
A Conjuntura...
A guerra da Ucrânia: uma análise entre o passado e o presente
Guilherme Cardoso de Sá
Doutor em História Econômica - USP

Imagem ilustrativa que apresenta a ruptura diplomática e as tensões do conflito armado entre a Ucrânia e a Rússia.- Fonte: Fonte: King's College London (2022). Disponível em: https://www.kcl.ac.uk/sharing-our-expertise-and-insights-on-the-ukraine….
1 PRELÚDIO: A ORDEM MUNDIAL EM DISPUTA
A palavra de ordem da atualidade na geopolítica é 'multipolaridade' — ou, alternativamente, 'nova ordem mundial'. No primeiro caso, o interlocutor expõe a vertente interpretativa que concebe a transformação da bipolaridade marcante nas relações internacionais durante a Guerra Fria (1945–1991); no segundo, a conjuntura abre-se para diferentes possibilidades, com dissenso em relação aos postulantes ao papel de novas potências, potências em decomposição, e velhos e novos atores em um cenário dinâmico de transformações.
Um impasse recorrente nesse debate diz respeito à periodização: a Nova Ordem seria fruto da dissolução da URSS? Do atentado às Torres Gêmeas em 2001? Da crise econômica de 2008? Ou das 'primaveras árabes' e das 'revoluções coloridas'? Há quem defenda que, até fevereiro de 2022 — com a 'operação militar especial' russa na Ucrânia —, o cenário ainda era de hegemonia estadunidense, sobretudo no plano militar. A invasão teria rompido uma fissura no tecido das relações internacionais, colocando frente a frente potências nucleares e evidenciando a incapacidade das sanções econômicas e do aparato militar da OTAN em conter o Kremlin em uma guerra por procuração.
Adotamos o marco temporal de 1991 para definir o início da 'Nova Ordem Mundial'. Esse recorte implica um sentido político preciso: não existe vácuo no poder político, e tão logo o bloco socialista desmoronou, um novo ordenamento emergiu, com a prevalência evidente dos EUA e de seu braço militar, a OTAN. Esse período, contudo, não se confunde com o 'Fim da História' (FUKUYAMA, 1992), tampouco com uma fase de hegemonia uníssona estadunidense. A relação entre consenso e coerção possui sempre o potencial de constituir elementos de contra-hegemonia. Em outras palavras, a 'unipolaridade' constrói, por suas próprias contradições, as novas relações geopolíticas. A formulação de Wohlforth (2014), segundo a qual essa unipolaridade poderia engendrar uma paz duradoura, demonstrou-se frágil, ainda que o próprio autor reconhecesse a 'insatisfação' de outras nações com a hegemonia estadunidense como vetor potencial de atrito.
Os eventos após 1991 confirmam essa tensão entre a arrogância da 'única potência mundial' e os sedimentos históricos das demais civilizações. A prepotência 'ocidental' foi artífice da Nova Ordem no concerto das nações: a década de 1990 foi marcada pela tentativa constante de redesenhar a Europa, sobretudo nas regiões de influência da extinta URSS. A desestabilização provocada pela CEE e pelos EUA em relação às repúblicas que formavam a Iugoslávia demonstrava quais seriam os elementos do reconfigurado 'cerco aos russos'.
2 HEARTLAND E RIMLAND: FUNDAMENTOS DA GEOPOLÍTICA CLÁSSICA
Para compreender a dinâmica geopolítica que molda o conflito na Ucrânia, é imprescindível retomar dois dos conceitos mais influentes da teoria geopolítica clássica: o Heartland, de Halford Mackinder, e o Rimland, de Nicholas Spykman. Longe de serem relíquias históricas, essas formulações continuam a orientar — explícita ou implicitamente — as grandes estratégias das potências nucleares contemporâneas.
2.1 A Teoria do Heartland: Mackinder e o Coração da Terra
Sir Halford J. Mackinder (1861–1947), geógrafo e estadista britânico, formulou sua teoria em uma conferência histórica na Real Sociedade Geográfica de Londres, em 1904, publicada sob o título 'The Geographical Pivot of History'. Partindo da constatação de que as ferrovias transcontinentais e o motor a combustão haviam transformado radicalmente a mobilidade terrestre, Mackinder argumentou que o domínio dos mares — fundamento do poderio britânico — estava sendo progressivamente suplantado pelo poder terrestre.
Para Mackinder, o mundo poderia ser organizado em três zonas concêntricas: a 'Ilha Mundial' (a grande massa terrestre Eurásia-África), o 'Crescente Interior ou Marginal' (regiões costeiras que circundam a Eurásia, acessíveis tanto pelo mar quanto pela terra) e o 'Crescente Exterior' (as Américas, a Austrália e demais ilhas). No centro da Ilha Mundial encontrava-se a região que ele denominou, em 1919, de Heartland — o 'Coração da Terra'. Geograficamente, o Heartland abrangia a vasta região de drenagem interna da Eurásia, do Rio Volga ao leste da Sibéria e dos Himalaias ao Oceano Ártico: inacessível por mar, virtualmente inexpugnável por forças navais e dotado de imensas reservas de recursos naturais.
A lógica mackinderiana desembocou em seu célebre axioma estratégico, enunciado em 1919 e revisado em 1943:
Quem governa a Europa Oriental comanda o Heartland: quem governa o Heartland comanda a Ilha Mundial: quem governa a Ilha Mundial comanda o Mundo.
