
A Conjuntura...
Lula e a luta contra o fascismo bolsonarista
Artur Ie
Historiador e mestrando em História Econômica – USP
Servidor técnico-administrativo - USP
Fonte: Ricardo Stuckert, Lula Oficial, Agência Brasil
Após a vitória do fascismo no primeiro turno das eleições de 2026, com a candidatura de Flávio Bolsonaro à frente por uma margem maior do que a esperada pela esquerda brasileira, e a ampliação de cadeiras das candidaturas fascistas no parlamento, o desespero foi o primeiro sentimento a aflorar na militância do campo popular[1].
Os rumos parecem ter sido corrigidos depois da campanha errática do primeiro turno. Antes tarde do que nunca. Ao defender a pauta do fim da escala 6x1, publicar a MP da proibição das Bets e anunciar a medida de perdão da dívida dos MEIs, Lula tensiona a velha luta de classes no Brasil. Com o retorno das manifestações de massa em um conjunto amplo de cidades do país, a sociedade civil parece reagir à ascensão do fascismo de forma mobilizada e intensa, enquanto o fascismo brasileiro diminui sua força nas ruas, apesar de tê-la aumentado nas urnas.
A mobilização de massas em torno da liderança de Lula é o caminho para que a classe trabalhadora consiga aglutinar forças e arrancar conquistas sociais da classe dominante, além de unificar diversos grupos sociais em uma aliança ampla em torno da pauta democrática.
Em 11 de outubro de 2026, na cidade de São Paulo, ao longo do percurso que vai do MASP até a Praça Roosevelt, Lula conseguiu mobilizar em torno de si uma manifestação gigantesca, de proporções comparáveis somente com o Junho de 2013 e o “Ele não” de 2018. Mas há algumas diferenças fundamentais e que fazem a mobilização deste ano ter um potencial muito maior. Ao contrário dos exemplos anteriores, nos quais o apoio à liderança de Lula era evitado pela maioria dos manifestantes, dessa vez pudemos ver nas ruas diversos jovens com camisetas do PT, de Lula, fazendo o “L” com as mãos, e a maioria desses jovens eram do proletariado. Motoboys, trabalhadores dos comércios do entorno e trabalhadores do transporte público da cidade manifestavam com alegria seu apoio à manifestação. Desta vez, a esquerda organizada nos partidos e movimentos sociais finalmente parece ter conseguido mobilizar as massas e a força de sua espontaneidade. Adotar a cor vermelha e ter Lula como o mote principal da mobilização foram fundamentais para isso.
Também é válida outra comparação: nos atos de 2015 e 2016, que almejavam defender o mandato de Dilma Rousseff, o clima das ruas era muito diferente. Predominavam os carros de som com longas falas de sindicalistas e parlamentares, além dos imensos balões das centrais sindicais, com um público majoritariamente mais velho, composto de categorias com maior tradição de luta sindical, com ligação com um trabalho mais estável, com mais direitos e maior renda que a maioria da população. Desta vez, viu-se um público amplo de jovens que se mobilizaram espontaneamente, e que deixaram sua criatividade aflorar em cartazes, bandeiras, roupas etc. A inércia das direções partidárias e sindicais deu lugar à força da espontaneidade das massas, que, se antes se equivocavam nas suas palavras de ordem e nas formas de manifestação, desta vez parecem entender a centralidade de Lula para a política brasileira e a sua capacidade de unificação de amplos setores para que o fascismo seja isolado.
Isso tudo já parece surtir efeitos. Flávio Bolsonaro decidiu votar em favor do final da escala 6x1 no Senado, após perceber que não poderia manter sua posição antipopular na luta pela jornada de trabalho, pauta histórica da luta da classe trabalhadora pela apropriação do valor que ela mesma produz. O fascista também aceitou ir ao debate na Band, o que indica que sentiu a pressão das ruas e sabe que se não for para o tudo ou nada pode perder, afinal está na defensiva e encolhendo. A esquerda voltou a pautar o debate no país e a ser a principal força mobilizadora de massas.
Desde os anos 1980, Lula é peça central da política nacional, e, na tentativa de destruir sua figura – como os ataques sistemáticos na imprensa e a Operação Lava Jato –, a burguesia brasileira acabou colapsando o sistema político que ela própria criou. Com isso, o fascismo emergiu nas ruas, ganhou posições institucionais e ocupou o governo federal por quatro anos catastróficos, tendo sido barrado, para além da atuação da esquerda do país, devido ao recuo de setores articulados da burguesia brasileira que sabiam que poderiam ser engolidos pelos monstros da jaula que eles próprios abriram. Entretanto, há amplos setores da burguesia que apoiam abertamente o projeto fascista, além do apoio dos EUA em sabotar a democracia brasileira e fragilizar a soberania do país. O projeto fascista representa uma mudança da forma do Estado, para que a acumulação capitalista possa avançar em cima da exploração brutal da classe trabalhadora, e, para esses setores, a Constituição de 1988 precisa ruir[2]. Esses setores da burguesia desejam destruir as instituições que a sua própria classe social criou, de forma a recompor a taxa de lucro. Esse processo foi denominado por Poulantzas como processo de “fascistização”[3], e, no Brasil, esse conceito parece explicar o encadeamento de eventos que ocorre desde o crescimento do antipetismo até a ascensão do bolsonarismo. O erro da frente ampla articulada para isolar o bolsonarismo foi o de ter combatido o fascismo brasileiro de forma hesitante, tendo subestimado seu potencial destrutivo[4]. O bolsonarismo tornou-se parte da vida política nacional e foi tratado como uma oposição legítima pela imprensa, instituições e partidos políticos, mesmo após ter deixado pelo menos 700 mil mortes no período da pandemia[5]. Nomes como o do infame general Pazuello parecem ter sido esquecidos após 2022.
