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FATO HISTÓRICO:
entre o evento e a narrativa
Teoria, seleção e interpretação na escrita da história na perspectiva de Adam Schaff
Hastha Bernardo
Mestranda em História Econômica (FFLCH-USP)
Adam Schaff em retrato oficial de 1965, época da publicação de sua obra 'Filosofia do Homem' - Foto: Acervo da Editora Książka i Wiedza / Universidade de Varsóvia.
Este texto foi originalmente apresentado na reunião do Grupo de Estudos de História e Economia Política (GMarx) em 5 de março de 2026, no anfiteatro Fernand Braudel do Departamento de História da FFLCH-USP. Trata-se de uma exposição do capítulo “Os fatos históricos e a sua seleção”, do livro História e Verdade, do historiador polonês Adam Schaff, publicado originalmente em 1970.
SCHAFF, Adam. História e Verdade. São Paulo: Martins Fontes, 1991. (Coleção Novas Direções). [Trabalho originalmente publicado em 1970].
O capítulo começa com uma citação do historiador inglês Edward Carr a respeito da seleção dos fatos pelos historiadores. Em suma, Carr afirma que os historiadores tratam dos fatos que eles desejam encontrar.
Assim, logo de início Schaff rejeita a ideia de que a divergência entre os historiadores surge no momento em que eles passam a interpretar os fatos. Ele nega a oposição entre, primeiro, o fato histórico como um produto, e, segundo, o ato da sua elaboração. Essas duas facetas da história estão imbricadas.
A afirmação anterior poderia ter sido verdade em algum momento, mas o conhecimento evolui e algumas afirmações, portanto, tornam-se velhas, isto é, tornam-se ultrapassadas. No entanto, isso não quer dizer que não há verdades objetivas, esses fatos não são meras falsificações.
Schaff destaca a dificuldade da tarefa na qual ele se propõe que é, por um lado, rejeitar as concepções históricas que são incapazes de apreciar a subjetividade do conhecimento e, por outro, conservar a teoria do fato histórico a partir da verdade objetiva que ela possui. Para tanto, ele propõe inicialmente uma análise semântica da expressão “fato histórico”.
Schaff se utiliza de escritos do historiador estadunidense Carl L. Becker para colocar a questão que ele aborda neste capítulo: o que é o fato histórico?
O problema do que é o fato não é um problema apenas da História nem sequer apenas das ciências sociais, é uma questão também para as ciências da natureza. Os convencionalistas da escola francesa, sobretudo, a geração Boutroux-Poincaré-Duhem-Le Roy, foram responsáveis por colocar em dúvida a autonomia e a soberania do fato científico.
Apesar das ressalvas feitas à escola, Schaff reafirma seu mérito ao explicitar a importância do aparelho conceitual na construção da ciência, em particular na percepção e na elaboração dos fatos ditos científicos. O autor afirma que a ciência histórica está atrasada nesse sentido, sobretudo no que diz respeito ao papel ativo da linguagem no estudo dos fatos históricos, mas ele não se aprofunda nisso e volta logo à questão proposta inicialmente: o que é o fato histórico? A resposta para essa questão está no sentido que é atribuído à pergunta feita.
O que pode ser denotado como “fato histórico”? Quais são os fenômenos históricos que podem ser designados por esse nome, por essa expressão?
Schaff cita como exemplo a passagem de César pelo Rubicão. Um fato histórico. Um acontecimento, qualquer coisa que aconteceu uma vez pode ser um fato histórico.
No entanto, alguns processos que manifestam regularidades determinadas também podem ser fatos históricos. O enfraquecimento do feudalismo nos campos em consequência da extensão das relações capitalistas na cidade é um fato histórico na Rússia do século XIX. O autor cita ainda o papel de certas instituições na vida social; produtos materializados de certos acontecimentos (como constituições, leis etc.); e, por fim, produtos de uma cultura material ou espiritual (monumentos, ferramentas, utensílios, livros).
Schaff conclui, então, que “[...] os fenômenos suscetíveis de serem chamados ‘fatos históricos’ podem ser dos mais numerosos e dos mais diversos. Em princípio, toda a manifestação da vida social do homem pode ser um fato histórico; pode sê-lo, mas não o é necessariamente”.
É necessário fazer uma distinção clara entre o acontecimento que se deu no passado e que, portanto, pode ser chamado de fato porque, de fato, aconteceu; e o fato histórico, isto é, aquele que devido a sua importância ao processo histórico se tornou ou poderá se tornar objeto da ciência histórica.
