Ano 2 nº 09/2021: Por uma Edipiana Repactuação Keynesiana Frente ao Gerontoliberalismo Minotáurico - Cristiano Abreu

boletim 2-09


A conjuntura...

 

POR UMA EDIPIANA REPACTUAÇÃO KEYNESIANA FRENTE AO GERONTOLIBERALISMO MINOTÁURICO: ENTRE O PARTO E O ABORTO DE UM NOVO PARADIGMA ECONÔMICO NO MUNDO

 

Cristiano Abreu

Doutorando em História Econômica - USP

 

cuidado

Colagem por Canellas

 

A história do pensamento, social, político e econômico é marcada por fases e ciclos no mundo. Nada mais normal do que a percepção analítica da realidade mudar através das gerações, e na mesma geração através dos tempos. A verdade científica é sempre dinâmica, e a história cíclica. Aqui, numa adaptação livre do pensamento freudiano sobre o mito de Édipo, destacamos que as pessoas e gerações precisam se afirmar superando seus pais e as gerações anteriores, “matando” e superando os paradigmas, dogmas e panoramas mentais, da geração precedente. As ideias dominantes expressam ideias não só de classes, mas de gerações: a mudança dos tempos cobra mudanças e adaptações das ideias em relevo na sociedade. Novas gerações, e obviamente, novos campos de força entre as classes, exigem novas ideias dominantes: novos paradigmas intelectuais dominantes.

Contudo, no pensamento econômico vivemos no ocidente uma paralisia desse necessário pêndulo intelectual renovando as perspectivas. Após o ciclo de hegemonia keynesiana no ocidente, dominante desde a II Guerra até os anos 1970 (período do Bretton Woods System: 1944-1973), veio um novo ciclo de hegemonia econômica: o ciclo neoliberal. Thatcher (1979) e Reagan (1981) iniciaram, no centro do sistema capitalista, governos chamados de neoliberais e propagaram uma “Nova Era” neoliberal via mídia reprodutora deste discurso e os órgãos multilaterais centrais (OMC, FMI), que propagavam tal hegemonia. Verdade seja dita que o início, de verdade, do neoliberalismo foi ensaiado em 1973, sob as botas de Pinochet, e seu governo golpista ultraliberal em economia, feito de laboratório para os “meninos de Chicago”1. Curiosamente no mesmo ano do fim de Bretton Woods, 1973, começa o neoliberalismo neste Chile inundado de sangue2. Seguido em 1976 pelo golpe na Argentina, que sob as botas de Videla, para destruir o peronismo, resolveram destruir toda a indústria argentina: assim matariam o Trabalhismo no altar neoliberal. Não foi por coincidência que esses dois primeiros ensaios do neoliberalismo, no Chile e na Argentina, mataram dezenas de milhares de pessoas. Na Argentina mais de 30.000 mortos3 e desaparecidos. Curiosamente o número de brasileiros mortos sonhados por Bolsonaro4 para “dar um jeito” no Brasil. Não por acaso Paulo Guedes é o Czar da economia no governo Bolsonaro.

Destaca-se aqui o casamento histórico entre neoliberalismo econômico e autoritarismo político. Pois há um discurso apologético ao liberalismo, monolítico na mídia empresarial, que mente sistematicamente ao tentar casar o liberalismo econômico com o político: como se eles fossem necessariamente ligados. Nada mais enganoso. Pois nas contradições direcionadas “as instituições liberais não foram forjadas para dar guarida à soberania popular e sim para evitá-las.”5 Ou dizendo mais claramente: o liberalismo econômico vive muito bem sem democracia. As ideias e ideologias, como os seres humanos e todas as suas criações, são contraditórias. E quando qualquer ideia, por mais bela que possa ser no papel, é levada à cabo na realidade social de forma fundamentalista, sem ponderações de meio termo e balizamento no humano...Tal ideia levada à cabo assim sempre tenderá a causar catástrofes em larga escala. Pois é isso o que o “neoliberalismo”, tão ininterruptamente decantado pela mídia, faz no mundo real quando é executado dessa forma fundamentalista. Seja na Argentina de Videla ou no Brasil de Bolsonaro/Guedes.

Logo, não é nada paradoxal o ultraliberalismo econômico vir atrelado ao autoritarismo político: tal distopia totalitária em economia só se viabiliza, na prática, sob regimes políticos antidemocráticos. Quanto mais dogmaticamente liberal em economia for, mais autoritário precisa ser em política.

Os mais afoitos defensores do ultraliberalismo são os que mais se diziam horrorizados com perdas humanas sob o stalinismo ou no Camboja de Pol Pot. A escandalização seletiva é uma evidencia de caráter duvidoso e de capacidade intelectual comprometida: os mesmos ultraliberais em economia fingem não ver a crescentemente absurda cota de sangue exigida pela prática do dogmatismo ideológico ultraliberal que defendem. A escandalização deles vale só para um lado.