(MACKINDER, 1919 apud MELLO, 1999, p. 55)
Durante a Guerra Fria, a teoria mackinderiana encontrou aplicação direta na política de contenção soviética. A grande preocupação estratégica de Mackinder era uma eventual aliança militar entre a Rússia e a Alemanha: tal entente poderia alavancar uma potência industrial-militar com um vasto império de recursos, capaz de sobrepujar qualquer potência marítima. A OTAN, surgida em 1949, traduzia precisamente a resposta ocidental ao risco de consolidação do Heartland sob uma única hegemonia.
2.2 A Teoria do Rimland: Spykman e a Contenção pelo Bordo
Nicholas J. Spykman (1893–1943), geopolítico holandês radicado nos Estados Unidos e professor em Yale, desenvolveu sua teoria em resposta direta à formulação mackinderiana. Em 'America's Strategy in World Politics' (1942) e no póstumo 'The Geography of the Peace' (1944), Spykman deslocou o foco analítico do interior da Eurásia para suas bordas costeiras — o que denominou Rimland.
O Rimland corresponde aproximadamente ao Crescente Marginal Interior de Mackinder: a faixa que engloba a Europa Ocidental e Central, o Oriente Médio, o subcontinente indiano, o Sudeste Asiático e as costas do Leste Asiático. Trata-se de uma região 'em parte continental, em parte oceânica' (SPYKMAN, 1944, p. 41), acessível tanto pelo poder terrestre quanto pelo poder naval, e onde se concentram a maior parte da população mundial e dos recursos econômicos do planeta. Spykman inverteu o axioma mackinderiano, propondo sua própria fórmula:
Quem controla o Rimland governa a Eurásia; quem governa a Eurásia controla os destinos do mundo.
(SPYKMAN, 1944, p. 132 apud MELLO, 1999, p. 131)
Para Spykman, a estratégia dos EUA deveria ser radicalmente intervencionista: era imperativo impedir a consolidação de qualquer potência única sobre o Rimland eurasiático. Isso significava construir e manter uma rede de alianças — a OTAN no flanco ocidental, tratados com Japão, Coreia do Sul e Austrália no flanco oriental — funcionando como um cordão de contenção ao redor do Heartland. A doutrina de contenção de George Kennan, a criação da OTAN e as bases militares estadunidenses distribuídas ao longo da Eurásia foram, em substância, a operacionalização da geopolítica spykmaniana.

Fonte: https://brasilenergia.com.br/petroleoegas/o-rimland-e-o-perigo-verde
2.3 Heartland e Rimland na Era Pós-Soviética
A dissolução da URSS em 1991 criou uma conjuntura sem precedentes: o Heartland estava, pela primeira vez em séculos, fragmentado e vulnerável. As antigas repúblicas soviéticas, com suas etnias e aspirações de autodeterminação, configuravam uma oportunidade de expansão do poder estadunidense para dentro do coração da Eurásia. Simultaneamente, no Rimland, os EUA e a OTAN avançaram para incorporar antigos aliados da URSS na Europa Central e Oriental, enquanto as intervenções no Afeganistão, Iraque e Síria criavam 'enclaves' que aproximavam as forças da Aliança Atlântica das fronteiras do Heartland.
Do ponto de vista russo, essa dinâmica dupla — erosão do Heartland pelas novas repúblicas e avanço da OTAN no Rimland — era percebida como uma ameaça existencial. A expansão da Aliança em cinco ondas entre 1990 e 2020, incorporando praticamente toda a antiga 'cortina de ferro', traduzia, nos termos estratégicos russos, o cerco progressivo de sua profundidade estratégica. A Ucrânia, pelo seu tamanho, posição geográfica e importância industrial, emergia como o 'pivô estratégico' decisivo nessa disputa: sua incorporação plena à órbita ocidental equivaleria, na lógica mackinderiana e spykmaniana, ao controle do corredor de acesso entre o Rimland europeu e o núcleo do Heartland.
Expansão da OTAN
3 A DINÂMICA DO CERCO: OTAN E ESTRATÉGIA ESTADUNIDENSE
O principal formulador russo da nova geopolítica pós-soviética foi Evgeny Primakov (1929–2015), que vislumbrava uma rearticulação da conjuntura internacional com a Rússia desempenhando papel preponderante na construção de uma multipolaridade. Sua visão estratégica baseava-se em dois princípios: a aproximação da Rússia em parcerias geoestratégicas com China e Índia, e a preservação da capilaridade da Federação Russa no 'exterior próximo' — as ex-repúblicas soviéticas. Do ponto de vista geopolítico, tratava-se de garantir o espaço no Heartland, estabelecer governos aliados em posições estratégicas e restabelecer um 'pacto' econômico que garantisse estabilidade política na região. Do ponto de vista militar, a prioridade era a profundidade estratégica para manter o poder de dissuasão nuclear e a efetividade da 'destruição mútua assegurada' (MAD — Mutual Assured Destruction).1
Nesse contexto, as Guerras da Chechênia (1995–1999) e da Ossétia do Sul (2008) revelaram tanto as limitações táticas do exército russo quanto a disposição de Moscou de agir militarmente quando sua 'zona de influência' estivesse ameaçada. Na Geórgia, a 'Revolução Rosa' havia levado ao poder Mikheil Saakashvili, político formado nas elites ocidentais, que flertava com a entrada na OTAN. A intervenção russa em agosto de 2008 foi fulminante: em poucos dias, um acordo intermediado pelo então presidente francês Nicolas Sarkozy restabeleceu o status quo anterior, inviabilizando os planos georgianos de adesão à Aliança.
