias mulheres Panteras apontaram que, ao longo dos anos, as mulheres foram ocupando cada vez mais cargos de liderança em questões políticas e cada vez menos tarefas burocráticas, porque o BPP percebeu que “o machismo e todas as suas manifestações são burgueses e (…) o sucesso da revolução depende das mulheres”.[3.40] Elas explicitamente situaram seu ativismo no contexto do movimento de liberação das mulheres. Apontaram ainda que as organizações de mulheres autônomas eram problemáticas, de modo que o fim da opressão de gênero requereria uma revolução socialista.[3.41]
A estrutura organizacional dos Panteras não era simplesmente um reflexo (ou uma correção) de tendências mais amplas da sociedade americana. Era um terreno fluido, onde gênero e poder eram discutidos de novas maneiras. O deslocamento à esquerda dos Panteras incluiu a adoção de uma estrutura organizacional de centralismo democrático, rigidamente hierarquizada e pouco democrática. Como resultado, a natureza de gênero das dinâmicas de organização do poder se tornou ainda mais evidente. Líderes homens, mesmo aqueles que se manifestaram claramente sobre a igualdade de gênero, não foram responsabilizados por seus comportamentos desalinhados com o código de conduta em seus relacionamentos íntimos (que envolviam mulheres Panteras em sua maioria). E as mulheres que não tinham alcançado um cargo alto no partido ou não eram parceiras de homens poderosos no partido tinham menos chances de reportar e condenar condutas de opressão de gênero. O sexismo reiterou desequilíbrios de poderes dentro da organização hierárquica do partido. Como o Pantera Mumia Abul-Jamal bem observou: “para homens que, muitas vezes, exerceram um poder extraordinário sobre os outros, o sexismo se tornou uma ferramenta de domínio sexual sobre subordinados”.[3.42]
Repressão de Gênero
A coragem de algumas mulheres Panteras em face da repressão política desafiou diretamente as ideias de supremacia masculina na organização. Por volta de setembro de 1968, o FBI concentrou os esforços de seu Programa de Contrainteligência (COINTELPRO) nos Panteras e os classificou como “o grupo mais propenso à violência dentre todos os grupos extremistas em atividade nos Estados Unidos”.[3.43] Por volta de 1969, por todo país, muitos dos líderes do Panteras estavam presos, exilados, ou clandestinos. O FBI estava investigando cada seção e 1200 membros, para “obter evidências de possível violação da legislação estadual ou federal” e o BPP se encontrava fortemente infiltrado por espiões e provocadores.[3.44] A prisão de Ericka Huggins depois que seu marido, John Huggins, e outro Pantera, Bunchy Carter, foram mortos em um tiroteio amplamente divulgado no campus da Universidade da Califórnia, Los Angeles, abriu o debate para questões de gênero e a repressão. Uma carta aberta no The Black Panther, escrita por Eldridge Cleaver após a prisão de Huggins, destacou que sua “prisão e (…) sofrimento (…) deveriam servir de repreensão contundente a todas as manifestações de machismo dentro de nossas fileiras”. Isso desafiou as mulheres Panteras a encarar abertamente a discriminação, apontando que elas tinham “o dever e o direito de fazer o que quiserem fazer para não serem relegadas a posições inferiores e não serem tratadas como se não fossem membros do Partido e iguais em todos os sentidos”.[3.45] Em uma entrevista, uma mulher Pantera indicou que a repressão modificou a maneira com que alguns Panteras enxergavam a questão de gênero:
Ericka se tornou um bom exemplo, porque os porcos perceberam que ela era uma revolucionária. Talvez nós não tenhamos percebido isso, dado que nesse tempo todo nós a enxergamos apenas como o exemplo de uma mulher forte. Mas eu acho que os porcos perceberam isso e esse reconhecimento externo nos forçou a enxergar que nós não podemos operar como duas metades separadas, apartadas uma da outra - nós temos que estar unificados.[3.46]
Ao mesmo tempo, os preconceitos acerca das questões de liderança e gênero impregnaram as campanhas governamentais contra os Panteras. Huggins apontou que a polícia tinha como alvos primários os Panteras homens, pois presumiam que estes seriam os líderes. Na realidade, entretanto, “nos bastidores mulheres dirigiam quase todos os programas, estavam todas envolvidas em cada uma das camadas do partido, até mesmo as camadas mais escondidas”. O COINTELPRO criou uma crise na organização que, ironicamente, criou solo fértil para mulheres. Dentro do contexto de repressão e desestabilização interna, as mulheres forneceram a sustentação da organização, permitindo que os Panteras resistissem a algumas investidas do COINTELPRO. Huggins ainda observou que, como resultado dos homens serem “presos e mortos em maior número” e removidos da liderança formal, “mulheres subiram na hierarquia da liderança”. Alguns homens:
Podem até ter tido questões não resolvidas sobre mulheres, mas, em relação a mulheres na liderança, corríamos muito perigo diariamente para dizer ‘Sem mulheres’. Não era assim. Nós não éramos uma organização de base intelectual. Nós tomávamos decisões baseadas na necessidade e, frequentemente, muito frequentemente, tomávamos decisões baseadas na sobrevivência.[3.47]
Em 1972, a repressão política de Estado e as batalhas destruidoras alimentadas por ela resultaram no declínio do Partido dos Panteras Negras enquanto uma organização nacional. O FBI assumiu a responsabilidade pela “condição caótica do BPP”, como sendo resultado de seus “esforços intensivos de contra-inteligência com o objetivo de causar a divisão entre Newton e Cleaver e dentro do partido".[3.48] Após as lideranças do Panteras serem expulsas, vários núcleos deixaram a organização e a luta interna entre as facções se tornou violenta. Newton desmantelou a maior parte dos grupos remanescentes e concentrou os recursos em conquistar o controle da comunidade e articular a formação de um poder político em Oakland, Califórnia, nos anos 1970.
Embora alguns estudiosos apontem que durante este período o BPP tornou-se desradicalizado e foi em grande parte extinto, recentes relatos autobiográficos de Panteras e textos acadêmicos têm realizado a conexão entre os esforços locais dos Panteras em garantir o controle da comunidade e um padrão mais amplo de reforma política em comunidades urbanas em todo o país na década de 1970. Centenas de Panteras de todo o país se realocaram no início dos anos 70 para lançar as bases da operação dos Panteras em Oakland. Em 1973, as mulheres representavam quase 50% de seus membros. Sua influência dentro da organização foi ampliada pelo fato de elas serem um grupo altamente escolarizado.[3.49] A reorganização estrutural dos Panteras e suas novas prioridades políticas proporcionaram novas oportunidades para mulheres, principalmente nas áreas de liderança, formal ou informal.
O Pessoal É Político
Em sua transformação de movimento para organização na década de 1970, os Panteras implementaram “provavelmente a maior experiência afro-americana de vida comunitária”, de acordo com o estudioso Timothy Miller.[3.50] As fronteiras permeáveis entre o local de trabalho e o espaço doméstico, o público e o privado, logo se tornaram um laboratório fértil para uma experimentação social criativa. As mulheres Panteras tornaram a reprodução, o cuidado com os filhos e a sexualidade partes cruciais das discussões da organização. As Panteras forjaram seu próprio caminho entre o argumento nacionalista de que o controle da natalidade era genocida e parte do extermínio da raça negra e o discurso feminista dominante que via a maternidade como uma fonte de opressão feminina e o controle da natalidade como intrínseco à liberdade sexual. Sua práxis organizacional em torno da reprodução revelou tanto possibilidades inovadoras para políticas de gênero transformadoras como a intransigência das crenças patriarcais sobre sexo e parentalidade.
A liberdade sexual, abraçada informalmente pelos Panteras, era frequentemente mediada por posição, personalidade e, o mais importante, gênero. Algumas mulheres Panteras descobriram que a organização era um lugar onde podiam celebrar e explorar sua sexualidade. De acordo com uma delas:
[Sexualidade] era uma coisa muito discreta no Partido. Era natural que as mulheres tivessem amantes mulheres e amantes homens ao mesmo tempo. Todos nós tínhamos permissão sexual para qualquer que fosse o nosso desejo. Agora, não era como se fôssemos colocar isso no jornal do Partido, porque não sentíamos que era necessário fazer uma declaração política sobre a forma como vivíamos. Mas vivíamos em um meio muito aberto, coletivo e livre.[3.51]
Entretanto, as mulheres frequentemente enfrentavam restrições em relação a seu comportamento sexual. Alguns Panteras heterossexuais esperavam e exigiam favores sexuais das mulheres. No início da história do BPP, Eldridge Cleaver tolerou a utilização dos corpos das mulheres como uma recompensa pelo comportamento político masculino e apelidou-o de “poder das xoxotas”[3.52], de forma bem semelhante ao refrão popular do movimento antiguerra “mulheres dizem sim aos homens que dizem não [ao recrutamento]”. Enquanto algumas mulheres foram indiferentes a essa designação, outras se sentiram coagidas por ela. Uma mulher Pantera puniu alguns companheiros do sexo masculino pelo “uso e abuso” de mulheres do Partido sob o pretexto da liberdade sexual.
Nos últimos meses, um camarada se jogou na cama comigo e começou a me despir e a fazer sexo, ao que me opus firmemente e ele finalmente desistiu. Mas esse mesmo camarada mal fala comigo ou tenta me levar para sair ou algo assim. Não é que isso aconteça diariamente, mas acontece demais. Incidentes como este, que não são denunciados e são apenas considerados como casuais, perpetuam todas as terríveis concepções equivocadas sobre a mulher Pantera Negra.[3.53]
A professora de literatura Margo Perkins argumentou que “embora a rejeição pelo Partido, do ponto de vista dos princípios, da mercantilização das relações íntimas sob o capitalismo (especificamente, a propriedade de um(a) amante/companheiro(a)) tenha sido emancipadora de muitas maneiras, a liberdade de ter intimidade com vários parceiros traduziu-se previsivelmente em consequências diferentes para as mulheres e para os homens”.[3.54] Esperava-se que as mulheres criassem os filhos nascidos de relações sexuais, enquanto os homens “geralmente mantinham a liberdade de aceitar ou renegar as responsabilidades parentais”.[3.55] Sob a orientação de mulheres, o BPP instaurou uma discussão interna sobre sexualidade e criou programas para atender às necessidades específicas de mulheres e crianças. Em um memorando de julho de 1972 sobre o estabelecimento de uma política organizacional de controle de natalidade, Audrea Jones, diretora da Clínica de Saúde e Pesquisa Médica Gratuita para o Povo (People’s Free Medical Research Health Clinic) dos Panteras, argumentou que as gestações sobrecarregavam a organização com “aumentos substanciais nas despesas financeiras”, maiores responsabilidades em relação ao cuidado das crianças e “reduções substanciais na mão de obra”. Jones criticou como “retrógrada e não progressista” a expectativa tácita, no âmbito do BPP, de que as mulheres assumissem a responsabilidade pelo controle da natalidade. Ela propôs aulas de educação sobre controle de natalidade tanto para homens como para mulheres, para abordar não apenas “os prós e contras dos diversos dispositivos e métodos de controle de natalidade, mas também, e mais importante, a responsabilidade e necessidade que temos de fazê-lo”.[3.56] Um memorando subsequente, encaminhado por Jones aos membros da direção, novamente instou à discussão sobre o planejamento da parentalidade no âmbito do Partido e sobre políticas para gestantes.[3.57] As mulheres Panteras criaram apoio institucional para suas crianças por meio dos programas comunitários do BPP. Em 1971, os Panteras criaram o Instituto da Juventude Intercomunitária (Intercommunal Youth Institute - IYI), um programa iniciado como uma resposta ao assédio com o qual algumas crianças Panteras estavam se deparando na escola.[3.58] Brenda Bay dirigiu o Instituto, que ensinava uma variedade de matérias, incluindo matemática, artes da linguagem, ciências, arte popular, estudos ambientais e educação política. Os pais de Oakland apreciaram o rigor acadêmico e a filosofia educacional progressista que o Instituto fornecia e logo a base de alunos da escola se expandiu. Os Panteras renomearam o IYI como Escola da Comunidade de Oakland (Oakland Community School - OCS) e se mudaram para um prédio maior. Em 1973, Huggins se tornou Diretora da OCS, trabalhando de forma muito próxima a Donna Howell, a codiretora, para desenvolver o currículo, coordenar a publicidade e administrar o dia a dia da escola. Os alunos da OCS, com idades entre dois e onze anos, recebiam bolsa integral e assistência de saúde e viviam em dormitórios onde recebiam três refeições nutritivas por dia.[3.59] De acordo com Huggins, “Pessoas de todo o mundo reconheciam a escola como não apenas uma ótima alternativa para a educação pública, mas como uma incrível experiência comunitária e uma força orientadora na vida dos alunos. Era mais do que uma escola. Era uma comunidade consigo mesma (...) Cuidamos da criança como um todo”.[3.60] A OCS conquistou reputação nacional por excelência em educação comunitária. Em fevereiro de 1976, a OCS foi capa de uma das revistas mais populares da América negra, Jet. Em 12 de maio de 1976, aproximadamente 125 crianças frequentaram a OCS.[3.61] Um ano depois, a escola foi reconhecida pelo legislativo do Estado da Califórnia por seu currículo criativo centrado no aluno.
