
A Conjuntura...
A Opção Sansão e a hipocrisia do Estadão
Lucas Rodrigues Marangão
Mestre do PROLAM/USP

Representação gráfica da polarização diplomática entre os EUA e o Irã. Fonte: BBC NEWS.
Em artigo de 13/03/2026, o Estadão publicou o artigo “Os Limites Éticos da "Opção Sansão" no Conflito Irã-Israel-EUA”, assinado por Dávio Zarzana Júnior, em que o autor condena aquilo que chamou de “Opção Sansão” por parte do Irã. Apesar da publicação ser relativamente “velha”, tendo em vista a velocidade dos acontecimentos quanto à agressão do apartheid sionista e do regime de Trump, acreditamos que vale a pena redigir uma resposta tendo em vista a hipocrisia do ataque.
Como se sabe, durante o conflito iniciado em 28/02/2026, o Estado iraniano optou por uma estratégia de disseminar a guerra aos territórios que abrigassem alvos militares utilizados na agressão à sua estrutura civil e militar. Esta estratégia o levou a neutralizar a operacionalidade das bases militares estadunidenses em vários países que o circundam e que estavam sendo mobilizadas para agredir o Irã, além de atacar alvos como aeroportos e refinarias. Moralmente certa ou errada, juridicamente válida ou não (nos permitimos questionar o porquê do artigo não criticar as violações do Direito Internacional muito piores cometidos pelos agressores do Irã), é relevante perceber que esta atuação mostrou-se acertada estrategicamente ao tornar inoperantes quase 15 bases militares dos EUA, disseminar uma cisão entre os regimes árabes e os Estados Unidos e criar tração para deslegitimar uma série de monarquias árabes corruptas frente à própria população – imagine-se o quão satisfeito o árabe médio fica ao ver sua segurança posta em risco pela conduta irresponsável de seus governantes ao cerrar fileiras com Israel e os EUA. Mas este não é o cerne deste texto.
Ao descrever a estratégia iraniana, Zarzana utiliza repetidas vezes a expressão “Opção Sansão” – nome que o autor tenta atribuir apenas à história bíblica em que, rendido por filisteus, o herói hebreu Sansão opta por destruir um templo com seus inimigos dentro, sacrificando-se no processo. Contudo, a origem da expressão para se referir a uma “opção” estratégica em que o derrotado arrasta consigo os seus inimigos à morte (isto é, com danos sensíveis ou irreversíveis) não é tão remota.
Em 1991, o jornalista americano Seymour Hersh (de ascendência judaica, cabe pontuar) publicou a obra A Opção Sansão, no qual descreveu a história do programa nuclear israelense. Hersh, ganhador do prêmio Pulitzer, foi responsável por trazer à tona vários episódios envolvendo esta questão, alguns extremamente problemáticos. Um deles foi a condução de testes nucleares em conjunto com o regime de apartheid da África do Sul no que ficou conhecido como Incidente Vela de 1979 (em contravenção ao Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares de 1963, do qual Israel é signatário). Outro, o sequestro do técnico nuclear Mordechai Vanunu pelo Mossad em Roma em 1986, após este revelar detalhes sobre o programa nuclear israelense à imprensa britânica – o sequestro[1], em flagrante violação ao Direito Internacional, resultou na condenação do técnico e em recorrentes violações aos direitos humanos de Vanunu de forma recorrente desde então, inclusive de acordo com a Anistia Internacional.
O título do livro, contudo, refere-se à diretiva estratégica israelense em face de um conflito que ameaçasse a existência do Estado sionista. Segundo esta diretiva, no caso da possibilidade de eliminação do Estado de Israel se tornar uma realidade concreta e imediata, as ogivas nucleares sionistas deveriam ser disparadas para causar um dano indiscriminado a toda a região, tanto a aliados quanto a inimigos e mesmo a terceiros neutros. Nesse sentido, conforme o livro revela, o desenvolvimento de armamentos nucleares por Israel não se voltaria somente a garantir uma estratégia de dissuasão contra seus adversários, mas também uma última chantagem contra os agentes que efetivamente apoiam este Estado, ameaçados pela possibilidade de uma destruição mútua assegurada[2]. A doutrina da Opção Sansão de Israel, não custa recordar Zarzana, rompe em uma escala muito mais severa com os princípios do Direito Internacional que o autor do Estadão utiliza para condenar o Irã.
Alguns defensores do regime sionista ainda poderiam tentar argumentar que o programa nuclear israelense em si não viola o Direito Internacional, já que o país não é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). A situação, contudo, é vergonhosa para Israel: os seus parceiros nesta situação são a Índia, o Paquistão (ambos travados em uma política de disputa militar latente), Coréia do Norte (a qual, em que pese o isolamento, já chegou a aderir ao Tratado), além do Sudão do Sul (um novo Estado). Mesmo o Irã, hoje bombardeado sob a justificativa de representar uma ameaça internacional, é membro do Tratado.