A estratégia estadunidense era explicitada no documento 'Full Spectrum Dominance' (Espectro de Domínio Total), publicado em 2000 na obra 'Joint Vision 2020'. Conforme o documento:
Atualmente, os Estados Unidos encontram-se numa situação em que a preeminência do seu poder militar mundialmente pode ser limitada pela emergência de 'ameaças híbridas' motivadas por questões de 'segurança não tradicional'. A nossa era instalou, dizem Romaniuk e Burgers, um 'novo ambiente de segurança' cheio de atores não estatais, o surgimento de novos Estados, tecnologia, a ascensão e declínio de poderes.
(VISION, 2000, p. 41 — tradução do autor)
O Irã surge nessa configuração como pivô estratégico para o sudoeste asiático, assim como a Ucrânia o é para a Europa. Redefinir o território iraniano possibilitaria reconfigurar as rotas terrestres do “Cinturão em Rota” e da “Nova Rota da Seda” e, simultaneamente, dar à hegemonia ocidental o controle do trânsito marítimo nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb. Embora grande parte dessa documentação estratégica ainda não seja pública, o que está disponível permite inferir a existência de uma política sistemática de desestabilização da Federação Russa por meio de 'guerras híbridas', com o objetivo de neutralizar sua capacidade nuclear e manter um governo dependente que inviabilizasse sua reconstrução como ator geopolítico relevante.
4 A REESTRUTURAÇÃO MILITAR RUSSA (2008–2022)
As ações militares russas na Chechênia e na Geórgia haviam demonstrado duramente como a organização tático-operacional das Forças Armadas estava degradada desde o fim da URSS. O hiato de comando entre os distritos militares, o Ministério da Defesa e o Estado-Maior era identificado como um ponto crítico. As mudanças de primeira geração ficaram a cargo do ministro Anatoly Serdyukov (2008–2012). Naquele momento, com todo o espectro ocidental voltado para operações especiais e luta contra insurgências, a tendência era a redução de efetivo, a profissionalização e a modernização de armamentos de alta precisão. Denominou-se esse processo de 'brigadização', estruturado em BTGs (Battalion Tactical Groups — Grupos Táticos de Batalhão com aproximadamente 800 homens),2 compostos por unidades enxutas e especializadas. A redução no número de oficiais chegou a aproximadamente 55% do efetivo total.
Concomitantemente à reforma militar, o Estado russo subsidiou a reconstrução do Complexo Industrial-Militar (CIM) por meio de programas de aquisição do Ministério da Defesa, com a participação central da ROSTEC,3 criando demanda e fomentando o P&D no setor. Para compreender como os russos operacionalizaram sua modernização, é importante salientar que a doutrina soviética era pautada por um sistema 'evolucionário' e incremental, não revolucionário: a dialética soviética na indústria militar consistia em agregar inovação às bases funcionais testadas de equipamentos já produzidos em escala.4
As modernizações empreendidas incluíram variantes dos tanques T-80BV, T-72B e BZ, T-62M e o T-90M Proryv, além de aeronaves como o MiG-29, MiG-31 e os helicópteros Su-30, Su-34, Su-35, o helicóptero Ka-52, os sistemas de mísseis terra-ar S-300, S-400 e S-500, além do sistema de defesa antimíssil Pantsir-S1, representaram avanços qualitativos significativos. Na linha de frente do desenvolvimento, destacam-se os tanques T-14 Armata e T-15, o caça Su-57 de quinta geração e, sobretudo, os mísseis hipersônicos Kinzhal e Tsirkon, que redefiniram os parâmetros das defesas antiaéreas modernas.
A tecnologia hipersônica constitui um capítulo à parte nesse processo de modernização. Os mísseis hipersônicos combinam a velocidade dos mísseis balísticos — que dificulta a interceptação — com a baixa altitude e a manobrabilidade dos mísseis de cruzeiro, tornando sua detecção e neutralização quase impossíveis com os sistemas antiaéreos existentes. O míssil de cruzeiro de alcance intercontinental com propulsão nuclear Burevestnik, aparentemente em fase final de testes, amplia ainda mais esse vetor assimétrico. Inicialmente desacreditados pelo Ocidente, esses programas demonstraram-se operacionais, colocando a Rússia à frente de seus adversários nesse domínio específico.
Quadro 1 — Comparativo de variantes de mísseis
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Fonte: Elaborado pelo autor.
Fonte: https://tecnomilitar.wordpress.com/2020/03/23/misseis-de-ataque-hiperso…
Os projetos de modernização foram possibilitados pelos Programas Estatais de Armamentos GPUV-2020 e GPV-2027.5 Os pacotes de investimentos em equipamentos equivaleram a 38% dos gastos militares a partir de 2008, chegando a 45% em 2014 (ALMEIDA NETO, 2021, p. 47). O salto qualitativo entre 2008 e 2017 foi expressivo: segundo o Military Balance do IISS, a Marinha adquiriu mais de 100 submarinos e 12 navios de combate; as Forças Aeroespaciais incorporaram 342 aeronaves de asa fixa, 516 helicópteros, 600 VANTs e 57 satélites militares; e 68 Mísseis Balísticos Intercontinentais foram adquiridos para a Força Estratégica de Mísseis. Em 2017, a parcela de armamentos modernos equivalia a 59,5% do total (CONNOLLY; BOULÈGUE, 2018, p. 8 apud ALMEIDA NETO, 2021, p. 49–50).