Além do IYI, os Panteras criaram um Centro de Desenvolvimento Infantil (Child Development Center - CDC) como uma creche para a juventude Pantera. No final de 1972, havia cerca de oitenta crianças no coletivo Pantera: oito das quais nascidas naquele ano, vinte e uma no CDC e quarenta e oito no IYI.[3.62] Os Panteras adotaram a parentalidade coletiva, provendo as necessidades materiais das crianças e alojando-as durante os dias de semana em dormitórios. Os objetivos desses programas eram socializar as crianças Panteras em um estilo de vida coletivo, cuidar de crianças que possivelmente não tinham um ou ambos os pais presentes e atender às necessidades das mulheres em relação aos cuidados infantis. Este arranjo inovador apoiou o compromisso das mulheres Panteras de serem mães e ativistas políticas. Refletiu o desejo de algumas mulheres negras não de serem liberadas da maternidade, mas de serem apoiadas em um papel que valorizavam altamente.[3.63]
Para os homens e mulheres que trabalhavam no IYI e no CDC, cuidar das crianças era trabalhar em uma área central para a missão organizacional e tinha seus próprios desafios e recompensas. James Abron relembrou:
O Partido basicamente cuidava de você do anoitecer ao amanhecer, se você tivesse filhos. As pessoas que trabalhavam na escola eram basicamente as responsáveis pelos seus filhos. Você basicamente recebia seus filhos nos fins de semana, mas de segunda a sexta-feira nós os ensinávamos, os alimentávamos, os levávamos para nossos dormitórios e os lavávamos, os ajudávamos com os deveres de casa, os colocávamos na cama, limpar suas roupas, enxugar suas bundas e então [risos] o processo começava de novo.[3.64]
Memorandos internos do Partido refletiam o entendimento comum de que todos os Panteras, homens e mulheres, deveriam compartilhar a responsabilidade de criar as crianças Panteras, mesmo que não tivessem descendentes biológicos no IYI ou CDC. Isso era não apenas um reflexo de sua ideologia, mas também baseado na noção de coletividade da família negra estendida. Nestes memorandos, todos os Panteras eram convidados a “ajudar no Centro e aprender métodos de desenvolvimento infantil.” Os pais foram solicitados a disponibilizar as informações médicas de seus filhos e instruídos sobre quando buscá-los para as visitas de fim de semana e como registrar um relatório de acidente se uma criança se ferisse fora da estrutura coletiva de assistência.[3.65] Em novembro de 1973, os Panteras anunciaram que “Nenhum camarada deve maltratar nossas crianças. Elas devem ser bem alimentadas, mantidas limpas e tratadas para crescer e se desenvolver como jovens com suas necessidades e desejos específicos, que devem ser, até que sejam capazes, providos por nós. Somos todos pais deles”. Quem desobedecesse seria punido.[3.66]
Acadêmicos e ativistas pediam que mais atenção fosse dada às abordagens inovadoras de parentalidade por ativistas do Black Power. Perkins argumentou que “Dados os elogios e a promoção da maternidade pelo Partido [dos Panteras Negras], é irônico que nenhuma atenção real tenha sido dada a este assunto como parte de uma formulação contínua de estratégia revolucionária”. A ativista Toni Cade comentou que a glorificação da maternidade negra por ativistas do Black Power deveria ser acompanhada por planos concretos para modelos alternativos de criação de filhos, incluindo “uma nova visão do homem e da mulher”, em que ambos têm um papel na “tomada de decisão sobre a gravidez” e a discussão sobre a viabilidade desses sistemas de apoio como “comunas, creches, bolsas gravidez”.[3.67] As tentativas do BPP de promover um modelo alternativo de parentalidade e institucionalizá-lo dentro sua estrutura organizacional podem ser entendidas como uma resposta inovadora às realidades que as mulheres Panteras enfrentaram.
Mulheres Panteras no Comando
As mulheres começaram a ocupar cargos de liderança formal em meados da década de 1970. Seu acesso ao controle do poder aumentou por causa do vácuo de liderança criado pela ausência de líderes-chave masculinos dos Panteras e porque elas adquiriram uma gama impressionante de habilidades políticas, aprimoradas em funções menos visíveis. Huggins argumentou que “ficou claro em um ponto que as mulheres deveriam se tornar uma parte realmente viável do Comitê Central. E parte disso tinha a ver com as mulheres pedindo por isso e parte teve a ver com o fato de que eram as mulheres que estavam dirigindo tudo”.[3.68] Elaine Brown, que atuou como Vice-Secretária de Informação da Sessão Sul da Califórnia, editora do The Black Panther e candidata dos Panteras ao Conselho Municipal em 1973, foi nomeada presidente por Newton em 1974, depois que ele foi para o exílio para escapar de acusações criminais.
Brown promoveu vários dos membros mais capazes e eficientes do BPP, muitos dos quais eram mulheres, a cargos no Comitê Central. O Comitê Central dos Panteras tinha cinco mulheres que supervisionavam o trabalho de campanha, finanças organizacionais, defesa legal e o OCS. A adoção explícita de posições feministas por Brown aumentou as contradições internas sobre gênero dentro da organização. Durante seus sete anos no Partido dos Panteras Negras, ela foi confrontada com atitudes de supremacia masculina e enfrentou discriminação de gênero. Três de suas camaradas mais próximas, Ericka Huggins, Evon Carter e Gwen Goodloe, juntaram-se a ela em sua postura antissexista. De acordo com Brown, elas ficaram conhecidas como “The Clique” e juraram: “Não tínhamos intenção de recompensar nenhum irmão com nossos corpos, no quarto ou na cozinha”.[3.69] De acordo com Brown, seu relacionamento íntimo com Newton e sua atitude irreverente irritaram muitos homens Panteras. Brown lembrou de ter se tornado consciente de que:
Uma mulher tentando liderar estava, para meus orgulhosos Irmãos negros, fazendo uma aliança com as “vadias brancas contrarrevolucionárias, lésbicas e feministas que odiavam homens”. Era uma violação de algum princípio indefinido do “Black Power”. Se uma mulher negra assumisse um papel de liderança, dizia-se que ela estava erodindo a masculinidade negra, impedindo o progresso da raça negra. Ela era inimiga do povo negro.[3.70]
A adoção do feminismo por Brown e sua descrição das lutas pela igualdade de gênero dentro do BPP encaixaram-se na percepção popular e acadêmica sobre a organização, protegendo em grande parte seu mandato como líder de análises acadêmicas críticas.[3.71] Embora em sua autobiografia Brown seja crítica da política de gênero dos Panteras, ela retrata sua adesão ao militarismo que sustentou a liderança de Newton, suas ligações sexuais com poderosos homens brancos e seu abuso de poder com lentes acríticas. James argumentou que algumas das ações de Brown podem ser vistas como “contrafeministas e antirrevolucionárias” e que “as reconstruções feministas negras de Brown são frequentemente silenciosas a respeito de suas revelações sobre seu próprio excesso sexual, manipulação e aplicação de punição física contra afro-americanos”.[3.72] Claramente, o mandato de Brown como líder desafiou quaisquer suposições essencialistas em relação ao gênero de que a administração feminina democratizaria todos os aspectos da cultura organizacional.
Sob a liderança de Brown, os Panteras priorizaram a política eleitoral e a organização da comunidade local e se tornaram um ator formidável no cenário político de Oakland. Os Panteras foram eleitos para cargos-chave na política local, incluindo seis posições no conselho administrativo do [Programa de] Cidades Modelo de Oakland Oeste e assentos no conselho antipobreza de Berkeley. O BPP alinhou-se com o Partido Democrático da Califórnia, apoiando o candidato liberal a governador Jerry Brown em sua campanha vitoriosa, em 1974, e a eleição de Lionel Wilson como o primeiro prefeito afro-americano de Oakland, em 1977. O retorno de Newton ao comando do BPP em 1977 prenunciou seu período final de declínio. Tensões internas, diminuição da base de apoio, saída de mulheres-chave, comprometimento minguante com a estrutura coletiva, auditorias desfavoráveis de programas comunitários e acusações de atividades ilegais contra Newton levaram ao fim do BPP em 1982.
Conclusão
O histórico do Partido dos Panteras Negras sobre gênero é complexo, repleto de momentos inovadores com progressos de gênero, bem como momentos de misoginia e sexismo flagrantes (para complicar ainda mais, às vezes, esses momentos se sobrepuseram, como durante a liderança de Elaine Brown). No entanto, o BPP foi definido mais por seu fracasso em transformar modos sexistas de pensar e fazer do que pelo processo que ocorreu dentro de suas estruturas organizacionais no sentido de empoderar mulheres e homens para o engajamento em políticas antissexistas. Dizer isso não é minimizar o impacto corrosivo do sexismo nas mulheres individualmente e na eficácia da organização como um todo. No entanto, a discriminação de gênero raramente constituiu o aspecto definitivo das experiências das mulheres Panteras. Como Abu-Jamal apontou, a realidade diária para a maioria dessas mulheres incluía: “Trabalho duro. Muito estudo. Amantes presos. Sobrevivência. Esforço. Tempos de promessa. Tempos de terror. Resistência ao chauvinismo masculino. E esperança”.[3.73]
Participar dos Panteras capacitou mulheres e homens negros a visualizarem um modelo igualitário de relações de gênero não isoladamente, mas como parte integrante da transformação revolucionária da sociedade. Os comentários da Pantera Jonina Abron são instrutivos. Quando Abron se juntou ao BPP na década de 1970, ela esperava fazer parte de “uma organização que acredita na igualdade entre homens e mulheres”. No entanto, ela logo percebeu que muitas “ideias retrógradas” permaneciam:
Dentro do nosso Partido, me incomoda que haja alguns irmãos camaradas que ainda veem as mulheres como objetos sexuais. Não devemos ter, no Partido dos Panteras Negras, nenhum homem que pense assim, nem mulheres, aliás. Me incomoda que haja alguns poucos irmãos que parecem incapazes de ter uma conversa comigo quando eu explico que não estou interessada em ir para a cama com eles. Isso me faz sentir que eles acham que eu não tenho nenhum valor além do meu corpo (...). Gostaria de ver o Partido começar a lidar seriamente com essa questão. Embora tenhamos várias mulheres em cargos de liderança em nosso Partido, elas são respeitadas pelos homens porque estão na liderança.”
Abron reconheceu que “em última análise, será necessária uma sociedade nova e humana para alterar a maneira como homens e mulheres tratam uns aos outros na América”, mas demonstrou uma fé profunda no potencial dos Panteras para serem algo mais. Ela declarou: “Eu sei que somos todos produtos desta sociedade, mas devemos esperar mais uns dos outros, porque somos membros do Partido dos Panteras Negras. Por que não podemos amar e respeitar uns aos outros como seres humanos em vez de homens e mulheres?”.[3.74]
Abron foi apenas uma das muitas mulheres Panteras na vanguarda dos esforços da organização para criar estruturas, instituições e estilos de vida alternativos durante seus dezesseis anos de história. Essas mulheres resistiram às definições estreitas colocadas sobre elas por alguns homens nacionalistas, sociólogos, formuladores de políticas públicas, o Relatório Moynihan e o movimento das mulheres brancas. As desafiadoras reivindicações de força pelas mulheres Panteras eram uma refutação direta ao Relatório Moynihan, em um momento em que esse mesmo atributo estava sendo demonizado como disfuncional e seu papel central na promoção e prática da defesa da comunidade. Ao lado dos homens, essas mulheres exerceram liderança formal e informal, trabalharam como organizadoras de campanhas políticas dos Panteras, formaram equipes e dirigiram programas de sobrevivência comunitários e o The Black Panther e enfrentaram a prisão e o COINTELPRO. Elas redefiniram a maternidade e a família de uma forma que facilitaria seu ativismo e desafiaram os pressupostos patriarcais embutidos em uma noção de liberdade sexual baseada no acesso masculino ilimitado aos corpos femininos. No processo, elas transformaram a si mesmas, o Partido dos Panteras Negras e a própria ideia de Black Power.
[3.1] Publicação original: Spencer, Robyn Ceanne. “Engendering the Black Freedom Struggle: Revolutionary Black Womanhood and the Black Panther Party in the Bay Area, California”.Journal of Women's History, v.20, 1, Spring 2008, p. 90-113. Tradução de Sean Purdy e Maria Fernanda de Almeida Prado Campos. A autora é Professora de História, Lehman College, The City University of New York.
[3.2] Beale, Frances. “Double Jeopardy: To Be Black and Female”. In: Cade, Toni (org.) The Black Woman: An Anthology. New York: Mentor, 1970, p. 92.
[3.3] No original, womanhood [Nota dos tradutores].
[3.4] Fleming, Cynthia Griggs. “Black Women in Black Power: The Case of Ruby Doris Smith Robinson and the Student Nonviolent Coordinating Committee”. In: Collier-Thomas, Bettye e Franklin, V. P. (orgs.) Sisters in the Struggle: African American Women in the Civil Rights–Black Power Movement. New York: New York University Press, 2001, p. 207; Davis, Angela. An Autobiography. New York: International Publishers, 1974, p. 181–82.
[3.5] Brown, Elaine. A Taste of Power: A Black Woman’s Story. New York: Pantheon, 1992, p. 357.
[3.6] Griffin, Farah Jasmine. “Conflict and Chorus: Reconsidering Toni Cade’s The Black Woman: An Anthology”. In: Glaude, Eddie S. (org.) Is It Nation Time? Contemporary Essays on Black Power and Black Nationalism. Chicago: University of Chicago Press, 2002, p. 124.
[3.7] King, Deborah K. “Multiple Jeopardy, Multiple Consciousness: The Context of a Black Feminist Ideology”. In: Guy-Sheftall, Beverly (org.) Words of Fire: An Anthology of African–American Feminist Thought. New York: The New Press, 1995, p. 297, 312.
[3.8] Seale, Bobby. Seize the Time: The Story of the Black Panther Party and Huey P. Newton. Baltimore: Black Classic Press, 1991, p. 67–68.
[3.9] The Black Panther, 25 de abril de 1967.
[3.10] Griffin, Farah Jasmine. “‘Ironies of the Saint’: Malcolm X, Black Women and the Price of Protection”. In: Collier-Thomas, Bettye e Franklin, V.P. Sisters in the Struggle, p. 216. Confira também Griffin, “Conflict in Chorus”. In: GLAUDE, Is It Nation Time? p. 120–21.
[3.11] Griffen, “‘Ironies of the Saint,’” p. 214–17.
[3.12] The Black Panther, 25 de abril de 1967.
[3.13] Ibid.
[3.14] Beals, Melba. Warriors Don’t Cry: A Searing Memoir of the Battle to Integrate Little Rock’s Central High. New York: Washington Square Press, 1995, p. 61–75; McAdam, Doug. Freedom Summer. New York: Oxford University Press, 1988, p. 90; e Payne, Charles. I’ve Got the Light of Freedom: The Organizing Tradition and the Mississippi Freedom Struggle. Berkeley: University of California Press, 1995, p. 204, 209.