Eu me lembro perfeitamente bem do dia em que eu atravessei a ponte do rio Pinheiros pela primeira vez em direção a USP. Isso é um fato, mas ele não tem nenhuma relevância à ciência histórica, assim, esta travessia minha é apenas um acontecimento que se produziu no passado. A travessia de Júlio César no Rubicão é um fato histórico devido à sua importância ao processo histórico. Ao decidir cruzar o rio com sua legião em 10 de janeiro de 49 a.e.c., César desafiou o Senado e iniciou uma guerra civil. A travessia do Rubicão é um acontecimento, mas também um fato histórico, uma vez que é objeto da ciência histórica.
Schaff conclui, portanto, que “todo fato histórico é um acontecimento do passado, qualquer coisa aconteceu no passado, mas que a inversa nem sempre se verifica: um acontecimento qualquer do passado não é automaticamente um fato histórico”.
Essa observação é de extrema importância porque a partir dela concluímos que é necessário procurar a diferença específica entre o que é ou não é um fato histórico. É necessário observar o acontecimento a partir de um sistema de referências, em um contexto determinado e discernir ali, de um ponto de vista qualificado, o que pode ou não ser determinado como “fato histórico”.
Em uma segunda tentativa de formular uma resposta à questão colocada, Schaff faz uma distinção entre as múltiplas e diversas manifestações da vida social, aquelas que de acordo com uma definição tem direito a ser notadas como fatos históricos.
Como já concluímos, todas as manifestações da vida são fatos históricos em potencial. Aqui, trataremos da qualificação desses acontecimentos. O que qualifica uma manifestação como fato histórico, e quando se recusa esta expressão a outra.
Citando o texto: “A definição do fato histórico começa geralmente pela verificação de que se trata de um fato do passado”. Assim, pode-se dizer que toda a manifestação da vida dos indivíduos e da sociedade que se transcorre no passado pode ser um fato histórico. E, sim, pode sê-lo, mas nem sempre o é. O problema jaz justamente em saber quando é que a possibilidade se torna realidade.
A resposta para tanto reside no contexto do acontecimento, na relação com outros acontecimentos considerados no encadeamento da causalidade ou da finalidade. Quando César atravessou o Rubicão, esta travessia estava intimamente relacionada ao declínio do Império Romano, da escravatura antiga e da emergência de uma nova formação social. Outros vários milhares de indivíduos atravessaram o Rubicão, mas são historicamente insignificantes, isto é, não geraram acontecimentos importantes e não foram os antecedentes de outros acontecimentos importantes.
O ponto chave, então, é o contexto no qual se insere o acontecimento. Como o acontecimento se relaciona com elementos em uma escala maior, “assim como o sistema de referência em que está expresso sendo este último elemento particularmente importante para discernir o caráter relativo do que chamamos de ‘fato histórico’”, fica evidente que o contexto é determinante para a análise do evento.
Retomando a citação de Carr no início do capítulo, é apenas a consciência do estado das coisas que nos permite entender porque um acontecimento, um processo e seus produtos materiais e espirituais são considerados fatos insignificantes por uns e não por outros. Um historiador que procura apenas fontes sobre a história político-econômica do Brasil durante a ditadura militar ficará indiferente ao testemunho trazido por Belchior no seu álbum Alucinação, de 1976. Esse álbum é uma elaboração intelectual e artística sobre as condições socioeconômicas do país na época, mas para tal historiador não vai ter nenhuma significação histórica. Enquanto que para mim, historiadora da economia e da música, o álbum, que 50 anos após o seu lançamento continua a ecoar não apenas no contexto artístico, mas sociopolítico do país, situa-nos em um contexto mais amplo do país daquela época e nos conecta a um certo sistema de referências: a seca no nordeste; o desenvolvimento das grandes metrópoles no Sudeste e da migração nordestina para essas; a falta de representação de um núcleo muito específico do Nordeste oriental na cena cultural do país naquele momento.
Os fatos históricos, portanto, são manifestações da vida dos indivíduos e da sociedade que são escolhidas dentre muitas outras manifestações pertencentes a uma mesma categoria. Aquilo que influencia essa escolha são as suas relações de causa e efeito e da sua ação no quadro das totalidades. Por exemplo, em 1980, o artista paraibano Vital Farias lançou um álbum intitulado Taperoá em homenagem a sua cidade natal. Tematicamente similar ao álbum Alucinação, Taperoá é uma realização artística ímpar, mas não se estabeleceu como um fato histórico na perspectiva dos estudos da história da música por não se relacionar a outros acontecimentos posteriores na história da música em um nível local e nacional.