Segundo dados do Military Balance, publicado pelo IISS (International Institute for Strategic Studies), a Marinha adquiriu mais de 100 submarinos e 12 navios de combate, enquanto a Força Aeroespacial teve um incremento de 342 aeronaves de asa-fixa, 516 helicópteros, 600 veículos aéreos não tripulados e 57 satélites militares lançados. O Exército, por sua vez, priorizou a compra de sistemas de mísseis de superfície-ar, tanques, veículos blindados de combate e artilharia. 68 Mísseis Balísticos Intercontinentais (MBI) foram comprados no período para a Força Estratégica de Mísseis. Como resultado, em 2017, a parcela de armamentos modernos equivalia a 59,5% do total.
(CONNOLLY; BOULÈGUE, 2018, p. 8 apud ALMEIDA NETO, 2021, p. 49–50)
A reforma militar teve sua segunda fase conduzida pelo general do Exército Sergei Shoigu (2012–2024), que distensionou as relações com os oficiais, criou três novas divisões no Exército e unificou a Força Aérea com a Força de Defesa Aeroespacial, formando as Forças Aeroespaciais Russas (VKS). O Estado-Maior foi posto a cargo do Coronel-General Valery Gerasimov. A doutrina de armas combinadas — ataques simultâneos com diferentes vetores, de modo que a defesa em uma frente exponha vulnerabilidades em outra — foi reformulada e adaptada ao conceito de C4ISR (Comando, Controle, Comunicação, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento), dotando as forças russas de uma consciência situacional significativamente mais eficaz.
Conceito de C4ISR

Fonte: https://www.forte.jor.br/2009/05/14/c4isr/
5 A REESTRUTURAÇÃO DO COMPLEXO INDUSTRIAL-MILITAR (CIM)
O Complexo Industrial-Militar (CIM) soviético originou-se em 1930, com a criação do cargo de Comissário do Povo da Indústria de Defesa. Suas principais bases produtivas localizavam-se em Moscou, Leningrado e Kiev; as bases orientais, nos Urais e na Sibéria, foram potencializadas após a invasão nazista de 1941. A 'Grande Guerra Patriótica' legou ao CIM soviético os princípios da 'duplicidade', da 'redundância' e da profundidade estratégica: os soviéticos operavam com duas variáveis herdadas da formação militar pré-revolucionária — tempo e espaço. Após a vitória de 1945, a chamada 'planificação funcional' consolidou os princípios de conversibilidade do parque industrial militar em civil (empresas híbridas) e a doutrina 'evolucionária' e incremental, gerando escala de produção com incorporação progressiva de novas tecnologias.
Bystrova (2011) demonstra que 25% do PIB soviético na década de 1980 tinha origem no CIM, e que três quartos de toda pesquisa e desenvolvimento do país era empregado nessa área. A superestrutura estatal era, portanto, altamente dependente dessa 'máquina de guerra'. Segrillo (2015) destaca que a perda de produtividade ante à reestruturação produtiva ocidental dos anos 1970 foi fator decisivo para as tentativas de reforma que abriram caminho ao colapso político da URSS — mas os gastos militares, isoladamente, não explicam esse processo.
Em 1991, ao herdar 85% da capacidade militar soviética e cerca de 60% do PIB da extinta União, a Rússia passou por uma transição dramática. Comparando-se 1991 com 1997, após as políticas de ajuste estrutural, as Forças Armadas encolheram aproximadamente 40% e o PIB, cerca de 25%. A Roskomoboronprom6 buscou, com limitado sucesso, reverter as privatizações e impedir o abandono das capacidades industriais militares. Em 1993, o Parlamento aprovou lei que definia quais empresas do CIM poderiam ser privatizadas e quais deveriam permanecer sob controle estatal — um núcleo de 22% das empresas militares foi blindado da privatização. Fora desse escopo, o Estado mantinha participação acionária ou um 'golden share' em casos estratégicos.
Somente a partir do primeiro governo Putin (1999) as privatizações foram sistematicamente revisadas e a reconstituição do CIM passou a ser prioridade de Estado. Putin incorporou a 'doutrina' de Primakov, articulando uma política econômica baseada no conteúdo nacional. Angelo Segrillo (2010) classifica Putin como um 'ocidentalista moderado', que transita entre a soberania e a cooperação com o Ocidente, contendo as facções mais radicalmente antiocidentais dentro da Federação.
O marco fundamental dessa reestruturação foi o programa 'New Look' — 'O futuro das Forças Armadas da Federação Russa e as medidas prioritárias para sua formação em 2009–2020' — articulado com o Programa Estatal de Armamentos (SAP). Nesse quadro foram organizadas a ROSTEC (fundada em 2007), conglomerado de aproximadamente 900 empresas, e a United Shipbuilding Corporation (USC, também fundada em 2007), a maior empresa de construção naval russa, com cerca de 40 estaleiros e 95 mil trabalhadores, responsável por quase a totalidade dos navios da Marinha Russa.