[3.15] Veja Harley, Sharon. “Chronicle of a Death Foretold”: Gloria Richardson, the Cambridge Movement, and the Radical Black Activist Tradition. In: Collier-Thomas, Bettye e Franklin, V.P. Sisters in the Struggle, p. 190; Tyson, Timothy B. Radio Free Dixie: Robert F. Williams and the Roots of Black Power. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1999, p. 165; and Moody, Anne. Coming of Age in Mississippi. New York: Laurel, 1968, p. 326–29.
[3.16] Tareka Lewis, entrevistada pela autora, 14 de julho de 2002, gravação de fita cassete, em Sacramento, Califórnia.
[3.17] LeBlanc-Ernest, Angela D. “‘The Most Qualified Person to Handle the Job’: Black Panther Party Women, 1966–1982”. In: Jones, Charles E. (org.) The Black Panther Party Reconsidered. Baltimore: Black Classics Press, 1998, p. 307–8.
[3.18] Elendar Barnes, entrevistada pela autora, 25 de setembro de 1997, gravação em fita cassete, em Brooklyn, New York.
[3.19] Judy [Hart] Juanita, entrevistada pela autora, 20 de outubro de 1997, gravação em fita cassete, em Oakland, Califórnia.
[3.20] Janice Garrett–Forte, entrevistada pela autora, 9 de outubro de 1997, gravação em fita cassete, em Oakland, Califórnia.
[3.21] Mary Williams, entrevistada pela autora, 21 de outubro de 1997, gravação de fita cassete, em Oakland, Califórnia.
[3.22] Cleaver, Eldridge. Soul on Ice. London: Granada Publishing Limited, 1970, p. 26.
[3.23] Confira Ibid., cap. 4.
[3.24] Veja Anderson, Reynaldo. “Practical Internationalists: The Story of the Des Moines, Iowa, Black Panther Party”. In: Theoharis, Jeanne e Woodard, Komozi (orgs.) Groundwork: Local Black Freedom Movements in America. New York: New York University Press, 2004, p. 293–94.
[3.25] Kathleen Cleaver, entrevistada pela autora, 24 de novembro de 1997, gravação de fita cassete, em New York, New York.
[3.26] Veja Cleaver, Kathleen. “Women, Power, and Revolution”. In: Cleaver, Kathleen e Katsiaficas, George (orgs.) Liberation, Imagination and the Black Panther Party: A New Look at the Panthers and their Legacy. New York: Routledge, 2001, p. 125; e LeBlanc-Ernest “The Most Qualified Person,” p. 308.
[3.27] No original, jives [Nota dos tradutores]
[3.28] The Black Panther, 16 de março de 1968; a estudante Gwendolyn Pugh me apresentou esta propaganda.
[3.29] Brenda Presley, entrevistada pela autora, 22 de outubro de 1997, gravação de fita cassete, em Oakland, Califórnia.
[3.30] Ibid.
[3.31] Black Panther Sisters talk about Women’s Liberation. The Movement, September 1969.
[3.32]Para um exemplo, veja: Urdang, Stephanie. Fighting Two Colonialisms: Women in Guinea–Bissau. New York: Monthly Review Press, 1979.
[3.33] James, Joy. Shadowboxing: Representations of Black Feminist Politics. New York: St. Martin’s Press, 1999, p. 102.
[3.34] Perkins, Margo V. Autobiography as Activism: Three Black Women of the Sixties. Jackson: University Press of Mississippi, 2000, p. 114.
[3.35] The Black Panther, 2 de Agosto de 1969.
[3.36] Ibid., 9 August 1969; SEALE, Seize the Time, p. 387–403.
[3.37] Veja: Cleaver, “Women, Power, and Revolution”, p. 126.
[3.38] Emory Douglas, entrevistado pela autora em 9 de outubro de 1997, gravação de fita cassete, em São Francisco, Califórnia.
[3.39] Seale, Seize the Time, p. 394.
[3.40] “Black Panther Sisters”.
[3.41] Ibid.
[3.42] Abu-Jamal, Mumia. We Want Freedom: A Life in the Black Panther Party. Boston: South End Press, 2004, p. 166.
[3.43] Churchill, Ward e Vander Wall, Jim. The COINTELPRO Papers: Documents from the FBI’s Secret War Against Domestic Dissent in the United States. Boston: South End Press, 1990, p. 124.
[3.44] O’Reilly, Kenneth. Racial Matters: The FBI’s Secret File on Black America, 1960–1972. New York: The Free Press, 1989, p. 298.
[3.45] The Black Panther, 5 de julho de 1969.
[3.46] “Black Panther Sisters”.
[3.47]Ericka Huggins, entrevistada pela autora, em 21 de outubro de 1997, gravação de fita cassete, Oakland, Califórnia.
[3.48] Informative Note, 4 de março de 1971, caixa 80, Huey P. Newton Foundation Papers, Special Collections, Green Library, Stanford University, Stanford, California (daqui em diante, HPN Papers).
[3.49] “Memo to Comrade June from Comrade Ericka,” caixa 10, pasta: “Central Committee Info,” HPN Papers.
[3.50] Miller, Timothy. The 60s Communes: Hippies and Beyond. New York: Syracuse University Press, 1999, p. 171.
[3.51] Nome omitido, entrevista pela autora, 1997, gravação em fita cassete, Oakland, Califórnia.
[3.52] No original, “pussy power” [Nota dos tradutores].
[3.53] Ibid.
[3.54] PERKINS, Autobiography as Activism, p. 104.
[3.55] Ibid.
[3.56] “From Audrea Jones, To: Responsible Members... Re: Establishment of Birth Control Policy for Party Members,” 22 de julho de 1976, caixa 6, pasta: Relatórios da Assistência em Saúde, HPN Papers.
[3.57]LeBlanc-Ernest, The Most Qualified Person, p. 320-21.
[3.58]Michele Russell, “Conversation with Ericka Huggins. Oakland, California, 4/20/77,” caixa 1, pp. 17, 20, HPN Papers.
[3.59]“Montclair Article,” s.d., caixa 5, pasta: “OCS Montclarion article 1976-1977,”, HPN Papers.
[3.60] “Ericka Huggins as a member of the county education board, Trustee Area 6,” caixa 4, pasta: “OCS Brochure,” HPN Papers.
[3.61] “Montclair Article,” HPN Papers; e LeBlanc-Ernest, The Most Qualified Person, p. 317.
[3.62] “From Audrea Jones, To: Responsible Members,” HPN Papers.
[3.63] Isso fica evidente mais tarde, quando as mulheres retiraram seu apoio da estrutura coletiva de cuidado infantil por não estar satisfazendo seu desejo de ter um tempo próprio com seus filhos. Carta de Tommye Williams para Huey, pasta: “Reports on Comrades,” caixa 14, HPN Papers.
[3.64] James Abron, entrevista pela autora, 6 de outubro de 1997, gravação em fita cassete, Oakland, Califórnia.
[3.65]“Innerparty Memorandum #9,” 27 de setembro de 1972, caixa 14, pasta: Memorandos Internos, HPN Papers; “Innerparty Memorandum,” 14 de novembro de 1973, caixa 14, pasta: Memorandos Internos, HPN Papers; “Innerparty Memorandum #15,” 8 de novembro de 1972, caixa 14, pasta: Memorandos internos #16, HPN Papers; “Innerparty Memorandum,” 15 de novembro de 1972, caixa 14, pasta: Memorandos Internos, HPN Papers.
[3.66] Ibid.
[3.67] Cade, Toni. “The Pill: Genocide or Liberation”. In: The Black Woman, p. 165.
[3.68] Entrevista a Huggins.
[3.69] Brown, A Taste of Power, 192.
[3.70] Ibid., 357.
[3.71] Perkins é uma exceção a isso. Ver Perkins, Autobiography as Activism, 114-30.
[3.72] James, Shadowboxing, p. 103.
[3.73] Abu-Jamal, We Want Freedom, p. 178.
[3.74]“Memo To: The Servant From: Comrade JoNina Abron,” caixa 14, pasta: “Reports on Comrades,” Papéis HPN.
- As origens desconhecidas da Marcha sobre Washington: política de direitos civis e a classe trabalhadora negra[4.1] - Tradução do artigo de William P. Jones
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“A mesma década que testemunhou o declínio do Jim Crow legal também viu a ascensão de uma segregação de facto nas nossas mais fundamentais instituições econômicas,” escreveu o militante veterano de direitos civis Bayard Rustin em 1965. De acordo com Rustin, trabalhadores negros tinham mais chance de estarem desempregados, ganharem salários baixos, trabalharem em empregos “vulneráveis à automação” e viverem em guetos empobrecidos nos anos 1960 do que em 1954, quando a Suprema Corte proibiu a segregação legal. Os historiadores atribuíram essa divergência a um estreitamento dos objetivos políticos afro-americanos durante os anos 1950 e começo dos anos 1960, afastando-os das demandas por emprego e reforma econômica que dominaram a agenda de organizações de direitos civis na década de 1940, que depois recuperaram urgência no final dos anos 1960. Jacquelyn Dowd Hall e outros estudiosos enfatizam os efeitos negativos da Guerra Fria, argumentando que a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), além de outras organizações de direitos civis, respondeu ao anticomunismo doméstico se distanciando dos sindicatos e da esquerda e focando na desigualdade racial em detrimento da desigualdade econômica. Manfred Berg e Adam Fairclough avaliam de forma mais positiva que a ênfase na igualdade racial permitiu que os ativistas por direitos civis se apropriassem da retórica pró-democracia do anticomunismo e solidificassem alianças com liberais[4.2] brancos durante a Guerra Fria, embora eles concordem que “a histeria anticomunista atrasou a luta por igualdade racial e limitou as opções políticas do movimento por direitos civis.” Por outro lado, Thomas Sugrue, Nancy McLean e Timothy Minchin focam na atenção renovada à desigualdade econômica no fim dos anos 60, atribuindo-a ao ressurgimento do ativismo da classe trabalhadora negra, que teria sido inspirada pelo Ato de Direitos Civis de 1964 e ao reaparecimento de vozes radicais anteriormente marginalizadas pelo macarthismo. Esses e outros estudos nos lembram que Rustin, A. Philip Randolph e Martin Luther King Jr. permaneceram comprometidos com o radicalismo econômico entre 1954 e 1965, mas os retratam como indivíduos isolados que, como escreve Sugrue sobre Randolph, “não tinham o movimento sob sua égide”.[4.3]
Contudo, a manifestação mais emblemática daquela década foi a Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade, que mobilizou um quarto de milhão de pessoas em 1963, em torno de demandas por acesso igualitário a empregos, a locais públicos e a direitos de voto; por aumento do salário-mínimo e sua extensão a trabalhadores agrícolas e do serviço doméstico; e por empregos dignos e significativos, com salários decentes, a trabalhadores desempregados. A Marcha sobre Washington foi iniciada pelo Conselho Trabalhista Negro Americano (NALC), que Randolph e milhares de outros sindicalistas negros criaram para desafiar a discriminação no seio da AFL-CIO (Federação Americana de Trabalho-Congresso de Organizações Industriais). Sindicalistas negros expandiram a sua agenda para incluir pautas de integração e direitos eleitorais promovidas por King e outros militantes do Sul, mas se recusaram a abandonar reformas econômicas para apaziguar os líderes liberais da NAACP e da AFL-CIO. Ao invés disso, eles contavam com o apoio de sindicatos locais e organizações de direitos civis em comunidades de operários negros, em sua maior parte no Norte urbano, onde eles haviam vivido e trabalhado desde a década de 1940. Lideranças sindicais e de direitos civis liberais se juntaram à mobilização alguns meses antes da marcha, investindo seus consideráveis recursos políticos e financeiros em uma pauta definida pelos radicais, que iniciaram e organizaram a manifestação. A coalizão da Marcha sobre Washington não atingiu todos os objetivos dessa pauta, mas convenceu o presidente John F. Kennedy a adicionar medidas de igualdade no acesso ao emprego à lei de direitos civis proposta por ele alguns meses antes, além de convencer Lyndon B. Johnson, o sucessor de Kennedy, a complementar o Ato de Direitos Civis com a guerra à pobreza.[4.4]
A Marcha sobre Washington abordou a crise econômica enfrentada pela classe trabalhadora afro-americana de maneira mais eficiente do que qualquer outra mobilização desde a Segunda Guerra Mundial. Enquanto liberais brancos relutavam em defender pautas econômicas durante a Guerra Fria, sindicalistas negros insistiam na importância do acesso a empregos e à representação sindical. Essa agenda se tornava ainda mais importante em uma época na qual a automação e a reestruturação econômica destruíam os empregos que serviam, até então, como porta de entrada para homens negros no mercado de trabalho. Aproveitando-se das redes forjadas por ativistas de direitos civis, de esquerda e sindicalistas durante as lutas contra a discriminação profissional nos anos 1940, eles também proveram apoio financeiro e tático à Conferência da Liderança Cristã do Sul (SCLC), de King, além de outras organizações de base que emergiram a partir de campanhas de ação direta contra a segregação e privação de direitos eleitorais no Sul. Já no começo dos anos 60, a aliança entre radicais do Norte e do Sul era capaz de desafiar a liderança liberal do movimento por direitos civis, mobilizando comunidades trabalhadoras em todo o país ao redor de uma agenda combinada “por empregos e liberdade.” Pesquisas feitas logo antes da Marcha sobre Washington indicavam que os afro-americanos estavam muito mais interessados em receber salários dignos em seus empregos do que em comer refeições em restaurantes segregados. Portanto, era improvável que tantos se juntassem a uma manifestação com o foco estrito na igualdade racial.[4.5]
Sindicalistas negros forjaram um consenso amplo entre líderes trabalhistas e de direitos civis – incluindo a administração Johnson – de que a igualdade racial não poderia ser alcançada sem reformas econômicas, mas eles não conseguiram solidificar uma coalizão política capaz de concretizar essas pautas. Antes mesmo que a Marcha sobre Washington tivesse acabado, o líder da Nação do Islã Malcolm X criticara Randolph e King por supostamente comprometerem a sua agenda a fim de agradarem os liberais brancos. Não havia muito fundamento por trás dessa acusação, mas ela ganhou credibilidade depois que os líderes da marcha cerraram fileiras em torno de Johnson, garantindo a aprovação do Ato de Direitos Civis e a vitória do Democrata contra o segregacionista Barry Goldwater em 1964. Enquanto isso, um grupo cada vez mais expressivo de “feministas trabalhistas” negras pressionava sindicalistas negros a expandir a sua agenda além da garantia de empregos para homens afro-americanos. Para elas, seria igualmente importante melhorar os salários e condições de trabalho nas áreas de serviço e indústria leve, que empregavam um número crescente de mulheres negras. Essas discordâncias se acentuaram perante a reação conservadora às conquistas do início dos anos 60 e à escalada da participação do governo Johnson na Guerra do Vietnã. O resultado foi o colapso da coalizão da Marcha sobre Washington e a fragmentação do NALC, SCLC e outras organizações radicais que haviam transformado o movimento por direitos civis na década anterior. Escrito no contexto dessa crise, o ensaio de Bayard Rustin em 1965 se direcionava a liberais brancos e nacionalistas negros, que estariam abandonando as reformas econômicas colocadas por ele e por outros no centro da agenda por direitos civis.