Nesse contexto, em um sistema de referências no qual se opera a valorização e, consequentemente, a seleção destes fatos, pressupõe-se então a existência do sujeito que realiza estas operações.
A partir de uma citação do jurista e sociólogo francês, Henri Lévy-Brühl, Schaff elenca três teses que devem ser consideradas em conjunto, formando uma totalidade, sob risco de, ao serem consideradas separadamente, constituírem um erro. As teses são as seguintes:
1. Apenas o fato que produziu efeitos no passado é um fato histórico;
2. O fato social é um fato histórico, pois não se pode produzir efeito senão sobre e pela opinião pública;
3. O fato histórico é constituído pela opinião pública.
À primeira vista, as teses apresentadas revelam um idealismo declarado: os fatos sociais são fatos que participam na consciência coletiva, reduzindo a categoria dos fatos históricos ao eliminar dela tudo o que é material, assim como tudo que é inconsciente da vida social. Na verdade, porém, as teses aproximam-se do ponto de vista de Schaff ao aceitar igualmente como critério distintivo a significação social de um fenômeno determinado da vida do indivíduo ou da sociedade. Ao fazer esta reserva, “Lévy-Brühl reduz uma vez mais o problema aos efeitos produzidos na — e pela — opinião, enquanto que nós alargamos o campo de visão a todos os efeitos sociais”.
Em sua terceira aproximação, Schaff propõe responder à questão colocada definindo de mais perto o problema da estrutura do fato histórico: o fato é simples ou complexo? Particular ou geral? Parcial ou total? Para tanto, o autor retorna ao ensaio de Becker.
A travessia do Rubicão por César é simples, mas ela também foi acompanhada de um grande número de ações, de palavras e de pensamentos da parte de um grande número de homens. Este fato simples é a generalização de mil e um fatos.
Consideramos a travessia de César como fato histórico pela única razão que compreendemos e nos apreendemos às relações deste acontecimento com outros acontecimentos e circunstâncias. O fato histórico não é uma coisa sólida e fria, ele é um símbolo que constitui a generalização de muitos fatos. Quanto mais simples, nítido, determinado e fácil de demonstrar, menos utilizável o é, tornando-se apenas uma coisa em si.
Em acordo com Becker, Schaff afirma que não há fato simples: “a sua simplicidade é ilusória, esta ilusão tem como causa a simplicidade do enunciado que, ao generalizar, abstrai da complexidade da realidade concreta”. Para que a realidade seja compreendida é necessário estabelecer inumeráveis relações entre o fato que é dado e outros acontecimentos, produtos, processos, no contexto dos quais o fato trabalhado se manifesta e é inteligível. Um fato, tido como simples, assim o é porque está separado do contexto da totalidade. Não há, portanto, fato simples, todos os fatos históricos são extremamente complexos.
Nesse sentido, o que é simples é a verificação do fato. Não é o fato que é simples: somos nós que estamos interessados em simplificá-lo; não é o fato que é parcial, somos nós que temos interesse em expor um único aspecto do problema.
Com isso posto, Schaff passa ao questionamento: o que é um fato parcial ou integral, simples ou complexo?
Novamente, voltamo-nos à pergunta. O fato histórico é um acontecimento da história, isto é, um elemento da cadeia de acontecimentos; equivale a um enunciado sobre a história, ou seja, um elemento da história registrada; ou existe ainda uma terceira possibilidade? Em suma, Schaff questiona se o fato histórico é um acontecimento da história, esta como o curso dos acontecimentos da vida dos homens e da sociedade; da história-historiografia, a história registrada; ou, ainda, uma terceira coisa? Esse questionamento surge uma vez que, em tese, a expressão fato histórico pode significar tanto um quanto outro.
Voltamos a Becker. O historiador estadunidense afirma que o fato histórico não é um acontecimento passado, mas um símbolo que nos permite reconstitui-lo em nossa imaginação. Schaff sumariza a concepção de Becker em quatro pontos:
1. o fato histórico é uma asserção[1] relativa a um acontecimento;
2. isto é assim porque o historiador só lida diretamente com asserção, uma vez que o acontecimento já desapareceu;
3. portanto, o fato que permite evocar no espírito a imagem do acontecimento;
4. por consequência, é um erro dizer dos fatos históricos que eles são duros, verdadeiros ou falsos; tomando em consideração que falamos de símbolos, não podemos qualificar esses senão em função da sua adequação, da sua correspondência.