 

Supertese Neoliberal

 

Assim o neoliberalismo segue autoritário politicamente e na blindagem ideológica que o transforma num dogma sagrado, que não pode ser questionado. Autoritarismo ideológico que torna este histórico neoliberalismo uma Supertese, paralisadora da história intelectual. Gramsci em seus cadernos escreveu a teoria do “Transformismo”, na qual, dialogando com a Dialética Hegeliana e o Materialismo Dialético, viu no fascismo em que vivia a castração da superação dialética da História. Uma vez que a antítese, que “normalmente” superaria da Tese para com ela gerar uma síntese no esquema dialético, seria então impedida de fazer tal processo. O que era Tese X Antítese dando numa Síntese, que viria a ser a Nova Tese… e assim por diante. Agora as antíteses seriam ou destruídas ou cooptadas e absorvidas numa supertese. Tal movimento seria o que ele chama de Transformismo: a antítese sendo destruída ou absorvida numa supertese, impedindo assim a marcha geracional da História. O que Gramsci identificou no fascismo é exatamente o que ocorre com a narrativa neoliberal em várias instituições.

 

Gerontoliberalismo

 

A hegemonia do ciclo neoliberal alcança seu apogeu com a queda do muro de Berlim e o fim da URSS. Nos anos 1990 presenciou-se um tsunami neoliberal em muitas partes do mundo, notadamente na América Latina, sendo seu exemplo mais icônico o da Argentina: país que se dolarizou, se abrindo economicamente e deixando sua base industrial se extinguir numa regressão neocolonial econômica em direção às suas “vantagens comparativas” agrícolas, numa economia reprimarizada. A redemocratização da Argentina (1983), desde Menem nos 1990 completou, com muito maior eficácia com a dolarização, o plano de destruir o Trabalhismo pela destruição de qualquer base industrial: tal devaneio ideológico máximo do “neoliberalismo” levou este país, riquíssimo em alimentos e recursos naturais, a um colapso completo em 2001 conhecido como “argentinazo”, quando a Argentina saiu da dolarização via colapso generalizado das instituições, da moeda e dos contratos. Sob a arrogância pseudo contratualista, a ideologia “neoliberal” destrói as Instituições, destrói qualquer base de contratualismo, ao ignorarem as Instituições históricas dos países, o Povo, a História, suas tradições políticas (como oTrabalhismo), ao forçarem a realidade a caber nos seus delírios ideológicos totalitários de um liberalismo econômico perfeito, que só existe no onanismo mental dos “Chicago boys” e dos seus replicantes do jornalismo econômico da mídia monopólica.

>Curiosamente tais “liberais” não admitem que a mídia no Brasil é oligopolizada, não só economicamente, mas ideologicamente: justamente desde anos 1990, senão antes, a ideologia neoliberal é um dogma econômico de todas as redações da mídia corporativa do Brasil. Não há debate, ou como eles gostam de apregoar, concorrência das ideias nos textos dessa mídia. Há uma reprodução absoluta, chapada, antidemocrática e anti-intelectual, do discurso único do “neoliberalismo” em matérias econômicas a mais de 30 anos. Tal “neoliberalismo” já precisava ser renomeado de gerontoliberalismo, tamanha petrificação ideológica imposta há mais de 30 anos por essa mídia monopólica. Esse dogma da “novidade” compulsória, mimetizado da irritante publicidade, chegou ao paroxismo da criação de um partido histericamente dogmático neste “neoliberalismo” que, obviamente, alcunhou-se de “Novo”. A histeria novidadeira é uma estratégia publicitária orwelliana: socar o velho liberalismo econômico travestido de “Novo", “Neo” e outras fantasias jovializantes. O honesto seria eles revitalizarem o velho partido Liberal do Brasil, que vem do Império do Brasil, estagnado economicamente e escravista, e que seria muito correto para o Brasil se tivéssemos revigorado um partido Liberal que honrasse este nome. Instituições sólidas se fazem calcadas na História, não em moda.

 

Monopólio Midiático da narrativa econômica única

 

A reincidência em falar da mídia aqui é que tal instituição, com todos os seus problemas e contradições, precisa dialogar com a realidade, pois tem causado um mal criminoso à sociedade ao dogmatizar os temas econômicos, blindando-os de qualquer debate público minimante honesto. A mídia empresarial costuma ser elogiada por ser progressista em pautas de costumes. Mas em economia o dogmatismo de discurso único é onipresente. Comprometendo todo vestígio de respeito democrático desta Instituição. A democracia no Brasil, para ter algum futuro, precisa que seja democratizada a pauta econômica dessa mídia.