Além de complicar as suposições comuns sobre o movimento pelos direitos civis, esse relato da Marcha sobre Washington nos força a reconsiderar uma narrativa histórica mais ampla, na qual o liberalismo social-democrata da era do New Deal teria sido, como Nelson Lichtenstein escreve, “eclipsado, se não de fato substituído” pelo liberalismo consciente de direitos da Guerra Fria. Garry Gerstle associa o “desmantelamento da nação rooseveltiana” à Marcha sobre Washington, argumentando que o silêncio de Martin Luther King Jr. a respeito da desigualdade social em seu famoso discurso “Eu tenho um sonho” refletia não apenas o impacto sufocante do anticomunismo, mas também uma desilusão com o nacionalismo cívico que impulsionara as reformas econômicas durante o New Deal. Tanto Lichtenstein como Gerstle presumem que os líderes de direitos civis enfrentavam uma clara escolha entre o liberalismo do New Deal e o da Guerra Fria. Contudo, essa visão ignora a possibilidade da Marcha sobre Washington ter transcendido as duas variedades do liberalismo norte-americano do pós-guerra, insistindo que social-democracia e direitos civis eram não somente conciliáveis, mas se reforçavam mutuamente. O jornalista Murray Kempton reconheceu esse feito depois de assistir Bayard Rustin conduzindo os participantes da marcha em uma exposição pública de suas reivindicações. “Nenhuma expressão com um décimo do radicalismo desta havia antes sido vista ou escutada por tantos americanos,” relatou Kempton para a revista americana liberal New Republic.[4.6]
Conselho Trabalhista Negro Americano (NALC)
O NALC não se formou antes de 1960, mas em muitos aspectos ele pode ser considerado um fruto da Marcha sobre Washington da década de 40. A. Philip Randolph iniciou esse movimento anteriormente, ao ameaçar com a mobilização de cem mil operários negros em protesto contra a discriminação no emprego durante a Segunda Guerra Mundial. Randolph cancelou o protesto após o presidente Franklin D. Roosevelt criar o Comitê de Práticas Justas de Emprego (FEPC) em 1941, mas ele e outros sindicalistas negros continuaram a pressionar por uma legislação mais forte e duradoura. Maida Springer e Dorothy L. Robinson organizaram enormes passeatas na cidade de Nova York, trabalhando de perto com Anna Arnold Hedgeman, Bayard Rustin, Pauli Murray e outros ativistas que teriam um papel importante na Marcha sobre Washington. Outros sindicalistas negros estabeleceram “Comitês de Trabalho Justo” dentro de seus sindicatos e criaram alianças entre ativistas trabalhistas e por direitos civis nas suas comunidades. Esses incluíam Charles Hayes e Addie Wyatt, em Chicago, empregados de casas de processamento e embalagem; Horace Sheffield e Robert Battle, em Detroit, que trabalhavam na indústria automobilística; Theodore McNeal, dos carregadores de bagagem em vagões leitos; Ernest Calloway, dos caminhoneiros de St. Louis; e Cleveland Robinson (sem parentesco com Dorothy), do sindicato de trabalhadores do varejo da cidade de Nova York.[4.7]
O movimento da Marcha sobre Washington se desintegrou após a Segunda Guerra Mundial, sobretudo devido às diferenças estratégicas entre sindicalistas radicais negros e líderes liberais do NAACP e a Liga Urbana Nacional (NUL). Recebendo inspiração de uma ampla variedade de fontes, incluindo a não-violência gandhiana e o socialismo de Eugene V. Debs, Randolph concluiu que grandes manifestações e passeatas eram métodos mais eficientes de mudança sociopolítica do que ações judiciais e reuniões a portas fechadas com autoridades eleitas. Líderes do NAACP e da NUL endossaram a Marcha sobre Washington já em 1941, mas eles temiam que continuar os protestos depois da entrada dos EUA na Segunda Guerra alienaria os apoiadores brancos. Randolph tentou manter o movimento ao organizar o Conselho Nacional para uma FEPC Permanente, recrutando Anna Arnold Hedgeman para encabeçá-lo, mas os liberais se recusaram a financiar outras atividades além de ações judiciais e lobbies. Em 1948, líderes da NAACP dissolveram o conselho nacional e o transformaram em uma organização de lobby formal chamada Conferência de Liderança sobre Direitos Civis. Embora esteja além do escopo desse artigo, a burocratização do movimento por direitos civis também eliminou posições de liderança ocupadas por Maida Springer, Pauli Murray, Anna Arnold Hedgeman e outras mulheres negras, que continuariam a exercer papéis importantes, mas frequentemente ocultos.[4.8]
Em contraste com as disputas estratégicas, o anticomunismo teve um impacto relativamente pequeno nos sindicatos negros durante o final dos anos 40 e na década de 50. Randolph havia excluído os comunistas da Marcha sobre Washington em 1941, muito antes da maioria dos liberais os considerarem uma ameaça, e ele apoiou inteiramente os esforços para expulsá-los de organizações trabalhistas e por direitos civis após a guerra. Se os liberais brancos responderam aos ataques dos conservadores se distanciando de qualquer forma de radicalismo, Randolph permaneceu ativo no Partido Socialista e continuou a trabalhar com socialistas antistalinistas, tais como Jay Lovestone e A. J. Muste. Ele deixou que Bayard Rustin exercesse um papel proeminente na Marcha sobre Washington, apesar de Rustin ter pertencido à Liga da Juventude Comunista somente por alguns meses antes. Maida Springer, Pauli Murray e Ernest Calloway faziam parte do Partido Comunista dissidente de Lovestone e Horace Sheffield tinha ligações com Trotsky. Mesmo aqueles como Cleveland Robinson e Charles Hayes, que estavam próximos de sindicatos liderados por comunistas no fim dos anos 40, mudavam suas lealdades facilmente quando grupos não-comunistas chegaram ao poder na década de 50. Referindo-se ao sindicato de Robinson, Joshua Freeman explica que esses realinhamentos foram possíveis porque “grupos rivais concordaram a respeito de valores como igualdade racial, integração e a importância do sindicalismo organizado”.[4.9]
Apesar dos sindicalistas negros terem falhado em sustentar as alianças entre direitos civis e ativismo trabalhista no nível nacional, eles retiveram uma influência considerável em movimentos locais por igualdade racial e justiça socioeconômica. Maida Springer, Dorothy Robinson e Cleveland Robinson ajudaram a construir uma poderosa coalizão de militantes de direitos civis e sindicais na cidade de Nova York, que lançou campanhas contra a segregação nas escolas e a brutalidade policial, contribuindo com a eleição da antiga lovestonita,[4.10] Ella Baker, para chefiar o NAACP local. Addie Wyatt e Charles Hayes conduziram o que o historiador Roger Horowitz chamou de “um movimento black power incipiente,” incluindo campanhas contra a discriminação nos empregos e na habitação, chegando a desafiar o controle do político conservador William Dawson sobre o NAACP de Chicago. Ernest Calloway foi eleito presidente da NAACP de St. Louis, e sua esposa, Deverne, foi a líder do Congresso de Igualdade Racial (CORE) da cidade. Talvez os sindicalistas negros tenham exercido a sua maior influência em Detroit, onde Horace Sheffield e Robert Battle criaram o Conselho de Liderança de Sindicatos para fortalecer os trabalhadores afro-americanos na NAACP e no sindicato da indústria automobilística. Os líderes nacionais da NAACP se aproximaram dos sindicalistas negros ao contratar o antigo organizador sindical Herbert Hill para dirigir o seu departamento trabalhista no começo dos anos 50. A criação de comitês de trabalho e indústria também foi encorajada, com o objetivo de apoiar a sindicalização de trabalhadores negros e lutar contra a discriminação no trabalho em suas comunidades.[4.11]
A eclosão de movimentos de massa contra a segregação no Sul forneceu aos líderes sindicais afro-americanos a oportunidade de estender a sua influência além do nível local. Charles Heyes comandou esforços para denunciar o assassinato de Emmett Till, um adolescente de Chicago que fora linchado enquanto visitava o Mississipi em 1955. Enquanto isso, o sindicato de Cleveland Robinson e o NAACP de Nova York patrocinaram uma enorme “passeata trabalhista” no distrito nova-iorquino dos trabalhadores têxteis, Garment, para protestar contra o “terror racista no Mississipi.” Alguns meses depois, Randolph, Robinson e Ella Baker criaram a organização Em Amizade, para apoiar o boicote de ônibus lançado pelo sindicalista negro E. D. Nixon contra a segregação em Montgomery, Alabama. Após supremacistas brancos bombardearem a casa de Martin Luther King, Jr., o jovem pastor que Nixon recrutara para falar em prol do movimento, Randolph mandou Bayard Rustin para treinar King nas táticas da não-violência gandhiana. Rustin e Baker ajudaram King a formar o SCLC e espalhar o movimento para outras cidades do Sul. Hayes e Robinson se juntaram à mesa diretora da nova organização, financiada sobretudo por doações de seus respectivos sindicatos.[4.12]
As atividades do movimento no Sul também inspiraram sindicalistas negros a atacarem a segregação e o preconceito no interior da AFL-CIO, após as duas federações trabalhistas se fundirem em 1955. Líderes de ambas as federações haviam apoiado os direitos civis desde os anos 40, mas alegavam não terem a autoridade para disciplinarem sindicatos afiliados que excluíssem ou discriminassem trabalhadores negros, um posicionamento que parecia hipócrita depois da expulsão de sindicatos afiliados ao Partido Comunista. Atendendo a um pedido de Randolph, o Comitê de Trabalho e Indústria de Nova York convocou uma reunião para discutir o assunto com os sindicalistas que compareceram à quinta convenção anual do NAACP em 1959. Eles compuseram uma resolução exigindo a expulsão de todos os sindicatos que discriminassem membros de cor. Apresentada à convenção nacional do AFL-CIO por Randolph, o documento enfureceu líderes sindicais como George Meany, presidente da AFL-CIO, que perguntou a Randolph “quem diabos te designou como guardião de todos os negros da América?”. Os sindicalistas afro-americanos se reagruparam algumas semanas depois em Cleveland, onde decidiram criar uma organização nacional.[4.13]
Baseando-se nas redes ativistas desenvolvidas ao longo das décadas de 1940 e 1950, os fundadores do NALC descreveram a sua campanha de reforma do trabalho organizado como parte integrante de um movimento internacional pela igualdade racial que se estendeu até à era do New Deal. Sheffield e Battle concordaram em sediar uma convenção fundadora em Detroit e vinte e quatro sindicalistas, incluindo Maida Springer, Dorothy Robinson e Ernest Calloway, formaram um comitê diretivo temporário. Chamando “todos os sindicalistas negros” para uma convenção fundadora em 1960, eles alegaram que o evento coincidiria com “aquele momento histórico em que os ventos crescentes da revolução dos direitos civis estão a varrer os continentes da América e da África com uma força e um desafio cada vez maiores.” Randolph presidiu o comitê de direção provisória e afirmou no seu discurso principal à convenção fundadora que a luta “pela igualdade na Casa do Trabalho é maior e mais profunda” do que ganhar empregos ou representação sindical para trabalhadores individuais, “embora, sem dúvida, isto seja muito importante.” Uma vez que as leis trabalhistas do New Deal tinham imbuído os sindicatos de “privilégios, posição e poder derivados do governo,” explicou ele, ganhar acesso a empregos e à proteção sindical foi fundamental para o processo de passar “de um status de cidadania de segunda classe para um status de cidadania de primeira classe.”[4.14]
As estimativas dos números de membros do NALC variam muito, de quatro mil a mais de dez mil, mas a liderança que os sindicalistas negros comandavam nas organizações locais de direitos civis e trabalhistas deu-lhes muito mais influência do que a indicada pelos seus números. As seções formais operavam em vinte e três cidades, onde os membros do NALC trabalhavam para unir os direitos civis e os ativistas trabalhistas em torno de uma vasta gama de questões econômicas e raciais. Em Nova Iorque, Randolph recrutou Anna Arnold Hedgeman para chefiar o Comité de Emergência para a Unidade dos Problemas Sociais e Econômicos, que uniu grupos que iam desde a NAACP até à Nação do Islã e exigiu empregos, habitação, tratamento justo por parte da polícia e o direito de negociação coletiva para vinte mil trabalhadores negros e latinos nos hospitais da cidade. O Conselho de Liderança Sindical ajudou a eleger um prefeito liberal em Detroit, que apoiava direitos civis, derrubando um prefeito em exercício apoiado pelo poderoso sindicato dos trabalhadores do setor automotivo. Empregando uma análise explicitamente socialista desses eventos, a NALC Newsletter afirmava que a ascensão dos sindicalistas negros ao poder indicava “como a construção da unidade exigia uma compreensão do papel histórico a ser desempenhado pela classe operária negra”.[4.15]
Refazendo a Marcha sobre Washington
Tendo estabelecido uma organização nacional, os sindicalistas negros estavam finalmente em posição de reavivar a demonstração que Randolph tinha proposto em 1941. O catalisador para esse relançamento ocorreu em 1961, quando o comitê executivo da AFL-CIO demitiu o sindicalista negro Theodore Brown por participar de uma reunião do NALC enquanto funcionário do Departamento de Direitos Civis da AFL-CIO. Os líderes sindicais acusaram-no de utilizar fundos da federação para apoiar um grupo hostil ao trabalho organizado. Também votaram para censurar Randolph, o único membro negro do comitê executivo, por ter feito alegadamente “declarações falsas e gratuitas” contra a Federação. Cleveland Robinson convocou uma reunião de emergência dos líderes do NALC em Nova Iorque, onde declarou “com uma grande explosão de raiva” que Meany e outros líderes trabalhistas brancos eram “racistas” e “tal como Hitler.” Alguns propuseram processar a AFL-CIO ao abrigo da Lei Landrum-Griffin, o que permitiu ao governo investigar práticas antidemocráticas em práticas organizadas de trabalho, mas o organizador sindical de lavanderias Odell Clark opôs-se a que isto fortalecesse os ataques conservadores ao movimento trabalhista. Em vez disso, propôs organizar uma manifestação maciça de trabalhadores negros fora da sede nacional da AFL-CIO em Washington. O vice-presidente da NALC, L. Joseph Overton, concordou, proclamando: “Vamos marchar sobre Washington”.[4.16]