Schaff faz sua análise a partir dos pontos 2 e 3.
A problemática do ponto 2 refere-se apenas superficialmente aos fatos históricos, pois na realidade este problema transfere-se a todo o conhecimento que não pode ter seus fatos verificados no momento exato em que eles se desenrolam no tempo. Quando falamos que César atravessou o Rubicão, não o vimos, com nossos próprios olhos, atravessando o rio, mas ninguém questiona este fato. Contudo, não é isso que interfere na objetividade do conhecimento. Esse dado, esse acontecimento já é passado e não temos que lidar com ele. A questão não é a travessia em si, mas a asserção símbolo dessa travessia.
O questionamento a respeito das proposições de Becker deve concentrar-se no uso da palavra diretamente. Não lidamos diretamente com o fato da passagem do Rubicão por César, mas pelo contrário temos que lidar diretamente com uma asserção relativa a esse fato.
Mas o que significa esta ênfase no diretamente? Qual é o seu significado e quais são as consequências filosóficas que ocorrem de seu uso?
Em uma certa acepção, diretamente quer dizer imediatamente, isto é, sem mediação, e não refere-se apenas aos acontecimentos do passado, mas também a acontecimentos, a coisas e fenômenos que apreendemos no momento presente. Há situações em que não se pode ter uma percepção sensível do objeto estudado senão através de seus efeitos.
Quando Becker diz que o acontecimento histórico, porque já é do passado, não nos é dado diretamente, não podemos deixar de dá-lo razão, mas conhecemos este acontecimento indiretamente através de dados que são, pelo contrário, diretos, como as fontes e as produções que tenham eventualmente sobrevivido até os dias atuais.
Contudo, Becker afirma que só nos são dadas diretamente justamente as asserções, isto é, o juízo sobre os acontecimentos que, por sua vez, são produções do espírito. Por sua vez, Schaff afirma que esta colocação feita anteriormente é falsa pela confusão de duas acepções a respeito do termo diretamente:
“Segundo a primeira acepção, [...] colocamos a questão de saber se apreendemos nós próprios o acontecimento dado, se obtemos portanto informações a seu respeito em conseqüência das nossas próprias observações, e não por intermédio de outros observadores ou pela mediação dos seus traços materiais. Pela segunda acepção do termo "diretamente", ou seja "imediatamente", colocamos em contrapartida o problema filosófico: "o que é que é dado no conhecimento?"; na realidade, pomos fim ao diferendo entre o materialismo (o realismo) e o idealismo imanente.”.
Becker emprega o termo diretamente na segunda acepção.
Schaff critica a ideia de que o conhecimento histórico deva depender da percepção direta ou do testemunho ocular do pesquisador. Isso é um equívoco lógico, pois nenhuma ciência exige que o sujeito observe pessoalmente todos os fenômenos que estuda. Como o conhecimento científico é intersubjetivo, ele se constrói coletivamente, a partir de diferentes fontes e métodos, e não da experiência direta de um único indivíduo. A crença na primazia absoluta da percepção direta é associada a posições filosóficas idealistas e próximas do solipsismo[2].
Assim, definimos mais uma vez o que é o fato histórico: trata-se de um acontecimento objetivo do passado, um fragmento dos acontecimentos efetivamente ocorridos. Questões como o grau de exatidão do conhecimento ou se ele é direto ou indireto não fazem parte da definição do fato histórico, mas dizem respeito ao modo como o conhecemos.
Uma afirmação sobre um acontecimento histórico também pode tornar-se um fato histórico caso tenha impacto real no curso da história. No entanto, é errado identificar o fato histórico apenas com a afirmação ou experiência mental sobre ele, pois isso deriva de uma posição filosófica específica que não corresponde ao significado usual do termo.
Prosseguindo, Schaff concorda, em parte, com Becker em um ponto: um fato histórico não pode ser classificado como verdadeiro ou falso, pois essas categorias se aplicam aos juízos sobre a realidade, e não à realidade em si. Da mesma forma, também concorda que um fato histórico não deve ser chamado de “bruto” ou “duro”, embora discorde de suas razões (para Becker, o fato histórico seria um símbolo, e os símbolos só podem ser julgados quanto à sua adequação).