A hipocrisia do artigo do Estadão, assim, reside em atribuir ao Estado iraniano exatamente a conduta que Israel preconiza em suas próprias diretivas estratégicas – em uma escala muito pior, já que nuclear. De fato, um dos motivos pelos quais este artigo de crítica está sendo publicado tão posteriormente (tendo em vista a velocidade do ritmo da guerra) é porque o título do artigo sugeriu a este autor que uma eventual escalada da guerra levaria ao ativamento da Opção Sansão por parte do Irã. Infelizmente, não se tratava disso.
Não deixa de existir uma ironia no fato de que o artigo de Zarzana finalize o artigo desejando que o “nevoeiro de guerra” (isto é, o bloqueio de informações fidedignas que ocorre durante conflitos em razão de sua própria natureza bélica) diminua como forma de garantir uma “coexistência pacífica”. Ao fim e ao cabo, o artigo de Zarzana não deixa de ser uma peça no emaranhado que distorce a realidade factual ao acusar o Irã de praticar aquilo que Israel tem como sua política oficial – distorção que favorece, como quase sempre, o lado mais forte da contenda, caminhando para uma paz de cemitério.
[1] A essa altura, achamos interessante destacar que um dos indicados por Hersch como envolvido no sequestro de Vanunu é Robert Maxwell, pai de Ghislaine Maxwell, parceira de Jeffrey Epstein na sua rede de abusos (HERSCH, 1991).
[2] Antecipando argumentos quanto a uma suposta parcialidade de Hersch, pontuamos que mesmo plataformas insuspeitas, como a direitista Defesanet, já publicaram sobre a Opção Sansão, o que indica que a questão não é totalmente desconhecida no debate brasileiro.
- Resumo
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O presente artigo é uma resposta ao artigo Os Limites Éticos da "Opção Sansão" no Conflito Irã-Israel-EUA, escrito por Dávio Zarzana Júnior e tem como objetivo demonstrar que o artigo publicado pelo Estadão é hipócrita na medida em que atribui ao Estado iraniano exatamente a conduta que Israel preconiza em suas próprias diretivas estratégicas. Isso se dá, pois, ao descrever a estratégia iraniana de disseminar a guerra aos territórios que abrigassem alvos militares utilizados na agressão à sua estrutura civil e militar, Zarzana utiliza a expressão “Opção Sansão”, nome que Zarzana tenta atribuir apenas à história bíblica em que o herói hebreu Sansão opta por destruir um templo com seus inimigos dentro, sacrificando-se no processo. Contudo, a expressão para se referir a uma “opção” estratégica em que o derrotado arrasta consigo os seus inimigos à morte também aparece no livro A Opção Sansão publicado em 1991 e escrito pelo jornalista estadunidense Seymour Hersh. O título do livro refere-se à diretiva estratégica israelense em face de um conflito que ameaçasse a existência do Estado sionista. Segundo esta diretiva, no caso da possibilidade de eliminação do Estado de Israel se tornar uma realidade concreta e imediata, as ogivas nucleares sionistas deveriam ser disparadas para causar um dano indiscriminado a toda a região, tanto a aliados quanto a inimigos e mesmo a terceiros neutros.
Palavras-chave: Estadão; Conflitos Israel-Palestina; Irã.
- Abstract
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This article is a response to the piece The Ethical Limits of the “Samson Option” in the Iran–Israel–U.S. Conflict, written by Dávio Zarzana Júnior, and aims to demonstrate that the article published by Estadão is hypocritical insofar as it attributes to the Iranian state precisely the conduct that Israel itself prescribes in its own strategic directives. This occurs because, in describing the Iranian strategy of extending warfare to territories that host military targets involved in aggression against its civilian and military infrastructure, Zarzana employs the expression “Samson Option.” He attempts to attribute this term solely to the biblical account in which the Hebrew hero Samson chooses to destroy a temple with his enemies inside, sacrificing himself in the process. However, the expression used to refer to a strategic “option” in which the defeated party drags its enemies to death along with itself also appears in the book The Samson Option, published in 1991 and written by American journalist Seymour Hersh. The book’s title refers to an Israeli strategic directive in the face of a conflict that threatens the existence of the Zionist state. According to this directive, in the event that the elimination of the State of Israel becomes a concrete and immediate possibility, Zionist nuclear warheads should be launched to inflict indiscriminate damage across the entire region—affecting allies, enemies, and even neutral third parties.
Keywords: Estadão; Israel–Palestine Conflicts; Iran.
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