Exemplo recente: eis que no conhecido programa de entrevistas da TV Cultura, Roda Viva, ao entrevistarem Gustavo Franco neste 22/03/20217, viu-se a apresentadora mostrar esse dogmatismo: perguntou ao Sr. Franco como ele não antecipava todo o autoritarismo de Bolsonaro. Mas não preocupada com a total falta de planejamento (estatal) para a pandemia, e sim que “seria óbvio” que Bolsonaro seria antiliberal em economia, pois comprovadamente o é em política. Tal apresentadora comprovou sua ignorância em história do Chile e da Argentina. Mas isso é o de menos: o que importa para ela, e por isso ela está naquele posto, é amarrar o liberalismo econômico com o político de qualquer forma. Ela disse diversas vezes que Bolsonaro sempre foi “corporativo”, “estatista” e “estatizante”, sendo corroborada por toda a bancada de jornalistas: não há outra opinião. Bolsonaro corporativo é verdade, mas “estatista” e “estatizante” NÃO: eis o trabalho desonesto dela em mentir, forçando na visão da opinião pública uma defesa de estatais que Bolsonaro nunca fez. Ela, mostra-se planfletária do dogma geronto/liberal/escolástico, e reclamava que era óbvio que ele “não faria AS reformas”... Claro: ao reprodutor do dogma nunca está bom, por falta de forçar mais ainda a realidade dentro do dogma. O teto de gastos, congelamento de salários por mais de 10 anos, dolarização dos combustíveis extraídos e refinados no Brasil para o consumo interno, privatização da Embraer (levada a cabo por Bolsonaro, só paralisada por questões externas, à revelia dele)... Tudo isso foi “pouco liberalismo”. Como os Chicago boys diriam frente ao colapso na Argentina em 2001, no Argentinazo, “se tivesse imposto mais neoliberalismo, teria dado certo”. Of course!!! Franco respondeu como pode, mas não teve a coragem de dar uma aulinha para a tal jornalista sobre a história econômica do Cone Sul.

 

O dogmatismo da “escolástica econômica”: esclerose intelectual pública

 

Grande parte do mundo acadêmico foi contaminado por este dogmatismo, que tem transformado a economia numa “nova escolástica”. Num paralelo da crise da filosofia então realizada nas Universidades sob a hegemonia religiosa, a filosofia então feita, conhecida como escolástica, foi se isolando num altar dogmático, cada vez mais ridículo e descolado da realidade dinâmica de uma Europa que deslizava, irrefreavelmente, para a Modernidade. Tal filosofia escolástica foi para a lata do lixo da história intelectual do ocidente. Pois hoje o dogmático “neoliberalismo” já se tornou, a muito tempo, uma “escolástica econômicagerontoliberal, reproduzida zumbinicamente por acadêmicos e jornalistas desonestos intelectualmente. O pêndulo do pensamento econômico exige uma retomada keynesiana, retomada estruturalista, um NEOCEPALISMO (na América Latina), retomada intelectual marxista... para que exista um debate econômico vivo e real. Em vez da moribunda reprodução escolástica/geriátrica da mídia monopólica e das Universidades paralisadas intelectualmente neste altar dogmático do “Fim da História” do pensamento econômico do gerontoliberalismo.

 

Gerontoliberalismo Minotáurico frente uma Repactuação Keynesiana Edipiana

 

A explosão dessa hecatombe viral no mundo, gerando uma pandemia em escala global, jamais vista desde 1920, tem impactos em todas as frentes, materiais e de pensamento. Óbvio que quem pensa a economia e a história do pensamento econômico logo percebe as necessidades de adaptação mental para encarar tal realidade. Como antecipado no tema do XI Congresso do Programa de Pós-graduação em História Econômica8 da USP em 2020, a pandemia forçou o mundo à uma economia de Guerra óbvia e incontornável: com a crise sanitária da Covid-19 abriu-se o sinal para um keynesianismo pandêmico, ou keynesianismo viral<, numa reverencia ao keynesianismo militar. Relativizando questões inflacionárias, relação dívida/PIB, bem como todos os sinais conhecidos. Mostrando que apenas pessoas assustadoramente dogmatizadas poderiam seguir levando à sério dogmas imateriais como: teto de gastos, preocupações metafisicas com dívida pública (que só crescem impunemente em qualquer país desenvolvido), ou mesmo com inflação, terrível fantasma do Brasil no século XX, mas que no Brasil do século XXI, autossuficiente em alimentos e energia (as duas principais causas da dívida externa do Brasil no século XX foram a importação de petróleo e trigo), parece um fantasma de papel. No Brasil atual, autossuficiente em alimentos e energia, e com a fábrica China a nos dispor de um tsunami industrial barato: a inflação no Brasil é um fantasma do século XX. A inflação de alimentos e energia que sentimos hoje ocorre porque o atual governo a buscou.