Schaff apresenta a posição da historiadora polonesa Wanda Moszczenska, que analisa o estatuto ontológico do fato histórico. Moszczenska distingue o fato acontecido, o evento que realmente ocorreu no passado, parte da realidade histórica, e o fato histórico — o evento tal como é estudado pelo historiador, ou seja, um elemento dessa realidade que foi abstraído e isolado pelo pensamento a partir de um contexto mais amplo. Segundo Moszczenska, portanto, o fato histórico corresponde ao fato acontecido, mas aparece como uma versão parcialmente deformada ou recortada, pois é observado dentro de uma determinada perspectiva analítica.
Schaff concorda com a ideia de que o fato histórico faz parte da realidade histórica objetiva, posição materialista oposta à concepção idealista de Becker. No entanto, ele critica a distinção rígida entre “fatos acontecidos” e “fatos históricos”. Essa divisão é problemática, porque se todo acontecimento que deixou algum traço ou fonte virar fato histórico, então quase qualquer evento poderia ser considerado fato histórico, esvaziando o significado da categoria. Além disso, admitir acontecimentos sem vestígios levaria a uma posição agnóstica, semelhante à ideia de Immanuel Kant da “coisa em si”[3]: algo que existiria, mas que seria impossível de conhecer.
Passando à quinta abordagem da questão, Schaff discute se o fato histórico é “bruto” e totalmente objetivo ou se é resultado da atividade do historiador e de uma perspectiva teórica.
Inspirado no debate do convencionalismo, representado por Ferdinand Le Roy, Schaff lembra que mesmo nas ciências naturais os fatos não são totalmente “puros”, pois dependem da linguagem, conceitos e teorias que os organizam.
Voltando a Becker, Schaff apresenta a crítica ao ideal positivista de escrever a história “tal como realmente aconteceu”, defendido por autores como Leopold von Ranke e Numa Denis Fustel de Coulanges. Becker argumenta que o historiador não consegue reunir todos os fatos do passado e inevitavelmente precisa selecionar e organizar as informações, até mesmo dentro de um único fato histórico.
O acontecimento histórico é um fato objetivo, parte da realidade, ligado a inúmeros outros elementos do passado. No entanto, para conhecê-lo, o historiador precisa selecionar certas relações e aspectos, de acordo com um sistema de referência ou objetivo de pesquisa. Assim, ao escolher e interpretar essas conexões, o historiador atribui significado ao acontecimento e o transforma em fato científico, sem negar sua base objetiva.
Nesse contexto, Schaff destaca o papel ativo do historiador no processo de conhecimento, distinguindo o caráter duplo do fato histórico:
1. O fato como acontecimento objetivo do passado, que possui existência real (estatuto ontológico);
2. O fato como representação no conhecimento, isto é, como é compreendido e interpretado pelo historiador (estatuto gnosiológico).
Nesse segundo plano, o historiador inevitavelmente intervém com seleção e interpretação, pois todo conhecimento envolve um sujeito que conhece. Por isso, a ideia de “fatos brutos” totalmente neutros é considerada contraditória. Na ciência, os fatos sempre carregam a marca da interpretação e da atividade do sujeito.
O historiador intervém em todas as etapas da construção do fato histórico: na escolha do acontecimento, na definição de seus limites e na sua interpretação. Apesar disso, a seleção não é arbitrária, pois as relações e acontecimentos existem objetivamente na realidade; o historiador apenas seleciona e organiza esses elementos. Essa intervenção é orientada principalmente pela teoria que guia a pesquisa. Diferentes teorias podem levar a interpretações distintas.
Recapitulando:
1. O fato histórico pode ser um acontecimento, processo ou produto da vida social;
2. O fato histórico é definido como histórico conforme seu significado para o desenvolvimento social, dentro de um sistema de referências;
3. Os fatos históricos nunca são “simples”;
4. Do ponto de vista ontológico, o fato histórico é um fragmento da realidade passada;
5. Do ponto de vista gnosiológico, o fato histórico é o resultado da intervenção teórica do historiador.
Por fim, Schaff introduz um novo problema: os acontecimentos que o historiador não seleciona ou não reconhece como fatos históricos, indicando a necessidade de analisá-los de forma mais sistemática.
Schaff rejeita o positivismo, que supõe a existência de fatos coletados “sem pressupostos”, de que os fatos históricos importantes se destacariam naturalmente dos demais acontecimentos e que caberia ao historiador apenas registrá-los. O autor afirma que nenhum acontecimento é, por si só, significativo: ele é apenas um evento entre muitos.