Para exemplificar a lógica do conglomerado, tome-se o caso da United Aircraft Corporation (UAC), parte da ROSTEC. Criada em fevereiro de 2006 pelo Decreto Presidencial n.º 140, a UAC fundiu as herdeiras das históricas firmas soviéticas Ilyushin, Irkut, Mikoyan, Sukhoi, Tupolev e Yakovlev. Seu portfólio abrange desde caças de quinta geração (Su-57) e bombardeiros estratégicos modernizados (Tu-160M) até aeronaves civis (SSJ-100, MS-21), seguindo a máxima do 'plano funcional' soviético: redundância, duplicidade e produção híbrida civil-militar. O Tu-160, desenvolvido em pequena escala ainda na URSS e modernizado nos anos 2010, apresenta hoje múltiplas variantes (Tu-160M, Tu-160 'KRET') que incorporam sistemas avançados de guerra eletrônica e capacidade de carregamento de dois mísseis de cruzeiro hipersônicos de longo alcance.
Organograma ROSCTEC
Fonte: https://www.uacrussia.ru/en/
6 O CONFLITO NA UCRÂNIA: ANTECEDENTES E DINÂMICA
A 'Ucrânia' como país independente, como território contínuo ou como identidade nacional-territorial consolidada não existia, nos termos modernos, antes de 1917. O domínio lituano, polonês, mongol e russo contrastava com a presença das populações cossacas — sobretudo ao sul do Dnieper —, que constituíam um substrato identitário específico. Para os fins deste artigo, serão enfocados os processos pós-soviéticos, com ênfase nos protestos de 2004 (Revolução Laranja) e de 2014 (Euromaidan).
A Ucrânia pós-soviética constituiu-se como um país de profundas desigualdades regionais: regiões mais 'europeias' a oeste e ao norte, contrapondo-se às populações de etnia e língua russas a leste e ao sul. Em 2004, denúncias de fraude nas eleições do candidato pró-russo Viktor Yanukovych contra o pró-ocidental Viktor Yushchenko levaram à ocupação da Praça da Independência. Após intensa pressão interna e externa, os resultados foram anulados e Yushchenko sagrou-se vencedor com 52% dos votos. Já naquele ano, o Center for American Progress admitiu publicamente que os EUA, por meio de organizações não governamentais e fundações, haviam interferido na política interna ucraniana 'para promover a liberdade e a democracia'.7
Em 2010, Yanukovych foi eleito com votação expressiva a leste e ao sul, adotando plataforma de aproximação simultânea com a UE e com Moscou. Em seu mandato, assinou acordo com os russos para uso da Crimeia como base da Frota do Mar Negro até 2042. O estopim de sua queda foi a rejeição das condições de austeridade impostas pela UE para um empréstimo e a aceitação de oferta russa em termos mais favoráveis. A ocupação da Praça Maidan incorporou rapidamente setores reacionários: o Svoboda,8 partido de extrema-direita, articulou-se com o Setor Direito, grupo paramilitar ultranacionalista. A participação de diplomatas estadunidenses nas manifestações — incluindo os senadores John McCain e Chris Murphy e a secretária-assistente do Estado, Victoria Nuland — deixou patente a dimensão geopolítica da crise. A Rússia agiu rapidamente: anexou a Crimeia e, quando levantes eclodiram nos oblasts de Lugansk e Donetsk, enviou apoio militar e logístico.
O 'Acordo de Minsk', assinado em 2014 e revisado em 2015, previa cessar-fogo, eleições e autonomia política para as regiões separatistas, ao mesmo tempo que reconhecia a integridade territorial ucraniana. Todas as partes denunciaram violações mútuas. Significativamente, os signatários do acordo — o ex-presidente francês François Hollande e a ex-chanceler alemã Angela Merkel — admitiram posteriormente que o pacto foi uma 'artimanha' para ganhar tempo e preparar o exército ucraniano.9
Em 2019, Volodymyr Zelensky venceu as eleições no 'voto de protesto' contra a política tradicional. Sem plano de governo claro, abriu-se à agenda ocidental: emendou a constituição para permitir a candidatura à OTAN e à UE, e em 2021 aprovou uma nova Estratégia de Segurança Nacional orientada aos objetivos da Aliança Atlântica. Após um exercício conjunto no Mar Negro, a Rússia enviou formalmente, em dezembro de 2021, um documento às potências ocidentais exigindo garantias contra a expansão da OTAN — que foi ignorado. Menos de cem dias depois, em 24 de fevereiro de 2022, as tropas russas cruzavam a fronteira ucraniana.
Como enfatiza o historiador britânico Geoffrey Roberts (2012), o trauma russo-soviético da 'Grande Guerra Patriótica' — com a perda de aproximadamente 27 a 30 milhões de pessoas entre civis e militares — tornou a profundidade estratégica uma necessidade absoluta. Quaisquer dos fatores que constituem essa profundidade (tempo, espaço, tríade nuclear) colocados em perigo desencadeiam, na lógica estratégica russa, uma resposta militar.