Inicialmente, os sindicalistas negros viram a Marcha sobre Washington como uma oportunidade de concentrar a atenção nos problemas econômicos que tinham sido ofuscados pelo movimento contra Jim Crow,[4.17] mas expandiram a sua agenda para ganhar o apoio do movimento dos direitos civis do sul. Os sindicalistas negros mudaram o foco da sua manifestação da AFL-CIO para o Congresso em 1962, depois de a Comissão de Direitos Civis do presidente Kennedy ter emitido um relatório, afirmando que a legislação federal era necessária, uma vez que os líderes sindicais tinham sido “largamente ineficazes” no combate à discriminação dentro das suas fileiras. Randolph observou também que a concorrência entre trabalhadores negros e brancos estava sendo exacerbada pela automatização da indústria americana, que só podia ser abordada através do planejamento econômico a nível federal. Randolph ganhou o desporto aos líderes negros que se reuniram para discutir “o quadro econômico nacional” em Nova Iorque, mas Anna Arnold Hedgeman recordou que vários o encorajaram a coordenar os seus esforços com uma demonstração de que Martin Luther King Jr. planejava para pressionar Kennedy sobre a dessegregação e os direitos de voto no Sul. Hedgeman organizou um encontro entre os dois líderes algumas semanas mais tarde, onde King e Randolph concordaram com uma “Marcha pelo Emprego e Liberdade” que abordaria “ambos os problemas econômicos e direitos civis".[4.18]
A agenda combinada ganhou o apoio entusiástico do Congresso da Igualdade Racial e do recém-formado Comitê de Coordenação Estudantil Não Violenta (SNCC), mas os líderes liberais por direitos civis e trabalhistas opuseram-se a que uma mobilização em massa pudesse alienar os seus apoiadores e reforçar a oposição conservadora a um projeto de lei sobre direitos civis. George Meany mostrou-se satisfeito por já não ser o alvo da manifestação e, numa mudança abrupta dos seus ataques anteriores, concordou em cooperar com o NALC para aprovar uma lei trabalhista justa. No entanto, recusou-se a apoiar a Marcha, argumentando que apenas iria reforçar as acusações conservadoras de que os direitos civis e os movimentos trabalhistas eram controlados por comunistas. Os líderes da NAACP e da Liga Nacional Urbana também não concordaram, insistindo que já tinham apoio suficiente de Kennedy e que estavam avançando através de negociações silenciosas. Kennedy rejeitou a recomendação de uma lei trabalhista justa e concordou que uma manifestação destruiria as suas chances de passar uma lei de direitos civis mesmo que moderada.[4.19]
Os receios liberais aumentaram quando, no meio dessas discussões, o Comitê de Atividades Não Americanas do Congresso abriu uma investigação sobre as alegações de que os comunistas tinham se infiltrado nas filiais do NALC em Cleveland, Buffalo, Chicago, e outras cidades. A constituição do NALC impediu os comunistas de ocuparem posições de liderança na organização e Randolph ordenou ao Comitê Executivo que investigasse e reorganizasse quaisquer sucursais que se descobrisse serem controladas pelo Partido Comunista. No entanto, os sindicalistas negros recusaram-se a conduzir uma purga mais ampla de suspeitos de serem comunistas, com o fundamento de que as acusações se baseavam no boato de “um informante pago e confesso” do Federal Bureau of Investigation (FBI). Salientando que Martin Luther King Jr. tinha falado repetidamente sobre “o papel negativo do FBI e as suas atividades no que diz respeito à luta geral pela plena liberdade e igualdade dos negros pessoas”, os líderes da sucursal de Chicago exigiram que os informantes também fossem removidos da liderança no NALC. Tal como ocorreu desde a década de 1940, os sindicalistas negros estabeleceram a sua distância do Partido Comunista, sem se alinharem com conservadores ou “liberais da Guerra Fria".[4.20]
Em vez de moderar a sua política para apaziguar os liberais, os sindicalistas negros construíram a Marcha sobre Washington com o apoio dos sindicatos e grupos de direitos civis locais que os tinham sustentado desde os anos 1940. Cleveland Robinson chefiou o Comitê Administrativo da Marcha, que funcionou a partir do escritório do seu sindicato no centro da cidade antes de se mudar para a sede oficial em Harlem. O sindicato de Robinson fretou três trens e dezoito ônibus e organizou várias caravanas de automóveis, fornecendo a cada passageiro almoço e jantar em caixas, bem como um chapéu e um alfinete marcados com o logótipo oficial da marcha. O sindicato de Maida Springer pagou dezesseis trens e quinze ônibus. O professor secundarista Timuel Black, de Chicago, fretou dois trens e um avião e angariou trinta mil dólares para enviar mil trabalhadores desempregados para Washington. Os sindicalistas nova-iorquinos Corrine Smith e Geri Stark angariaram quatorze mil dólares numa única noite, organizando um espetáculo beneficente à meia-noite no Teatro Apollo no Harlem, com atuações de Thelonius Monk, “Little” Stevie Wonder e outras estrelas. Anna Arnold Hedgeman observou que tais ações iniciais “eram dignas de nota, porque sem este esforço básico feito em todo o país nos primeiros meses de 1963 não poderia ter havido a participação massiva de 28 de agosto de 1963.”[4.21]
Tendo-se oposto à Marcha sobre Washington durante quase um ano, os líderes liberais por direitos civis e trabalhistas juntaram-se finalmente à mobilização apenas dois meses antes de a Marcha ter sido marcada para ocorrer. Randolph e King viram uma oportunidade de recrutar Roy Wilkins e o presidente dos Trabalhadores Automóveis Unidos, Walter Reuther, quando Kennedy fez um último esforço para os convencer a não marcharem. Reunido com os quatro ativistas na Casa Branca, Kennedy alertou que uma grande manifestação iria alienar os apoiadores moderados da sua lei dos direitos civis. Randolph rebateu, afirmando que as manifestações já estavam ocorrendo em todo o país, jogando com o medo do presidente da subversão comunista, sugerindo que era melhor tê-los “liderados por organizações dedicadas aos direitos civis e disciplinados pela luta ao invés de os deixarem a outros líderes que não se preocupam nem com os direitos civis nem com a não-violência”.[4.22] Kennedy não foi persuadido, mas Wilkins e Reuther apoiaram a marcha numa reunião em um almoço que aconteceu mais tarde naquela tarde.
O apoio de última hora dos liberais transformou uma mobilização já maciça, na maior manifestação da história dos Estados Unidos. No 2 de julho, um grupo inter-racial de líderes de direitos civis, trabalhistas e religiosos reuniu-se em Nova Iorque para patrocinar formalmente a marcha, incluindo Randolph, King, Wilkins e Reuther, bem como representantes da Liga Urbana, CORE, SNCC, Conselho Nacional de Igrejas, Congresso Judaico Americano e a Conferência Católica Nacional para a Justiça Interracial. Apesar das suas reservas iniciais, Wilkins escreveu a todas as filiais da NAACP, conselhos de juventude e conferências estatais com ordens para trazer “não menos que cem mil” pessoas a Washington e enviou Herbert Hill para ajudar os comités de trabalho e indústria a estabelecerem comitês organizadores em cidades de todo o país. George Meany negou apoio da AFL-CIO, mas a Marcha ganhou o apoio de dezessete sindicatos internacionais, várias câmaras municipais e estaduais de trabalhadores e da Direção dos Sindicatos da Indústria da AFL-CIO, que era chefiada por Walter Reuther. O sindicato de trabalhadores da indústria automobilística do Reuther alugou duzentos quartos de hotel em Washington, imprimiu duas mil placas, bancou ônibus e trens para transportar cinco mil pessoas para a marcha, e dividiu o custo de dezesseis mil dólares para um sistema de som com o sindicato dos trabalhadores de vestuário. Prefeitos liberais de Nova Iorque e Chicago até concederam licenças de férias a empregados da cidade que desejavam juntar-se à Marcha. Até o final de julho, os organizadores relataram que os comitês locais tinham fretado dois mil ônibus, vinte e um trens e dez aviões. Bayard Rustin estimou que poderiam transportar cento e quinze mil pessoas para Washington.[4.23]
Os liberais continuaram a manifestar preocupação com o radicalismo da Marcha, mas juntaram-se à mobilização demasiado tarde para poderem impor restrições significativas à sua mensagem. Na reunião de 2 de julho, Wilkins tentou impedir Randolph de nomear Bayard Rustin como o diretor oficial da Marcha, alegando que o seu passado comunista e a sua homossexualidade desacreditariam a mobilização. Randolph ultrapassou Wilkins ao concordar em servir como diretor e depois nomear Rustin para agir como vice-diretor. Rustin e Cleveland Robinson também asseguraram que o Comitê Administrativo da Marcha fosse dominado por um “grupo de Randolph”, que incluía Anna Arnold Hedgeman, os sindicalistas negros L. Joseph Overton e Theodore Brown e o ativista do Partido Socialista, Norman Hill. A maioria dos outros administradores eram aliados próximos de Martin Luther King Jr., de acordo com o biógrafo de Randolph, deixando o diretor da Liga Urbana, Whitney Young, “preocupado com quem estava tomando as decisões” sobre a Marcha entre as reuniões dos seus patrocinadores oficiais. O jornalista Harvey Swados, que acompanhou a mobilização mais de perto do que qualquer outro repórter, afirmou que a agenda foi se ampliando e radicalizando com o tempo, acabando por “ultrapassar qualquer coisa concebida pelos liberais brancos e pelo oficialismo bem-intencionado e envolvendo um deslocamento - com consequências incalculáveis – do estado de guerra e de bem-estar e a sua atual estrutura de poder”.[4.24]
A luta sobre a mensagem principal do ato continuou durante o dia da Marcha, embora Randolph tenha mantido a vantagem. O primeiro desafio significativo à sua liderança não veio dos liberais, mas das mulheres negras que tinham desempenhado papéis centrais no movimento da Marcha sobre Washington desde os anos 40. No início da fase do planejamento da Marcha de 1963, Randolph ignorou um pedido de Anna Arnold Hedgeman para procurar a representação de uma organização de mulheres negras. Hedgeman redigiu uma carta de protesto com duas ativistas do NALC de Nova Iorque e algumas mulheres chegaram mesmo a sugerir que Randolph fizesse piquetes quando se dirigiu ao Clube Nacional da Imprensa, restrito só a homens, mas Maida Springer convenceu-as a não tomarem quaisquer ações que pudessem prejudicar o sucesso da mobilização. O conflito iria inspirar as mulheres negras a insistirem mais na igualdade de gênero após a Marcha, mas naquela altura, elas aceitaram uma homenagem simbólica à ativista de Montgomery, Rosa Parks, e outras heroínas do movimento. “Algumas de nós sorriram”, recordou Hedgeman, “ao reconhecermos mais uma vez que as mulheres negras são cidadãs de segunda classe da mesma forma que as mulheres brancas na nossa cultura”.[4.25]
Randolph respondeu de forma semelhante a uma disputa que eclodiu quando vários patrocinadores se opuseram a um discurso que o representante do SNCC John Lewis pretendia proferir. Randolph rejeitou as queixas de que Lewis usou frases “comunistas", tais como “revolução” e “massas”, afirmando: “Eu próprio as usei muitas vezes.” King e Rustin levantaram uma objeção mais substancial à ameaça de Lewis de “seguir a nossa própria política de 'terra arrasada’ e destruir o Jim Crow completamente - de forma não violenta,” salientando que, apesar da ressalva, a frase violava os princípios gandhianos que tinham sido centrais para o movimento da Marcha sobre Washington desde a década de 1940. Finalmente, Walter Reuther insistiu que Lewis omitisse a afirmação de que o SNCC “não pode apoiar de todo o coração o projeto de lei dos direitos civis do governo, pois é demasiado pouco e demasiado tarde.” Ele e outros foram profundamente críticos em relação ao projeto de lei, mas quiseram reforçá-lo e aprová-lo. Os críticos citariam mais tarde este incidente como prova de que os liberais restringiram o radicalismo da Marcha, mas King, Rustin e Reuther opuseram-se ao que viam como desvios em relação aos objetivos e táticas originais do movimento. Além disso, foi Randolph que finalmente convenceu Lewis a mudar o discurso. Lewis lembra-se dele suplicando, quase em lágrimas: “Esperei toda a minha vida por esta oportunidade, por favor não a arruíne.” Lewis omitiu diretamente referências à violência e concordaram com um apoio crítico à lei de direitos civis, mas ele e outros ativistas do SNCC sentiram “que a nossa mensagem não estava comprometida”.[4.26]
O jornalista Russell Baker descreveu a multidão que se reuniu em Washington a 28 de agosto de 1963 como “um vasto exército de americanos pacatos e de classe média que tinham vindo no espírito de uma saída à igreja”, mas a sua e outras descrições revelaram uma presença significativa da classe trabalhadora organizada. Em contraste com os trabalhadores dos subúrbios que teriam chegado como “para-choques” pelas ruas da capital numa manhã típica de um dia de semana, a maioria dos manifestantes chegou de ônibus e trens fretados de Baltimore e de cidades mais ao norte. Ao observar a multidão reunida na base do Monumento a Washington, Baker reconheceu o sindicalista nova-iorquino Peter Ottley realizando uma conferência de imprensa com uma centena de delegados do seu lar de idosos e do sindicato dos trabalhadores de hospitais. O jornalista maravilhou-se com o fato de os manifestantes parecerem mudar de direção “espontaneamente, sem conselho da plataforma” e rumarem em direção ao Lincoln Memorial, aparentemente inconscientes de que a multidão era guiada por uma “força policial interna” que Rustin organizou em colaboração com a Associação Guardiã, uma organização de polícias negros da cidade de Nova Iorque. Bayard Rustin também garantiu que os manifestantes deixariam espaço para oradores e dignitários, estabelecendo um amortecedor de vinte jardas à volta da plataforma que ele “preencheu com sindicalistas".[4.27]