Enfim, todo o edifício ideológico do neoliberalismo torna-se, a cada dia que passa com cada vez mais milhares de mortos por este vírus no Brasil, um devaneio macabro, descolado da realidade histórica. As ideias fazem parte do real, transformando a realidade. Mas para isso qualquer ideia precisa estar ligada e dialogar com a realidade, sob o risco de se transformar numa fantasmagoria pervertida: numa escolástica necrófila.

Neste ponto a alegoria aqui evocada do Minotauro pode ilustrar bem o que vivemos: o mito ancestral do Minotauro exigia que a cidade de Atenas lhe enviasse uma quantidade de jovens, anualmente, para servirem de alimento ao monstruoso Minotauro. Tal monstruosidade sacrificial é uma metáfora de uma Era de Touro, que devia ser superada. E na história da religiosidade ocidental ficou como exemplo de rituais ancestrais cruéis, devidamente superados no Cristianismo, que se concentrou na tradição ritualística de Dionísio, Deus do Amor, em cujo ritual não se podia matar animais: o vinho era usado simbolizando o sangue e o pão a carne. Eis a origem da missa cristã, dando na forma de seu ritual uma completa distância dos rituais ancestrais mais violentos. E no conteúdo e pensamento o Cristianismo se concentrou na palavra grega Logos: na Bíblia em português traduziram Logos por Verbo no Novo Testamento: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós..,”, no original era Logos<. Logos que significa a palavra lógica, em oposição a palavra Mito, que em grego significa a palavra mágica, fantasiosa. Tal digressão aqui serve para ilustrarmos como estamos sob uma regressão civilizatória absurda: tratar pessoas como “Mito” e negar as premissas lógicas da ciência e racionalidade é uma regressão macabra, incensada pela ideologia gerontoliberal, ou escolástica necrófila desse dogmatismo liberal zumbi, que se recusa a sair de cena. Todo o crime de GENOCÍDIO realizado pelo governo de Bolsonaro ocorre sintonizado com a ideologia “neoliberal” levada a cabo cegamente por Guedes e aplaudida pela mídia monopólica (lembremos da apresentadora de uma TV pública aqui citada), que acreditam nos dogmas liberalóides como idólatras de um Minotauro, que exige sua crescente cota de sangue da sociedade.

Tal paralisia da razão precisa encontrar limites nas forças da renovação: as forças edipianas, que não podem mais serem mortas numa Supertese paralisante da História, nem mais ignoradas. Os EUA sob essa nova presidência, mesmo sob um partido oligárquico, com um quadro dos mais conservadores dentro dele posto na presidência, lança um programa de combate à pandemia e de recuperação econômica literalmente trilhardário9. Que já é comparado ao New Deal10 dado o nível de gastos, marcando uma total reversão paradigmática em direção à uma repactuação keynesiana. Tal resultado é um imperativo da situação pandêmica, mas também uma resposta do stablishment do partido às grandes forças renovadoras, edipianas, como a deputada Alexandria Ocasio-Cortes, defensora de um Green New Deal e o octogenário senador Bernie Sanders, sempre corajoso politicamente e audacioso intelectualmente. A audácia de sua campanha, antes da pandemia, pode ser vista como uma corajosa tentativa de repactuação nacional nos EUA frente ao irrefreável crescimento Chinês11. Diante dessas forças renovadoras para uma Repactuação Keynesiana, Green New Deal, MMT...e tantas ideias e propostas, somadas a pandemia, obrigam o presidente Joe Biden, por forças maiores da História, a caminhar para ser lembrado ao lado de Roosevelt12. Enquanto isso o Brasil segue sob um presidente, e uma política econômica e sanitária, que entrará pra História ao lado de quais figuras?

 

12 https://www.liberation.fr/international/amerique/joe-biden-un-nouveau-r…

 


Expediente

Comitê de Redação: Adriana Marinho, Vivian Ayres, Rosa Rosa Gomes.
Conselho Consultivo: Dálete Fernandes, Carlos Quadros, Gilda Walther de Almeida Prado, Daniel Ferraz, Felipe Lacerda, Fernando Ferreira, Lincoln Secco e Marcela Proença.
Publicação do GMARX (Grupo de Estudos de História e Economia Política) / FFLCH-USP
Endereço: Avenida Professor Lineu Prestes, 338, Sala H4. São Paulo/SP. CEP: 05508-000

Email: mariaantoniaedicoes@riseup.net