7 ESBOÇO TÁTICO-ESTRATÉGICO DO CONFLITO NA UCRÂNIA
Em termos de contingente, o exército ucraniano era o segundo maior da Europa, atrás apenas da Turquia, e o primeiro em inventário de equipamentos — mesmo que parcialmente composto por material da era soviética. Só em carros de combate principais (MBTs — Main Battle Tanks)10 havia mais de 930 em operação, além de 16 brigadas de sistemas S-300 de defesa antiaérea. Seguindo a periodização proposta por Rodolfo Laterza (2023), o conflito pode ser subdividido em seis fases:
7.1 Fase 1 — Demonstração de Força (fevereiro–março de 2022)
Objetivo declarado: derrubar o governo Zelensky e forçar uma rendição política mediante o cerco dos centros administrativos e decisórios. Os russos executaram ataques à infraestrutura militar (aeródromos, radares, sistemas de comunicação) e operações cibernéticas para neutralizar a capacidade de comando e controle ucraniana. O efetivo empregado, estimado em cerca de 50 mil homens, era insuficiente para estabelecer controle territorial efetivo em regiões de alta densidade demográfica. Negociações que avançavam na Turquia foram interrompidas com a chegada do primeiro-ministro britânico a Kiev e com as imagens do 'massacre de Bucha'.11
7.2 Fase 2 — Aproveitamento do Êxito (março–maio de 2022)
Avanço russo para a anexação de territórios ao sul, leste e norte. Os russos consolidaram o controle no eixo sul (logística via Crimeia) e avançaram sobre Lugansk, Donetsk e Kharkiv. A batalha de Mariupol, onde o Batalhão Azov ofereceu resistência extrema, sintetizou essa fase. Segundo Laterza (2023), foi nesse período que o 'Exército 1.0' ucraniano foi severamente degradado em pessoal e equipamentos. Os países da OTAN com estoques de equipamentos soviéticos enviaram todo o material disponível à Ucrânia, iniciando a transição para material ocidental.
7.3 Fase 3 — Contra-ataque Ucraniano (verão–outono de 2022)
Formação do 'Exército 2.0' ucraniano com recrutas treinados entre junho e agosto de 2022. Os russos, com efetivo insuficiente para controlar regiões do centro e norte, adotaram estratégia de desgaste na linha de contato, utilizando artilharia e drones enquanto recuavam progressivamente para construir linhas de defesa no leste. Os ucranianos recuperaram Kharkiv, Kherson (recuo tático russo), Kupiansk, Izium e Balaklia. Nessa fase, a superioridade ucraniana na operação de drones foi determinante, e os equipamentos fornecidos pela OTAN demonstraram desempenho superior aos correspondentes russos.
7.4 Fase 4 — Reorganização Ofensiva Limitada (outono–inverno 2022/2023)
Os russos construíram linhas de defesa em profundidade — as chamadas 'linhas Surovikin' —, com zonas de saturação de artilharia e campos minados. A Ucrânia aproveitou para formar o 'Exército 3.0', com treinamento intensivo de oficiais da OTAN e uso ampliado de equipamentos ocidentais cedidos por França, Alemanha, EUA, Suécia, Inglaterra e Turquia. As batalhas de Soledar, Bakhmut e Avdeevka prolongaram-se pelo outono e inverno inteiros. As baixas foram enormes para ambos os lados; os russos empregaram intensamente forças de PMCs (Companhias Militares Privadas).12
7.5 Fase 5 — Ofensiva de Verão Ucraniana (julho–outubro de 2023)
Apesar do massivo apoio logístico, de treinamento e de equipamentos ocidentais, os ucranianos obtiveram ganhos territoriais muito limitados nessa fase. As tentativas nas regiões de Bakhmut, Avdeevka e Zaporizhia resultaram em progresso marginal. A capacidade ucraniana de longo alcance, ampliada pelos mísseis cedidos pela OTAN, possibilitou ataques à infraestrutura portuária russa e à Crimeia, além de incursões em regiões fronteiriças russas como Belgorod e o Oblast de Kursk.
7.6 Fase 6 — Ofensiva Russa (outubro 2023–2024)
O período mais recente é marcado pela primazia russa no campo de batalha, com avanços expressivos nas regiões leste, norte e sul. As forças ucranianas apresentam sinais crescentes de desgaste e déficit de suprimentos, agravados pelo atraso nos envios ocidentais — motivados pela concomitância da guerra em Gaza e pelo desgaste político interno dos países apoiadores. Os russos aparentemente solucionaram os problemas de logística e rotação de pessoal, e o CIM rearticulou sua capacidade produtiva de forma a prover equipamentos ao front sem grandes entraves, mesmo sob as pesadas sanções ocidentais. Jack Watling, pesquisador sênior do Royal United Services Institute, ouvido pela CNN Brasil, afirmou que as perspectivas para o exército ucraniano são 'sombrias'.13
8 A DISPUTA GEOECONÔMICA E OS CICLOS SISTÊMICOS DE ACUMULAÇÃO
Para compreender conflitos como os da Ucrânia, da Palestina e da África subsaariana, torna-se necessário analisar as dimensões da economia política global: como a riqueza circula e é produzida na lógica capitalista e como as questões estratégicas articulam-se com as grandes transformações no núcleo dinâmico do sistema capitalista mundial. Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi buscam compreender essas tensões pelo conceito de 'ciclos de hegemonia', que articulam Centro e Periferia em um processo global de produção e circulação da riqueza.