O significado histórico surge quando há a interação entre o acontecimento (objeto) e o historiador (sujeito) que o interpreta. Assim, é a teoria ou perspectiva do historiador que orienta a seleção dos acontecimentos considerados fatos históricos. Por isso, historiadores frequentemente discordam sobre quais fatos são relevantes e eventos antes considerados sem importância podem, em outras épocas ou correntes historiográficas, passar a ser reconhecidos como fatos históricos.
A seleção dos fatos históricos e a construção do próprio fato histórico estão interligadas. Ao selecionar materiais para construir um fato histórico, o historiador também define quais acontecimentos são historicamente importantes entre a massa de eventos do passado. Essa seleção sempre ocorre a partir de uma teoria ou hipótese prévia, que funciona como sistema de referência. Sem essa orientação teórica, o historiador ficaria diante de um caos de acontecimentos, incapaz de determinar o que é relevante.
Ao longo do tempo certos eventos antes ignorados passam a ser valorizados, enquanto outros perdem importância. Isso revela que a definição do fato histórico depende de interpretações e mudanças nas perspectivas historiográficas.
Quem decide a importância dos fatos históricos é o historiador, mas essa decisão não é arbitrária ou puramente subjetiva. O historiador é um produto de seu contexto social, formado por determinadas teorias e influenciado pelas condições históricas, pelos interesses de sua época e de seu grupo social.
Assim, a interpretação histórica eleva certos acontecimentos à condição de fatos históricos ou reduz outros à insignificância. No entanto, isso não significa que os fatos sejam inventados: os acontecimentos existem objetivamente, mas sua seleção e significado dependem da interpretação orientada por teorias e condicionamentos sociais.
Dessa forma, o conhecimento histórico envolve a interação entre realidade objetiva e a intervenção interpretativa do historiador, em consonância com perspectivas contemporâneas da teoria do conhecimento e de áreas como linguística, psicologia e sociologia do conhecimento.
Tornar um acontecimento um fato histórico não é o ponto de partida da pesquisa, mas o resultado do processo interpretativo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da língua portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010.
SCHAFF, Adam. História e verdade. 6ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
[1] Afirmação, declaração afirmativa ou proposição apresentada como verdadeira, muitas vezes com ênfase ou convicção, independentemente de possuir provas ou não.
[2] Doutrina segundo a qual só existem, efetivamente, o eu e suas sensações, sendo os outros entes (seres humanos e objetos), como partícipes da única mente pensante, meras impressões sem existência própria.
[3] A “coisa em si” (Ding an sich), ou númeno, é a realidade como ela é independentemente da nossa percepção, sendo inacessível ao conhecimento humano. Diferente do fenômeno (o objeto organizado pelos nossos sentidos e entendimento no espaço e tempo), a coisa em si existe fora da nossa capacidade cognitiva.
- Resumo
-
O artigo é uma exposição do capítulo “Os fatos históricos e a sua seleção”, do livro História e Verdade, do historiador polonês Adam Schaff, publicado originalmente em 1970. Tem como objetivo apresentar as aproximações feitas por Schaff a respeito do fato histórico, para tanto, utiliza-se exemplos trazidos tanto por Schaff, no livro, quanto pela própria autora do artigo. Schaff faz sua argumentação a partir dos diferentes sentidos que podem ser atribuídos à pergunta “o que é o fato histórico?”. Como resultado, tem-se que o fato histórico pode ser um acontecimento, processo ou produto da vida social; é definido como histórico conforme seu significado para o desenvolvimento social; é um fragmento da realidade passada e, ao mesmo tempo, o resultado da intervenção teórica do historiador. Conclui-se, então, que os acontecimentos existem objetivamente, mas sua seleção e significado dependem da interpretação orientada por teorias e condicionamentos sociais.
Palavras-chave: Adam Schaff, teoria e metodologia da história, fato histórico.
- Abstract
-
This article presents an exposition of the chapter “Os fatos históricos e a sua seleção” from the book História e Verdade, by the Polish historian Adam Schaff, originally published in 1970. The objective is to present Schaff’s approach to the concept of historical fact, using examples from Schaff’s book as well as from the article's author's own analysis. Schaff’s argument stems from the different meanings that can be attributed to the question “What is a historical fact?”. He argues that a historical fact can be an event, a process, or a product of social life; it is considered historical according to its significance for social development; it constitutes a fragment of past reality and, at the same time, the result of the historian’s theoretical intervention. Schaff thus concludes that events exist objectively, but their selection and meaning depend on interpretation, which is guided by theoretical frameworks and shaped by social conditioning.
Key-words: Adam Schaff, theory and methodology of history, historical fact.
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