Músicos e líderes religiosos concentraram a atenção dos marchantes ao aproximarem-se do Lincoln Memorial, antes de Randolph subir ao palco e recordar-lhes as tarefas políticas que tinham diante de si. “Estamos aqui reunidos na maior manifestação da história desta nação”, declarou ele, tendo um orgulho pessoal óbvio nessa realização. “Somos a guarda avançada de uma revolução moral maciça em prol do emprego e da liberdade”. Fiel à tradição socialista que tinha animado o seu ativismo desde os anos 1920, o radical de setenta anos afirmou que os reunidos perante ele representavam “a guarda avançada de uma revolução moral maciça”, destinada a criar uma sociedade onde “a santidade da propriedade privada ocupa o segundo lugar na santidade da personalidade humana”. Ele situou o movimento dos direitos civis num amplo arco histórico que se estende desde a luta contra a escravatura, argumentando que embora a revolução beneficiasse todos os americanos, os afro-americanos estavam destinados a liderá-la “porque os nossos antepassados foram transformados de personalidades humanas em propriedade privada”. Randolph terminou endossando a lei dos direitos civis de Kennedy, ao mesmo tempo que clarificou as suas limitações. “Sim, queremos todas as acomodações públicas abertas a todos os cidadãos”, explicou ele, “mas essas acomodações pouco significarão para aqueles que não podem pagar para os utilizar”.[4.28]
Seguindo o exemplo de Randolph, representantes das organizações patrocinadoras insistiram que a igualdade racial não poderia ser alcançada sem uma reforma econômica. “Queremos emprego e com ele queremos o orgulho, a responsabilidade e o autorrespeito que vai com a igualdade de acesso ao emprego”, declarou Roy Wilkins, acrescentando que “as propostas do presidente representam uma abordagem tão moderada que se for enfraquecida ou eliminada, o resto será pouco mais do que água com açúcar”. Walter Reuther chamou o projeto de lei de Kennedy “o primeiro passo significativo”, insistindo que “a questão do emprego é crucial, porque não resolveremos a educação ou a habitação ou as acomodações públicas enquanto milhões de negros americanos forem tratados como cidadãos econômicos de segunda classe e lhes for negado emprego”. Tendo omitido referências diretas à violência, John Lewis ainda fez uma crítica mordaz ao projeto de lei de Kennedy. Salientando que a legislação proposta nada fez para abordar a brutalidade policial, os ataques aos ativistas dos direitos civis e as violações dos direitos de voto no Sul, ele perguntou o que significaria um tal projeto de lei para “uma criada que ganha $5 por semana na casa de uma família cujo rendimento é de $100.000 por ano.” Ecoando o discurso de abertura de Randolph, Lewis proclamou: “A Revolução está próxima e devemos nos libertar das correntes da escravidão política e econômica”. Reconhecendo o radicalismo das observações de Lewis, o jornalista Murray Kempton observou que, como Lewis retornou ao seu lugar, “todos os negros na fila dos oradores o cumprimentarem com um gesto de mão e uma tapinha nas costas; e todos os brancos olharam para o horizonte”.[4.29]
Quando Martin Luther King Jr entrou em cena, talvez acreditasse que outros oradores tivessem focado demais sua atenção na injustiça econômica em detrimento da luta igualmente urgente contra o Jim Crow. Ao contrário da crença popular que King se tornou economicamente radical apenas no final dos anos 1960, o historiador Thomas Jackson mostrou que o jovem pastor começou a criticar a exploração econômica quando ele era estudante durante os anos 1940 e que sua crítica foi nutrida por sua estreita colaboração com Randolph, Cleveland Robinson e outros sindicalistas na década de 1950. No entanto, Jackson observa que o discurso de King à Marcha sobre Washington “deixou de fora seu chamado habitual para uma ampla distribuição de privilégios e propriedades e pelo fim da supressão de classe das massas”. King havia incluído uma demanda explícita por empregos quando proferiu uma versão do mesmo discurso apenas algumas semanas antes em Detroit, mas abandonou essa linha quando se afastou do discurso preparado em Washington. Observando que todos os outros que discursaram “se concentraram na luta pela frente e falaram em linguagem dura e severa”, o jornalista E. W. Kenworthy achou paradoxal que King, “que havia sofrido talvez mais que todos”, fizesse o discurso mais conciliatório da época.[4.30]
Tendo levado a multidão a um frenesi emocional que deixou até mesmo militantes mais sisudos do SNCC “rindo, gritando, batendo palmas” e com os olhos marejados, King devolveu o microfone a Randolph e Rustin, que voltaram novamente a atenção no propósito específico da mobilização. Murray Kempton afirmou que o “momento naquela tarde que mais desafiou a crença” ocorreu quando Rustin leu a lista completa de demandas e então liderou os manifestantes no compromisso de persistirem até que cada uma delas fossem cumpridas. Os relatos subsequentes se concentraram quase exclusivamente no discurso de King, mas na época a mídia fez uma cobertura detalhada de todo o evento. Três grandes redes de televisão transmitiram ao vivo a Marcha e a A. C. Nielsen Company informou que a audiência aumentou 46 por cento na área metropolitana de Nova Iorque. Jornais citaram extensivamente todos os discursos, muitas vezes reimprimindo o texto que Lewis pretendia proferir e revistas semanais e mensais dedicavam edições inteiras a biografias detalhadas de líderes de março e a análises de seus objetivos.[4.31]
Apesar dos temores expressos por Kennedy, Wilkins e outros liberais, a Marcha sobre Washington uniu uma ampla gama de ativistas, eleitores e oficiais eleitos em torno da crença de que a igualdade racial não poderia ser alcançada sem justiça econômica. O Wall Street Journal noticiou no dia da Marcha que quase dois terços dos brancos nas cidades do Norte e do Oeste desaprovaram a manifestação e o senador liberal Hubert Humphrey admitiu ao ver a capital se encher de manifestantes que “isso provavelmente não mudou nenhum voto na lei dos direitos civis”. No entanto, a crítica foi atenuada pelo tremendo tamanho e conduta ordenada da mobilização. Envergonhado por ter se abstido da maior manifestação - e talvez a maior marcha de sindicalistas - na história dos EUA, George Meany mobilizou a poderosa máquina de lobby da AFL-CIO por trás da campanha para adicionar medidas justas de emprego à Lei de Direitos Civis de Kennedy. Kennedy admitiu isso pouco antes de seu assassinato em novembro e em seu primeiro discurso do “Estado da União,” o Presidente Lyndon Johnson prometeu aprovar o projeto e segui-lo com uma “guerra total contra a pobreza humana e o desemprego”. Johnson obteve uma vitória esmagadora sobre o republicano Barry Goldwater no novembro seguinte, numa eleição amplamente vista como um referendo sobre a lei dos Direitos Civis de 1964.[4.32]
Uma Crise de Vitória
Mesmo forjando um amplo consenso em torno da demanda por empregos e liberdade, os sindicalistas negros descobriram que não conseguiam mais unir ativistas afro-americanos em torno de um programa específico para realizar essa agenda. A discórdia surgiu durante a Marcha sobre Washington, quando o líder da Nação do Islã, Malcolm X, que cooperou com Randolph em 1962, acusou os líderes negros de diminuirem a militância da Marcha em troca do apoio financeiro dos liberais brancos. Os líderes da Marcha negaram a acusação, mas ela ganhou credibilidade quando Randolph e outros colaboraram com os liberais para fortalecer e aprovar a lei dos Direitos Civis. Randolph, Rustin e King declararam uma suspensão dos protestos para apoiar a eleição de Johnson em 1964 e cooperaram com Wilkins e Reuther para derrotar uma campanha do SNCC que visava colocar uma delegação inter-racial do Mississippi na Convenção Nacional Democrata. John Lewis lembrou que foi “uma grande decepção” para os ativistas do SNCC “que deram tudo o que tinham para provarem que era possível trabalhar através do sistema”. Para Malcolm X isso indicava que os afro-americanos estariam melhor com Goldwater na Casa Branca, já que “pelo menos eles saberiam que estavam lutando contra um lobo rosnando honestamente, ao invés de uma raposa que poderia tê-los em seu estômago e os digerir antes mesmo de saberem o que está acontecendo”.[4.33]
Randolph procurou superar o impasse convidando quarenta e cinco líderes de grupos políticos, cívicos e religiosos negros para “esclarecerem os cursos de ação possíveis” na Conferência do Estado da Raça, na cidade de Nova York. Ele iniciou a discussão afirmando que “a Revolução dos Direitos Civis se prendeu numa crise de vitória,” que comparou à situação enfrentada pelos abolicionistas após a Guerra Civil e pelos líderes trabalhistas após o New Deal. Nos casos anteriores, ele afirmou que tremendas vitórias legais “provocaram uma sensação de relaxamento e enfraqueceram a vontade de lutar e resultaram na perda de grande parte de sua liberdade”. Assim como a Proclamação de Emancipação falhou em resolver os problemas persistentes de privação de direitos e peonagem e as leis trabalhistas do New Deal “negligenciaram os trabalhadores agrícolas migrantes, e o Jim Crow, massas trabalhadoras de classe baixa,” Randolph alegou que a lei dos Direitos Civis não forneceria moradia acessível, educação de qualidade e “empregos ou uma renda decente garantida para todos.” A menos que os afro-americanos se unissem aos “seus companheiros brancos pobres e cidadãos de boa vontade” em torno dessa agenda mais ampla, ele alertou, “a história mais uma vez nos deixará para trás”.[4.34]
Os líderes negros concordaram que precisavam abordar as preocupações dos afro-americanos da classe trabalhadora, mas discordavam severamente sobre a melhor maneira de fazer isso. Roy Wilkins descartou a necessidade de uma reforma mais radical, argumentando que a lei dos Direitos Civis forneceu uma base adequada para a igualdade legal e que a votação forneceu “a arma básica” para lutar outras batalhas. O diretor da Liga Urbana, Whitney Young, não compareceu à reunião, mas enviou um comunicado descrevendo políticas de combate à pobreza e ao desemprego nas comunidades negras. Ostentando-se de que o Presidente Johnson o havia pedido pessoalmente para desenvolver tal programa, Young pediu educação, treinamento e programas de contratação direcionados, que dariam aos trabalhadores negros “uma base para uma vida Americana normal de classe média”. A declaração de Young provocou uma resposta furiosa de representantes de organizações mais militantes. James Forman, do SNCC, pediu aos líderes de direitos civis que rejeitem “valores de classe média,” como status e acumulação, e se concentrem em ganhar o respeito das pessoas que vivem no Harlem e em outras comunidades da classe trabalhadora negra. O representante do SCLC, Andrew Young, concordou, afirmando que o objetivo do movimento não deveria ser “assimilar a sociedade branca”. Bayard Rustin, Cleveland Robinson e Pauli Murray tentaram reorientar a discussão em torno de um programa específico para ação futura, mas a Conferência do Estado da Raça gerou apenas vagamente uma declaração de unidade.[4.35]
Até 1966, até mesmo sindicalistas negros discordaram sobre o caminho a seguir. Convencido de que a AFL-CIO havia sido conquistada para sua luta, Randolph, Rustin e Maida Springer saíram do NALC para criar o Instituto A. Philip Randolph, que foi financiado pela AFL-CIO e se concentrou em registrar eleitores negros, solidificando os laços entre os direitos civis e os movimentos trabalhistas e promovendo a guerra à pobreza. Outros sindicalistas negros não estavam tão otimistas em se aliar à AFL-CIO ou à administração Johnson e Cleveland Robinson foi eleito presidente do NALC em uma plataforma destinada a organizar trabalhadores de baixos salários e a exigir mais financiamento para a guerra contra a pobreza. Enquanto Randolph e Rustin insistiam que as reformas domésticas não competiriam com os esforços contínuos de Johnson para vencer a Guerra Fria, Robinson criticou o presidente por desviar o financiamento antipobreza para a guerra no Vietnã e acusou a AFL-CIO de apoiar sindicatos anticomunistas na América Latina e em outras regiões, negligenciando a situação dos trabalhadores de baixos salários nos Estados Unidos. Enquanto isso, Dorothy Robinson, Addie Wyatt e outras mulheres deixaram o NALC para ajudar a construir a Organização Nacional de Mulheres, que foi fundada por Pauli Murray e outras feministas que ficaram frustradas com a recusa dos líderes masculinos em aceitarem a liderança das mulheres ou abordarem as desigualdades raciais, econômicas e de gênero enfrentadas pelas mulheres americanas.[4.36]
Outras organizações de direitos civis tentaram vincular lutas pela igualdade racial e justiça econômica no final dos anos 1960, mas nenhuma alcançou a influência que o NALC demonstrou com a Marcha sobre Washington. A NAACP lançou uma campanha ambiciosa para fazer cumprir a lei dos Direitos Civis, mobilizando filiais locais para identificar casos de discriminação no emprego e levá-los ao tribunal, mas o ativismo legal pouco fez para abordar a desindustrialização e pode ter minado a cooperação inter-racial da classe trabalhadora que Randolph e outros sindicalistas negros consideravam crítica para o sucesso de reformas mais radicais. Da mesma forma, o governo Johnson adotou as recomendações da Liga Urbana de treinamento profissional e contratação preferencial, ignorando a proposta de Randolph de criar novos empregos por meio de obras públicas. O SCLC lançou a ambiciosa Campanha das Pessoas Pobres em 1967, trabalhando em estreita colaboração com Cleveland Robinson e outros sindicalistas negros, mas entrou em colapso sob o peso de rivalidades pessoais e organizacionais após o assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968. Alguns dos apelos mais intensos por justiça econômica vieram de ativistas do Black Power que procuraram radicalizar as agendas do SNCC e do CORE no final dos anos 1960. Stokely Carmichael e Charles V. Hamilton parafrasearam o discurso de Randolph na Marcha sobre Washington em seu manifesto Black Power de 1967 – instigando ativistas a reorientar sua agenda em torno da “dignidade do homem, não da santidade da propriedade”. Porém, o movimento Black Power não conseguiu mobilizar afro-americanos da classe trabalhadora ou articular uma solução para a crise econômica que enfrentavam.[4.37]