Arrighi (1996) identifica quatro ciclos sistêmicos de acumulação (CSA): o Ibérico-Genovês, o Holandês, o Inglês e o Estadunidense. Cada ciclo articula: (1) períodos de expansão produtiva; (2) fase de intensa concorrência; (3) expansão financeira; e (4) caos sistêmico. Partindo da formulação marxiana D–M–D', Arrighi sustenta que esse padrão representa não apenas a lógica do capitalista individual, mas um padrão histórico do capitalismo como sistema. A crise de hegemonia — a 'fase caótica' — ocorre quando os três pilares do ciclo (hegemonia econômica e militar, regras da concorrência interestatal e papel subordinado da periferia) deixam de se articular. Como o próprio Arrighi sintetiza:
Como regra geral, as grandes expansões materiais só ocorreram quando um novo bloco dominante acumulou poder mundial suficiente para ficar em condições não apenas de contornar a competição interestatal, ou erguer-se acima dela, mas também de mantê-la sob controle, garantindo um mínimo de cooperação entre os Estados. (ARRIGHI, 1996, p. 13)
Todas as vezes que os processos de acumulação de capital em escala mundial, tal como instituídos numa época, atingiram seus limites, seguiram-se longos períodos de luta interestatal, durante os quais o Estado que controlava ou passou a controlar as fontes mais abundantes de excedentes de capital tendeu também a adquirir a capacidade organizacional necessária para promover, organizar e regular uma nova fase de expansão capitalista, de escala e alcance maiores do que a anterior. (ARRIGHI, 1996, p. 14)
É necessário, contudo, articular o conceito de hegemonia de Arrighi com sua formulação original em Gramsci. Para o pensador italiano, tornar-se hegemônico não remete somente ao exercício da dominação econômica, mas também à liderança cultural, intelectual e moral. A hegemonia constitui-se pelo processo dialético entre força e consenso: a prevalência da coerção caracteriza a 'dominação'; a do consenso, a 'hegemonia' propriamente dita (ANDERSON, 2018). Doravante, Arrighi (2007) formula a ascensão chinesa como potencial novo 'hegemon' de forma pacífica, alicerçada nas condições históricas asiáticas e em um Estado centralizado, porém não necessariamente beligerante. Essa premissa, contudo, parece contraditória ao seu próprio postulado sobre o 'Longo Século XX', especialmente diante da postura crescentemente assertiva da China no Mar do Sul da China.
O cerco estadunidense e da OTAN à Rússia evidencia que a política de Espectro de Domínio Total consiste em neutralizar todos os adversários, especialmente os militarmente relevantes. A declaração de 'Aliança Ilimitada' entre Rússia e China, de 4 de fevereiro de 2022 — poucos dias antes da ação militar russa na Ucrânia —, e a defesa conjunta de um multilateralismo baseado em leis válidas para todos os atores constituem um prelúdio de que, por diferentes meios, as duas potências agiriam contra as ações de dominação dos EUA.
Durante o século XIX e início do XX, a Inglaterra buscou evitar a qualquer custo uma aliança entre o Império Russo e o recém-unificado Império Alemão. Não por acaso, o período entreguerras foi marcado por tentativas de direcionar o expansionismo nazista para o Leste, na forma do Lebensraum.14 Com o fim da URSS, o temor de uma aliança Rússia-Alemanha reapareceu no horizonte estratégico das potências atlânticas. A criação dos gasodutos Nord Stream 1 e 2 sinalizava uma aproximação estratégica que os EUA pressionaram para não efetivar desde o início, aplicando sanções a pessoas físicas e jurídicas envolvidas. O premiado jornalista Seymour Hersh15 denunciou ter recebido de fontes ligadas à Casa Branca a informação de que os EUA e a CIA estavam envolvidos na sabotagem dos gasodutos em setembro de 2022, revelando como geoeconomia, geopolítica e hegemonia estadunidense se entrelaçam na neutralização de qualquer vetor de aproximação entre a Europa e a Rússia.
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo buscou demonstrar que a guerra na Ucrânia não representa uma ruptura casual ou imprevisível na ordem internacional, mas constitui a continuidade lógica de contradições acumuladas desde 1991. A expansão da OTAN sobre o Rimland europeu em direção ao Heartland russo — traduzindo operacionalmente as formulações de Spykman (1942) e Brzezinski (1997) — criou o substrato geopolítico do conflito. A reestruturação militar e industrial da Rússia entre 2008 e 2022 demonstra que Moscou não se rendeu à condição de potência declinante imposta pelos anos Yeltsin, mas procedeu a um metódico processo de modernização que tornou seu arsenal novamente dissuasório.
Do ponto de vista teórico, a articulação entre as teorias do Heartland e do Rimland, os ciclos sistêmicos de acumulação de Arrighi (1996) e a teoria gramsciana da hegemonia permite compreender o conflito em sua totalidade: como expressão da crise de hegemonia estadunidense e da emergência de uma nova ordem multipolar ainda em construção. A 'Aliança Ilimitada' russo-chinesa, a AUKUS e a corrida por recursos estratégicos — lítio, terras raras, rotas da Nova Rota da Seda — apontam para um realinhamento do eixo de gravidade do poder mundial do Atlântico para o Pacífico, com a Eurásia como campo de disputa central.
Permanecem em aberto questões fundamentais: em que medida a hegemonia dos EUA corre perigo efetivo? A 'Aliança Ilimitada' russo-chinesa pode esbarrar em disputas territoriais na Sibéria ou no Mar do Sul da China? Ainda há espaço para uma ruptura com a ordem capitalista global? Estas questões evidenciam, por um lado, as contradições estruturais do capitalismo financeirizado e, por outro, sua capacidade inexorável de se reinventar. O que parece inegável é que o processo econômico-político do século XXI coloca de forma candente a questão: as relações de dominação e hegemonia que estruturam o sistema mundial são passíveis de transformação radical, ou o capital se revela, de fato, 'imparável e intangível'?
REFERÊNCIAS
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1 MAD — Mutual Assured Destruction (Destruição Mútua Assegurada). Doutrina nuclear que afirma que o uso de armas nucleares por qualquer das partes resultaria na destruição completa de ambos os beligerantes, funcionando como dissuasor absoluto ao primeiro ataque.