Lula venceu as eleições numa aliança ampla em 2022 e o símbolo maior disso foi a escolha de Geraldo Alckmin como candidato à vice-presidência na chapa petista, o que sinalizava à burguesia e ao eleitorado paulista que não se tratava mais de um governo de esquerda, mas de uma frente ampla[6]. Porém, a frente ampla segue em disputa e a luta popular pode arrancar dela conquistas sociais significativas, caso a esquerda entenda que precisa das ruas e não somente dos meios institucionais[7].
Ainda há esperança, devemos seguir firmes e conquistar os votos dos indecisos, sobretudo das mulheres, que pesquisas apontam como um setor social mais sensível à característica mais gritante do fascismo bolsonarista: a sua misoginia. Não devemos fazer concessões em nosso discurso. É necessário defender os governos petistas e a figura de Lula, além de fazermos justiça com o período Dilma Rousseff. Uma esquerda que cede ao discurso lavajatista e ao processo fraudulento do “mensalão” não combate o fascismo pela raiz. O alicerce do fascismo brasileiro na atualidade é o antipetismo[8]. Também não devemos fazer concessões ao bolsonarismo; este deve ser denunciado com firmeza como um movimento fascista e, como consequência, em suas características mais compreensíveis para as amplas massas, denunciado pelo seu machismo, racismo, elitismo, homofobia e subserviência aos Estados Unidos e Israel.
Venceremos!
[1] Sobre o campo popular, ver Singer, André. Impasse: o Brasil diante da onda reacionária. São Paulo: Companhia das Letras, 2026. p. 20-21.
[2] Barreto, Marcelo Menna. Declaração de Flávio Bolsonaro sobre mudanças na Constituição preocupa juristas. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), out. 2026. Republicado de Extra Classe. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/671954-declaracao-de-flavio-bols…. Acesso em: 14 out. 2026.
[3] Poulantzas, Nicos. O processo de fascistização. In: Idem. Fascismo e ditadura: a III Internacional face ao fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1978. p. 71-73.
[4] Ferreira, Fernando Sarti; Secco, Lincoln. “A normalização do fascismo”. A Terra é Redonda, Out. 2026. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/a-normalizacao-do-fascismo/. Acesso em: 14 out. 2026.
[5] Para consultar os dados oficiais do Ministério da Saúde, ver: https://infoms.saude.gov.br/extensions/covid-19_html/covid-19_html.html…. Acesso em: 16 out. 2026.
[6] Como argumentou José Dirceu, o governo Lula III (2023-2026) é um governo composto por uma aliança entre os setores da direita liberal e da esquerda. “Lula montou um governo de centro-direita, não de esquerda, diz Dirceu”. Carta Capital, São Paulo, abr. 2024. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/lula-montou-um-governo-de-cent…. Acesso em: 14 out. 2026.
[7] A respeito disso, André Singer argumenta: “Diante desta etapa regressiva, torna-se obrigatório construir a frente mais ampla possível para preservar e aprofundar o regime democrático. Dadas as contradições de classe envolvidas na coalizão resultante, todavia, o artefato frentista se paralisa, impedindo o salto de qualidade necessário para formar uma maioria sólida em torno do objetivo almejado”. Singer, op. cit., p. 19.
[8] Ao tratar do anticomunismo, Lincoln Secco afirma: “O anticomunismo é uma operação de propaganda que visa constituir um inimigo no espaço público através da caricatura de suas ideias e práticas. Não se trata de postura intelectual ou tradução política de uma teoria, mas de uma técnica de mobilização. Na história brasileira a polarização política foi em muitos momentos assimétrica. [...] Embora seu alvo seja hipostasiado, o objetivo é concreto: reagir a reformas, ainda que graduais, e se antecipar às radicais”. Secco, Lincoln. “O anticomunismo preventivo”. Maria Antonia: Boletim do GMARX-USP. ano 1, nº 55, São Paulo, nov. 2020. Disponível em: https://gmarx.fflch.usp.br/boletim55. Neste artigo, opta-se por utilizar antipetismo como categoria para analisar esse fenômeno na conjuntura brasileira atual, tendo em vista que o discurso violento contra a esquerda brasileira e o campo popular é mobilizado contra o Partido dos Trabalhadores.
- Resumo
-
Este trabalho analisa a conjuntura brasileira após a manifestação em apoio à candidatura de Lula e contra o fascismo bolsonarista, em 11 de outubro de 2026 na Av. Paulista.
Palavras-chave: fascismo, Lula, Partido dos Trabalhadores
- Abstract
-
This paper analyzes the political situation in Brazil following the demonstration in support of Lula’s candidacy and against Bolsonaro-style fascism, held on October 11, 2026, on Paulista Avenue.
Keywords: fascism, Lula, Workers’ Party
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