Tendo pressionado o movimento por direitos civis a exigir igualdade racial e justiça econômica nos anos 1950 e início dos anos 1960, os sindicalistas negros sucumbiram à “crise da vitória” que Randolph previu que “enfraqueceria toda a estrutura organizacional do movimento dos direitos civis” no final dos anos 1960. O Instituto A. Philip Randolph continuou a registrar eleitores e se defender em nome dos trabalhadores negros dentro da AFL-CIO e do Partido Democrata. O NALC operou até 1972, quando Cleveland Robinson, Charles Hayes e outros o fundiram na Coalizão de Sindicalistas Negros, que uma geração mais jovem de ativistas criou por frustração com o conservadorismo persistente da AFL-CIO. No ano seguinte, Addie Wyatt e outras mulheres negras ajudaram a criar a Coalizão de Mulheres Sindicalistas (CLUW), para aumentar a cooperação entre feministas, direitos civis e movimentos trabalhistas. Todas essas três organizações podem traçar suas raízes no movimento da Marcha sobre Washington da década de 1940, mas nenhuma delas estendeu esse legado com tanto sucesso quanto o NALC teve nas décadas de 1950 e 1960.[4.38]
Conclusão
O fracasso dos esforços para vincular as lutas por justiça racial e econômica no final dos anos 1960 levou alguns a atribuir o sucesso das lutas anteriores a uma agenda mais estreita e menos controversa. Ironicamente, essa crítica foi iniciada por Bayard Rustin e outros ativistas que enfatizaram as limitações de suas conquistas durante o que ele chamou de fase clássica do movimento, visando convencer os apoiadores da necessidade de continuar pressionando por uma reforma radical após 1965. Buscando expandir o financiamento federal para criação de empregos, moradia e educação, Rustin implorou aos leitores da revista liberal Commentary que “reconhecessem que, ao dessegregar acomodações públicas, afetamos instituições relativamente periféricas tanto para a ordem socioeconômica americana quanto para condições fundamentais de vida do povo negro”. Tais declarações foram ecoadas por Stokely Carmichael e outros críticos de esquerda, que acusaram que “o que chamamos de movimento não questionou de fato os valores e instituições da classe média deste país”, bem como por conservadores que elogiaram os líderes da Marcha sobre Washington por se concentrarem estreitamente nas questões de igualdade racial enquanto silenciaram John Lewis e outros que pediram “mudanças sociais, políticas e econômicas radicais”. Embora discordassem dos méritos dessa agenda restrita, a maioria dos comentaristas concordou que o movimento se dividiu à medida que seus objetivos se expandiam, como Juan Williams escreveu em 1987: “desde os imperativos morais que haviam conquistado apoio dos moderados do país - questões como o direito de voto e o direito a uma educação decente - até questões cuja correção moral não era tão evidente: discriminação de emprego e moradia, a guerra de Johnson contra a pobreza e as ações afirmativas”.[4.39]
Estudos recentes questionaram a narrativa de declínio de Williams, demonstrando que o emprego e outras exigências econômicas eram partes integrantes da agenda por direitos civis desde a década de 1930, mas a fase clássica de Rustin persiste como um período excepcional em que, como Mary Dudziak escreve: “os limites estreitos da política de direitos civis da era da Guerra Fria mantiveram as discussões sobre mudanças sociais abrangentes ou sobre a conexão entre raça e classe fora da agenda”. Estudiosos que examinam a Marcha sobre Washington e outros eventos icônicos daquela época agora enfatizam os “compromissos significativos no estilo e nas demandas políticas da marcha”, os quais Lucy Barber afirma terem sido críticos para seu sucesso. A evidência de uma agenda mais ampla aparece apenas à margem da mobilização, à medida que os estudiosos voltam sua atenção de “líderes na plataforma bem acima da multidão” para fotografias, relatos de jornais e outras fontes que “capturam a motivação que levou indivíduos relativamente obscuros à marcha”. Malcolm X substituiu Martin Luther King Jr. como a figura definidora da Marcha sobre Washington, estando à beira da multidão como o precursor de uma revolta negra que, de acordo com Thomas Sugrue, “questionou as próprias instituições que definiram a luta pela liberdade negra desde a Segunda Guerra Mundial”.[4.40]
Tais relatos enriquecem nossa compreensão das preocupações que motivaram tantas pessoas a participarem da Marcha sobre Washington, mas exageram as distinções políticas e ideológicas entre os manifestantes e seus líderes. A Marcha sobre Washington teve sucesso precisamente porque foi liderada por radicais que entendiam e compartilhavam as preocupações dos afro-americanos da classe trabalhadora que a fizeram uma demonstração tão grande e eficaz. Tendo desafiado os liberais da Guerra Fria pela liderança de sindicatos locais e organizações de direitos civis na década de 1950, os sindicalistas negros garantiram que as demandas por emprego e reforma econômica permanecessem no centro da agenda dos direitos civis. Negando-se a retornar a um liberalismo do New Deal que fez vista grossa à segregação e à privação de direitos no Sul, eles também entraram em contato com militantes que exigiam o fim imediato do Jim Crow. Unindo as tradições radicais negras do Norte e do Sul, a Marcha sobre Washington vinculou suas agendas sob o poderoso slogan “por empregos e liberdade”. Seus organizadores não alcançaram todos os objetivos dessa agenda, mas associaram as lutas pela justiça racial e econômica de forma mais eficaz do que qualquer outra mobilização na era do pós-guerra.
[4.1] Publicação Original: Jones, William P. “The Unknown Origins of the March on Washington: Civil Rights Politics and the Black Working Class,” Labor: Studies in the Working-Class History of the Americas, v.7, n.3, 2010, p. 33-52. Tradução: Sean Purdy, Mirella Alves dos Reis Soares, Rafael Rodrigues da Silva e Victor Augusto Lino Marin. Do original: A pesquisa para este artigo foi financiada por uma Bolsa de Estudos Newhouse/National Endowment for the Humanities no Centro Schomburg para Pesquisa em Cultura Negra da Biblioteca Pública de Nova York e na Escola de Pós-Graduação da Universidade de Wisconsin, Madison. O autor agradece a assistência da equipe do Centro Schomburg, da Biblioteca Tamiment e dos Arquivos Trabalhistas Robert F. Wagner, e da Biblioteca do Congresso, bem como os comentários e críticas de Eric Arnesen; Daniel Bender; Eileen Boris; Dorothy Sue Cobble; Christina Ewig; Leon Fink; Jacquelyn Hall; Steve Kantrowitz; Nancy MacLean; Florencia Mallon; Paul Ortiz; Adolph Reed; Touré Reed; Renee Romano; James Wolfinger; participantes do Seminário de Acadêmicos Residentes do Centro Schomburg, do Seminário de História do Trabalho da Biblioteca Newberry, da Conferência sobre o Longo Movimento dos Direitos Civis na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill e do Seminário de Pós-Graduação em Estudos do Trabalho para o Século XXI na Universidade de Wisconsin, Madison; e leitores anônimos do periódico Labor and the Journal of American History.
[4.2] [Nota dos Tradutores: o termo “liberal” é utilizado no texto com o sentido norte-americano, designando não um “liberal clássico” ou “neoliberal”, que defende uma menor intervenção do Estado na economia e se situaria na centro-direita; mas sim um “progressista”, em oposição ideológica a um “conservador”.]
[4.3] Rustin, Bayard. “From Protest to Politics: The Future of the Civil Rights Movement,”. In: Rustin, Bayard. Down the Line: The Collective Writings of Bayard Rustin. Chicago: Quadrangle Books, 1971, p. 112; Dowd-Hall, Jacquelyn. “The Long Civil Rights Movement and the Political Uses of the Past,” Journal of American History v. 91, 2005, p. 1250. Veja também Dudziak, Mary. Cold War Civil Rights: Race and the Image of American Democracy. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2000; Korstad, Robert R. Civil Rights Unionism: Tobacco Workers and the Struggle for Democracy in the Mid-Twentieth-Century South. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2003; Goluboff, Risa L. The Lost Promise of Civil Rights. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2007; Berg, Manfred. “Black Civil Rights and Liberal Anticommunism: The NAACP in the Early Cold War,” Journal of American History, v.94, 2007, p. 96; Fairclough, Adam. Better Day Coming: Blacks and Equality, 1890 –2000. New York: Penguin Press, 2001, p. 214-216; Arneson, Eric. “No ‘Graver Danger’: Black Anticommunism, the Communist Party, and the Race Question,” Labor: Studies in Working-Class History of the Americas, v.3, n. 3, 2006, p. 51; Sugrue, Thomas J. Sweet Land of Liberty: The Forgotten Struggle for Civil Rights in the North. New York: Random House, 2008, p. 289; Maclean, Nancy. Freedom Is Not Enough: The Opening of the American Workplace. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2006, p. 38; Minchin, Timothy J. Color of Work: The Struggle for Civil Rights in the Southern Paper Industry, 1945 –1980. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2001. John D’Emilio desconsidera a NALC como uma “organização paralela” e atribui a Rustin e Randolph o mérito de terem construído a Marcha sobre Washington “do nada”. Lost Prophet: The Life and Times of Bayard Rustin. New York: Free Press, 2003, p. 331, 340. Thomas Gentile escreve que dos “seis líderes dos direitos civis que organizaram a Marcha (...) todos, exceto Randolph, chefiavam importantes organizações de direitos civis em 1963,”. March on Washington: August 28, 1963. Washington, DC: New Day, 1983, p. 3. Veja também Honey, Michael. Going Down Jericho Road: The Memphis Strike. New York: Norton, 2007; Hamilton, Dona Cooper e Hamilton, Charles V. The Dual Agenda: Race and Social Welfare Policies of Civil Rights Organizations. New York: Columbia University Press, 1997; Jackson, Thomas F. From Civil Rights to Human Rights: Martin Luther King, Jr., and the Struggle for Economic Justice. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2007.
[4.4] “March on Washington for Jobs and Freedom,” newsletter 2, March on Washington folder, box 39, B. F. McLauren Papers, Schomburg Center for Research in Black Culture and History, New York Public Library, New York (Daqui em diante, McLauren Papers).
[4.5] Pesquisas citadas em Jackson, From Civil Rights to Human Rights, p. 172.
[4.6] Lichtenstein, Nelson. State of the Union: A Century of American Labor. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2003, p. 141-211; Gerstle, Gary. American Crucible: Race and Nation in the Twentieth Century. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2002, p. 270, 279-86. Para um argumento mais recente sobre a incompatibilidade entre igualdade racial e justiça econômica, veja Michaels, Walter Benn. The Trouble with Diversity: How We Learned to Love Identity and Ignore Inequality. New York: Metropolitan Books, 2006; Kempron, Murray. “The March on Washington,” New Republic, September 14, 1963, p. 19.
[4.7] Garfinkel, Herbert. When Negroes March: The March on Washington Movement in the Organizational Politics for the FEPC. New York: Atheneum, 1973; Pfeffer, Paula. A. Philip Randolph, Pioneer of the Civil Rights Movement. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1990, p. 45-132; Richards, Yevette. Maida Springer: Pan-Africanist and International Labor Leader. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2000, p. 57-76; Chateauvert, Melinda. Marching Together: Women in the Brotherhood of Sleeping Car Porters. Urbana: University of Illinois Press, 1998, p. 163-87; Hedgeman, Anna Arnold. The Trumpet Sounds: A Memoir of Negro Leadership. New York: Holt, Rinehart, and Winston, 1964; D’Emilio, Lost Prophet, p. 39-71; Horowitz, Roger. “Negro and White, Unite and Fight”: A Social History of Industrial Unionism in Meatpacking, 1930 –1990. Urbana: University of Illinois Press, 1997, p. 235; Lichtenstein, Nelson. The Most Dangerous Man in Detroit: Walter Reuther and the Fate of American Labor. New York: Basic Books, 1995, p. 375-377; Bissell, Robert. “‘A Trade Union Oriented War on the Slums’: Harold Gibbens, Ernest Calloway, and the St. Louis Teamsters in the 1960s,” Labor History, v. 44, 2003, p. 49-76; Freeman, Joshua B. Working-Class New York: Life and Labor since World War II. New York: New Press, 2000, p. 72-95.
[4.8] Boris Shishkin a A. Philip Randolph, August 12, 1946, e Sidney Wilkinson a Allan Knight Chalmers, May 19, 1947, e outra correspondência na folder 5, box 258, group II: A, NAACP Papers, Library of Congress, Washington, DC; Pfeffer, A. Philip Randolph, p. 89-132; Chateayvert, Marching Together, p. 188-197; Richards, Maida Springer, p. 77-99; Murray, Pauli. Song in a Weary Throat: An American Pilgrimage. New York: Harper and Row, 1987. Sobre mulheres negras, veja Hedgeman, Anna Arnold. “The Role of the Negro Woman,” Journal of Educational Sociology, v.17, 1944, p. 463-472; Cobble, Dorothy. The Other Women’s Movement: Workplace Justice and Social Rights in Modern America. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2004.