2 BTG — Battalion Tactical Group (Grupo Tático de Batalhão), unidade com aproximadamente 800 homens, concebida para operações combinadas de alta mobilidade e precisão, reunindo infantaria mecanizada, tanques, artilharia e apoio logístico integrado.
3 A ROSTEC foi criada em 2007 como corporação estatal guarda-chuva de aproximadamente 700 a 900 subsidiárias em diferentes áreas de produção bélico-militar. Por seu intermédio, o Estado russo encomenda e financia P&D para o complexo industrial-militar em regime de capital público, privado e misto.
4 Pomeranz (2012) enfatiza que a economia soviética apresentava enormes gargalos burocráticos, resultando em ineficiência e baixa produtividade. O caso emblemático é o da compra de sistemas computacionais da IBM pela URSS, que jamais foram substituídos por tecnologia doméstica equivalente (POMERANZ, 2014).
5 GPUV/GPV — siglas em russo para Programa Estatal de Armamentos (Gossudárstvennaya Programma Vooruzheniy). O GPUV-2020 foi o primeiro grande programa pós-soviético de modernização em larga escala; o GPV-2027 deu continuidade e aprofundou os investimentos em novas plataformas.
6 A Roskomoboronprom, criada em 1992, era o Comitê Russo de Indústria de Defesa, responsável por gerir a transição do parque industrial soviético para a nova realidade pós-URSS.
7 Cf. Center for American Progress. Meddling in Ukraine. 2004. Disponível em: https://www.americanprogress.org/article/meddling-in-ukraine/. Acesso em: 23 mai. 2024.
8 O Svoboda foi fundado em 1991 com a denominação Partido Social-Nacional da Ucrânia — referência direta ao Partido Nacional-Socialista alemão dos anos 1930. Rebatizado em 2004, alinhava-se ao ultranacionalismo étnico ucraniano.
9 Cf. WSWS: https://www.wsws.org/en/articles/2022/12/22/ffci-d22.html. Acesso em: 23 mai. 2024.
10 MBT — Main Battle Tank (Carro de Combate Principal), denominação técnica para tanques de batalha de primeira linha.
11 O ex-chanceler alemão Gerhard Schröder afirmou que os termos gerais das negociações haviam sido acordados quando os ucranianos recuaram. Putin exibiu uma minuta do pré-acordo assinado por representantes ucranianos em reunião com chefes de Estado africanos em Moscou, em julho de 2023.
12 PMC — Private Military Company (Companhia Militar Privada). No contexto do conflito ucraniano, destaca-se o Grupo Wagner, que atuou intensamente nas batalhas de Bakhmut, Soledar e Avdeevka.
13 Cf.CNNBrasil:https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/americo-martins/internacional/analis… russo-sobre-kharkiv-pode-decidir-a-guerra-na-ucrania/. Acesso em: 23 mai. 2024.
14 Lebensraum — 'Espaço Vital', conceito elaborado pelo geógrafo Friedrich Ratzel no século XIX e reapropriado pela ideologia nazista para justificar a expansão territorial para o Leste europeu.
15 Cf. HERSH, Seymour. How America Took Out the Nord Stream Pipeline. Substack, 8 fev. 2023. Disponível em: https://jacobin.com.br/2023/02/como-os-eua-destruiram-nord-stream/. Acesso em: 23 mai. 2024.
- Resumo
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O presente artigo analisa a crise do imperialismo estadunidense a partir de uma perspectiva geopolítica, tomando como eixo central a reconfiguração das relações de poder internacional após o fim da Guerra Fria (1991). Utilizando como referencial teórico as teorias do Heartland (MACKINDER, 1904) e do Rimland (SPYKMAN, 1942), os ciclos sistêmicos de acumulação de Arrighi (1996) e a teoria gramsciana da hegemonia, o artigo examina três eixos articulados: (a) a dinâmica de expansão da OTAN e o cerco geopolítico à Federação Russa; (b) a reestruturação das Forças Armadas e do Complexo Industrial-Militar russo entre 2008 e 2022; e (c) a cronologia tático-estratégica do conflito na Ucrânia, iniciado em fevereiro de 2022. Argumenta-se que a guerra na Ucrânia não constitui uma ruptura abrupta na ordem internacional, mas representa a continuidade lógica de contradições acumuladas no sistema capitalista globalizado, expressando a crise de hegemonia estadunidense e a emergência de uma ordem multipolar em construção.
Palavras-chave: Geopolítica; Heartland; Rimland; Imperialismo; Guerra na Ucrânia; Complexo Industrial-Militar; Multipolaridade.
- Abstract
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This article analyzes the crisis of American imperialism from a geopolitical perspective, focusing on the reconfiguration of international power relations after the Cold War (1991). Drawing on the Heartland theory (MACKINDER, 1904), the Rimland theory (SPYKMAN, 1942), Arrighi's systemic cycles of accumulation (1996), and Gramscian hegemony theory, the article examines three interconnected axes: (a) NATO's expansion and the geopolitical encirclement of the Russian Federation; (b) the restructuring of Russian Armed Forces and Military-Industrial Complex between 2008 and 2022; and (c) the tactical-strategic chronology of the conflict in Ukraine since February 2022. It is argued that the war in Ukraine does not represent an abrupt rupture but the logical continuation of contradictions accumulated within globalized capitalism, expressing the crisis of US hegemony and the emergence of a multipolar order under construction.
Keywords: Geopolitics; Heartland; Rimland; Imperialism; War in Ukraine; Military-Industrial Complex; Multipolarity.
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