[4.9] Arneson, “No ‘Graver Danger’”; Richards, Maida Springer, p. 36-56; Murray, Song in a Weary Throat, p. 103; Pfeffer, A. Philip Randolph, p. 142-66; D’Emilio, Lost Prophet, p. 34; Lichtenstein, Most Dangerous Man in Detroit, p. 375-77; Freeman, Working-Class New York, p. 91.
[4.10] [Nota dos tradutores: os lovestonitas eram uma facção que rachou com o Partido Comunista dos EUA (CPUSA), fundada pelo já citado Jay Lovestone, que se opunha às ligações do CPUSA com o regime stalinista, sobretudo depois do expurgo de Nikolai Bukharin na União Soviética.]
[4.11] Ransby, Barbara. Ella Baker and the Black Freedom Movement: A Radical Democratic Vision. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2003, p. 148-159; Horowitz, Negro and White, p. 235; “NAACP Assails Rep. Dawson: Criticizes Stand of Civil Rights,” Chicago Tribune, August 31, 1956; Brooks, Thomas R. “Black Upsurge in the Unions,” Dissent, March-April, 1970, p. 129; “Civil Rights Leader to Be Dawson’s Foe,” Chicago Tribune, January 24, 1964; Richards, Maida Springer, p. 90; Bissell, “‘A Trade Union Oriented War on the Slums’”; Kimbrough, Mary e Dagen, Margaret W. Victory without Violence: The First Ten Years of the St. Louis Committee of Racial Equality (CORE), 1947 –1957. Columbia: University of Missouri Press, 2000; Lichtenstein, Most Dangerous Man in Detroit, p. 375-77; Lee, Sophia Z. “Hotspots in a Cold War: The NAACP’s Postwar Workplace Constitutionalism, 1948 –1964,” Law and History Review, v. 26, n. 2, 2008, p. 327-77; Maclean, Nancy. “Achieving the Promise of the Civil Rights Act: Herbert Hill and the NAACP’s Fight for Jobs and Justice,” Labor: Studies in Working Class History of the Americas, v. 3, n. 2, 2006, p. 13-19.
[4.12] Joe Wilson, “Interview with Charles Hayes, United Food and Commercial Workers Union,” New Yorkers at Work Oral History Collection, Tamiment/Wagner Library, New York University; D’EMILIO, Lost Prophet, p. 224-227; Ransby, Ella Baker, p. 162-169. Para imagens dessa e outras manifestações organizadas pelo sindicato de Robinson, veja UAW District 65 Photo Collection, Tamiment/Wagner Library.
[4.13] New York Labor and Industry Committee, “Meeting Minutes,” May 26, 1959, folder 2, box 4, James Haughton Papers, Schomburg Center, New York Public Library, New York; “Constitution,” May, 1960, e outros documentos em folder 1, box, 1, Negro American Labor Council Papers, Richard Parrish Papers Additions, Schomburg Center; Roy Ottley, “Defends NAACP’s War on Union Bias,” Chicago Daily Tribune, June 25, 1960, p. 10; Horace Sheffield, “Militant Black Labor Movement Was Born Here in 1960,” Michigan Chronicle, July 17, 1976, p. 3.
[4.14] “Constitution,” A. Philip Randolph, “Keynote Address to the Founding Convention of the NALC,” May 28, 1960, folder 13, box 2, Haughton Papers.
[4.15] Ray Marshall estimou que o número de membros caiu de 10 mil para 4.5 mil em 1963. Marshall, Ray. The Negro and Organized Labor. New York: Wiley, 1965, p. 53-85. O vice-president do NALC, Calvin Sherrod, alegou que tinha 15 mil membros em 1964: “NALC Votes Work Stoppage,” Milwaukee Star, June 6, 1964, p. 1; Brotherhood of Sleeping Car Porters, “Mass Job Rights Rally Planned,” August 30, 1961, and Emergency Committee for Unity on Social and Economic Problems, “Mass Rally for Unity,” September 6, 1961, folder 5, box 2, Haughton Papers; “Hospital Strike Backed,” New York Times, July 14, 1962, p. 13; Hedgeman, The Trumpet Sounds, p. 168; “Sense and Common Sense—Unity,” NALC newsletter, August 1961, folder 1, box 3, Haughton Papers.
[4.16] “Negroes Gird for Support of Randolph,” Chicago Daily Tribune, November 13, 1961, p. 10; James Haughton, “Minutes of Emergency Meeting of the National Executive Board, NALC,” n.d., folder 1, box 2, Haughton Papers.
[4.17] [Nota dos tradutores: Jim Crow foi um personagem fictício, uma representação racista dos afro-americanos e de sua cultura. O nome do personagem se transformou em sinônimo de segregação. As famosas Leis de Jim Crow (em inglês, Jim Crow Laws) foram leis estaduais e municipais que impunham a segregação racial no sul dos Estados Unidos].
[4.18] Hedgeman, The Trumpet Sounds, p. 168-69; Barber, Lucy G. Marching on Washington: The Forging of an American Political Tradition. Berkeley: University of California Press, 2002, p. 159.
[4.19] New York NALC newsletter, February-March, 1962, folder 8, box 3, Haughton Papers; Pfeffer, A. Philip Randolph, p. 221-223.
[4.20] “Chicago Correspondence, 1962 –1969,” Sc Micro R 2986, microfilm edition, reel 5, Richard Parrish Papers (Additions), 1959 –1976, Schomburg Center for Research in Black Culture, New York Public Library, New York.
[4.21] “March on Washington,” newsletter 2, McLauren Papers; Harvey Swados, “Revolution on the March,” The Nation, September 7, 1963, p. 104-107; “Midnight Benefit Show,” poster, August 23, 1963, RLG Photo Collection, Tamiment/Wagner Library; Hedgeman, The Trumpet Sounds, p. 173-175; Hedgeman, Anna Arnold. The Gift of Chaos: Decades of American Discontent. New York: Oxford University Press, 1977; Ransby, Ella Baker, p. 161-165; D’Emilio, Lost Prophet, p. 326-357; Barber, Marching on Washington, p. 145-156.
[4.22] Randolph citado em Lichtenstein, Most Dangerous Man in Detroit, p. 382; Garrow, David J. Bearing the Cross: Martin Luther King, Jr., and the Southern Christian Leadership Conference. New York: William Morrow, 1986, p. 270-280.
[4.23] Pfeffer, A. Philip Randolph, p. 244; D’Emilio, Lost Prophet, p. 342; Lichtenstein, Most Dangerous Man in Detroit, p. 371-387; Ritch, James. “City Lends Time to Race Marchers,” Chicago Tribune, August 10, 1963; Handler, M. S. “40,000 from New York Area to Take Part in Capital March,” New York Times, August 25, 1963, p. 81; “March on Washington,” newsletter 2, McLauren Papers.
[4.24] D’Emilio, Lost Prophet, p. 339; Pfeffer, A. Philip Randolph, p. 257; Swados, “Revolution on the March,” 107.p.
[4.25] Hedgeman, The Trumpet Sounds, p. 173-180.
[4.26] Lewis, John com D’Orso, Michael. Walking with the Wind: A Memoir of the Movement. New York:
Harvest Books, 1998, p. 222-226. Entre os que citam esse incidência como evidência de moderação são Pfeffer, A. Philip Randolph, p. 257; Sugrue, Sweet Land of Liberty, p. 306; Higgenbotham “Forward,”. In: Theoharis, Jeanne F. e Woodard, Komozi. Freedom North: Black Freedom Struggles outside the South, 1940–1980. New York: Palgrave Macmillan, 2003, p. viii.
[4.27] Baker, Russell. “Capital Is Occupied by a Gentile Army,” New York Times, August 29, 1963, p. 7-8;
D’Emilio, Lost Prophet, p. 355; “Negro Policemen to Guide March,” New York Times, August 25, 1963, p. 81; William H. Johnson to delegates from Guardian Association, Signs for Bus folder, box 39, McLaurin Papers; “Biggest Protest March in History!,” Ebony, November 1963, p. 40; “March on Washington,” newsletter 2, McLauren Papers.
[4.28] Hedgeman, The Trumpet Sounds, p. 186; “Excerpts from Addresses at Lincoln Memorial,” New York Times, August 29, 1963.
[4.29] “Excerpts from Addresses at Lincoln Memorial”; Kempton, “The March on Washington,” p. 20.
[4.30] “Excerpts from Addresses at Lincoln Memorial”; Jackson, From Civil Rights to Human Rights, p. 181; Hansen, Drew D. The Dream: Martin Luther King Jr. and the Speech That Inspired a Nation. Nova Iorque: Harper Collins, 2003, p. 112-113; Kenworthy, E. W. “200,000 March for Civil Rights in Orderly Washington Rally; President Sees Gain for Negro,” New York Times, August 29, 1963.
[4.31] Michael Thelwell citado em Jackson, From Civil Rights to Human Rights, p. 181; Kempton, “The March on Washington,” p. 19. Drew Hansen anota que o discurso de King não se transformou no “centro do debate público sobre direitos civis” até depois seu assassinato em 1968. The Dream, p. 167; “TV and Radio Slate Rights March Shows,” New York Times, August 28, 1963, p. 21; Adams, Val. “TV: Coverage of the March,” New York Times, August 29, 1963, p. 43; “In Color: Spectacle of the March,” Life, September 6, 1963; “The March—Gains and Losses,” U.S. News and World Report, September 9, 1963.
[4.32] “Most Whites in North, West Say They Oppose Rights Demonstration,” Wall Street Journal, August 28, 1963; WEAVER Jr., Warren. “Congress Cordial but Not Swayed,” New York Times, August 29, 1963, p. 1; FONER, Philip S. Organized Labor and the Black Worker. New York, 1974, p. 349-350; Graham, Hugh Davis. The Civil Rights Era: Origins and Development of National Policy, 1960–1972. New York: Oxford University Press, 1990, p. 83-87; Boyle, Kevin. The UAW and the Heyday of American Liberalism, 1945–1968. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1995, p. 161-.84
[4.33] X, Malcolm, “Message to the Grassroots,”, In: Breitman, George (org.) Malcolm X Speaks: Selected Speeches and Statements. New York: Grove Press, 1990, p. 4-17; D’Emilio, Lost Prophet, p. 383-92; Pfeffer, A. Philip Randolph, p. 261; Lewis, Walking with the Wind, p. 291; “Malcolm X Article Favors Goldwater,” New York Times, September 8, 1964, p. 19.
[4.34] A. Philip Randolph, “Opening Remarks at Conference of Negro Leaders,” folder 3, box 3, George Wiley Papers, Wisconsin State Historical Society, Madison.
[4.35] George Wiley, “Notes on Conference of Negro Leaders,” e Whitney Young, “Help Wanted: New Jobs for Negroes,” folder 3, box 3, George Wiley Papers; Conference of Negro Leaders, “Statement to the Press,” January 31, 1965, box 5, Merritt and Anna Arnold Hedgeman Collection, Schomburg Center for Research in Black Culture and History, New York Public Library, New York.
[4.36] D’Emilio, Lost Prophet, p. 414-439; Cleveland Robinson, “The Meaning of the Watts Riot,” The 65er, August, 1965, folder 3, box 17, Cleveland Robinson Papers, Tamiment/Wagner Library; A Freedom Budget for All Americans: Budgeting Our Resources, 1966–1976, to Achieve “Freedom from Want”. New York: A. Philip Randolph Institute, 1966; COBBLE, Other Women’s Movement, p. 185-201.
[4.37] Maclean, Freedom Is Not Enough, p. 76-113; Cleveland Robinson to Martin Luther King, July 14, 1967, folder 3, box 17, Cleveland Robinson Papers; Chicago NALC, “The Other Chicago: The City’s Employed Poor,” 1966, Wisconsin State Historical Society Pamphlet Collection, Madison; Honey, Going Down Jericho Road; Stein, Judith. Running Steel, Running America: Race, Economic Policy, and the Decline of Liberalism. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1998; Carmichael, Stokely e Hamilton, Charles. Black Power: The Politics of Liberation in America. New York: Vintage Books, 1967, p. 41. Sobre as limitações de Black Power, veja Reed Jr., Adolph. “Sources of Demobilization in the New Black Political Regime”. In: Stirrings in the Jug: Black Politics in the Post-segregation Era. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999, p. 117-159.
[4.38] “A Basic Answer to Watergate,” Freedomways, v.2, 1973, p. 101-106; COBBLE, Other Women’s Movement, p. 201-206; NY Trade Union Women, “NY Trade Union Women Holding First Conference,” November 9, 1973, box 1, folder 1, Papers of Betsy Wade on the Coalition of Labor Union Women, Tamiment/Wagner Library; “Black Feminists Meet in NY,” Guardian, December 19, 1973; box 5, folder 13, AFSCME Program Development Department Files, series 1, women’s files, Archives of Labor and Urban Affairs, Walter P. Reuther Library, Detroit, MI.
[4.39] Rustin, “From Protest to Politics,”. In: Down the Line, p. 111; Carmichael e Hamilton, Black Power, p. 41; Thernstrom, Stephan e Thernstrom, Abigail. America in Black and White: One Nation, Indivisible. New York: Simon & Schuster, 1997, p. 145; Williams, Juan. Eyes on the Prize: America’s Civil Rights Years, 1954–1965. New York: Penguin Books, 1987, p. 287.
[4.40] Dudziak, Cold War Civil Rights, p. 13; Barber, Marching on Washington, p. 143; Sugrue, Sweet Land of Liberty, p. 306; Higgenbotham, “Forward,” p. vii-ix. Veja também Mills, Nicholas. “What Really Happened at the March on Washington?”. In: Birnbaum, Jonathan e Taylor, Clarence Taylor (orgs.) Civil Rights Since 1787: A Reader on the Black Struggle. New York: New York University Press, 2000, p. 493-500.
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